<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644</id><updated>2011-04-21T18:47:23.799-07:00</updated><title type='text'>MAGIC PUZZLE 1</title><subtitle type='html'>*** SELECTED WORKS ***</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>74</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-630835974822917053</id><published>2009-02-25T22:50:00.000-08:00</published><updated>2009-02-25T22:55:15.417-08:00</updated><title type='text'>TUDO É NADA</title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;handke-1-nw-pdf&gt;  – editável urgente gato das letras - 22475 caracteres - 9 páginas - handke-1&gt; - merge doc de um unico file wri do mesmo nome handke-1&gt; para ficções+ 24448 bytes &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;quinta-feira, 26 de Setembro de 2002&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TUDO É NADA NUNCA: PÁGINAS PERDIDAS DE PETER HANDKE/ MANUSCRITOS DA JUVENTUDE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se, ao repudiar o sofrimento, eu estivesse a dizer que perfilho o prazer!&lt;br /&gt;Se o sofrimento é um incómodo, o prazer é uma chatice.&lt;br /&gt;E ambos a mesma comida vomitada.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Na sequência lógica desta evidência, a poesia vale o mesmo que o resto: nada. Porque havia de a levar mais a sério?&lt;br /&gt;Mal necessário, jogo em que me ocupei algumas horas, a poesia serviu-me de passatempo. &lt;br /&gt;Do tempo que (não) vivi fiz diários e dei-lhes nomes. &lt;br /&gt;É isso a minha poesia?&lt;br /&gt;A minha existência ?&lt;br /&gt;Uma coisa e outra?&lt;br /&gt;Uma coisa nem outra?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Continuo sem saber para que estou aqui. E sem saber se ficar é preferível a ir (antecipar a ida) ou se alguma coisa é preferível a alguma coisa.&lt;br /&gt;Eis o que posso repetir de mil e uma maneiras naquilo  que pode, pelo aspecto gráfico, chamar-se poesia.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Para já e que me lembre, sei entre outras coisas igualmente nojentas e incómodas que sou austríaco, que sou cristão, que sou ocidental,  três motivos mais que suficientes para odiar a (m/) existência, se a própria existência ou gaiola de me sentir espécie humana não fosse por si só suficiente.&lt;br /&gt;Contra essas gaiolas vão as palavras a que talvez (se) chame poesia.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Irrita-me às vezes que os outros tivessem feito da poesia um valor : uma arte (a arte de combinar palavras agradáveis ao ouvido).&lt;br /&gt;A abjecção de tudo e principalmente dos valores que procuram obviar à Abjecção, não pode nem deve merecer porém de um bom observador mais do que indiferença.&lt;br /&gt;Reconheço contrariado que levo por vezes o ofício de escrever mais a sério do que devia. E reconheço, irritado comigo mesmo, que do meu niilismo tenho a petulância, por vezes, de extrair valores, começando na identificação de escrever e existir, levando qualquer dos dois ofícios mais a sério do que é lícito.&lt;br /&gt;Devo reconhecer que do escrever apenas fiz o mal necessário para obviar ao mal de existir, uma forma de barulho para não ouvir o ressonar que a morte faz aos ouvidos dos vivos.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando me ocupo a desmontar, com palavras, as mitologias que compõem o nosso quotidiano, não quero dizer que acredite em alguma reforma ou revolução ou que acredite de que tudo será desejavelmente melhor e diferente amanhã.&lt;br /&gt;Com a palavra apenas desmonto os sistemas de mitos que as palavras compõem. Amor com amor se paga. Ou dentada de cão cura-se com pelo do mesmo cão.&lt;br /&gt;Juro entretanto que não quero salvar nada: nem o mundo, nem a pátria. Hoje ou amanhã. Nada nunca. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando a poesia deixa de ser o lirismo gratuito e passa a intervir, como desintegração da linguagem ou mitologias vigentes, nos problemas do conhecimento, atinge o campo filosófico. E os filósofos, naturalmente, reagem.&lt;br /&gt;De várias desintegrações se pode hoje falar: atómica, lógica. Quando o poeta começou a mergulhar nos infernos, tremeu o olimpo dos filósofos, tremeu a ordem racional. &lt;br /&gt;Falou-se de um regresso à barbárie mas todos viam que se não tratava de um regresso mas de um progresso. A ciência e a filosofia nela baseada ainda não conseguiram, até hoje, digerir este surto que foi o da «sensibilidade moderna» ou Modernidade. Nem esperemos que o consiga. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A «alquimia do verbo» , a «vertigem da palavra», a «aventura da linguagem» - expressões que evocam o ressoar de «o verbo é Deus» - resumem-se nesse processo a que o poeta sujeitou a linguagem, processo simultaneamente desintegratório e criador, destruindo mitologias velhas para criar os mitos do homem novo - o homem por vir.&lt;br /&gt;Muitos, no entanto, perderam o pé e a «aventura da linguagem» é apenas a derrocada de babel e repete a babélica confusão. A língua foi dada aos homens para os perder (como se supunha e ainda supõe) mas também para os salvar?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Todas as experiências com palavras me parecem consequentes, se constituírem tentativas de obter novas e eficazes maneiras de comunicar o imaginável, o inimaginável.&lt;br /&gt;Fora deste contexto, é mera técnica pela técnica, é formalismo, é reacção e abjecção literária, é literatura pela literatura, «cochonnerie». &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Mas quem vai dizer aos da literatura literária que poesia pouco ou nada tem a ver com literatura?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Esta forma de preguiça chamada escrever, esta forma de estar e não estar, este escape, esta fuga, esta forma de não dar forma nem decisão a nada. Esta forma de nada.&lt;br /&gt;E de fadiga.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Escrevo como quem tem pouco tempo. Só o tempo de dizer o pouco que tenho  a dizer, o nada que tenho a dizer. Só o tempo de estar mais algum tempo por aqui, a queimar o tempo, a chatice do tempo.&lt;br /&gt;Já sei: os problemas , os imensos problemas da humanidade e dos arredores da humanidade mas a minha preguiça, o comodismo dos outros, o egoísmo e o resto, se ao menos soubesse o que é o resto.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O drama ou dor da efemeridade é real. O temor da morte , autêntico. Qualquer instante pode ser o último. E ainda que o deseje, aterroriza-me. &lt;br /&gt;Disso também darei testemunho escrevendo, sem que veja nisso idealismo ou metafísica. Idealista é o que se recusa a encarar de frente e francamente aquilo que, embora o atemorize, é real. Darei o testemunho desse temor terror.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A morte é a única coisa importante. E saber que não vale a pena falar disso, de tão certo, de tão absurdamente certo, de tão certo porque absurdo, é uma das maneiras contrariadas de fazer literatura.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Já não vou a tempo de salvar ninguém. Nada de planos «a longo prazo». O que posso fazer, enquanto espero a morte, é escrever. &lt;br /&gt;Escrevo enquanto existo, escrevo porque existo, escrevo logo existo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Face a face com o absurdo do absurdo: eis a verdade. Parafraseando Novalis digo: «Quanto mais poético mais verdadeiro».&lt;br /&gt;Quanto mais lírico, místico ou político, mais anti-poético, mais anti-verdadeiro.&lt;br /&gt;Walt Whitman: o paradigma anti-poético, porque simultaneamente lírico, místico e político.&lt;br /&gt;Artaud, Kafka, Fernando Pessoa ou Beckett, ultrapoéticos porque ultraverdadeiros e nada ou quase nada líricos, místicos e políticos.&lt;br /&gt;A verdade é trágica.&lt;br /&gt;A mentira é lírica, mística ou política. Ou as três coisas ao mesmo tempo. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Disse um dia que a poesia era para  mim um caso de vida ou de morte e ninguém percebeu.&lt;br /&gt;Escrever é hoje a única forma de não me suicidar ou de pensar menos nisso. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Sou e sinto-me a pura inutilidade.&lt;br /&gt;Pergunto para que presto e a resposta é a de que não presto. Para nada. &lt;br /&gt;O que faço, mesmo pouco e mau, é sempre como se fosse a última vez que o fizesse e com vontade de que assim seja.&lt;br /&gt;Todos os projectos para amanhã me soam falsos e ridículos. Para amanhã quando? Quando é amanhã? Sei que nunca será amanhã, e que nasci gasto, cansado, estéril, que acordo sempre ontem.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Nada espero de nada.&lt;br /&gt;Não sou, não tenho, não posso nada. Por isso espero tudo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Os que, sob o pretexto de admirarem a poesia, a odeiam.&lt;br /&gt;Os que atiram pedras a Orfeu.&lt;br /&gt;Os que escrevem nas folhas, falam de arte literária, têm sempre pronta a sair, da cartola de prestidigitadores, uma tradução, uma citação, uma adaptação. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;À ideia pouco lucrativa de literatura-actividade-de-malditos tem vindo a suceder uma ideia mais sensata: a literatura-negócio, a literatura-indústria, a literatura-comércio.&lt;br /&gt;Prósperos negociantes, ricos industriais, nédios merceeiros da literatura dão-lhe hoje um prestígio e um assento nacional invejáveis.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Mas, senhores que falais de artes e letras, que até falais de política e quando calha a fazeis, o problema estético é apenas esse: o de serem eles doentes de outra doença, a doença que escapa e escapará sempre aos doutos clínicos e para a qual todas as sociedades e respectivos governos terão sempre acesas as fogueiras, prontas as lavagens do cérebro, abertos os hospitais e as prisões, franqueados os cemitérios.&lt;br /&gt;Portanto, e com vossa licença, doutores, políticos, artistas de talento (onde só há talento) e escritores (onde só há literatura), merda para a vossa sabedoria, merda para as vossas políticas, merda para as vossas artes e letras.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando viu que não tinha carreira nem futuro, que estava a mais numa sociedade onde nenhum lugar nem profissão o esperava , quando viu que fora um erro ter nascido, pensou ele que podia a todo o momento emendar o erro, apagar o borrão. Era afinal fácil. Mas seria? &lt;br /&gt;Se lhe faltavam todas as razões para viver, também as não tinha para se matar. Existir era simultaneamente desistir de tudo e resistir ao nada.&lt;br /&gt;Escrevo enquanto e porque não tenho outra saída, escrevo porque não vivo, não sei nem posso viver, escrevo para não me drogar (isto é a droga?), escrevo para esquecer o Falhanço que fui, escrevo para me defender, escrevo para matar o tédio, o tempo, o medo, escrevo com medo e para não me matar, ou para que o tédio, o tempo, o medo me não matem, escrevo.&lt;br /&gt;Cada página era outra pele de que se livrava e ele estaria sempre para lá de cada pele ou muda. A obra, as peles mortas...&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Sem nunca se comparar a eles, é a eles que insensivelmente me comparo. Da mais funda miséria, fracassados até no fracasso, surgiram aqueles que leio como se me lesse - Franz Kafka, Antonin Artaud, Samuel Beckett - que nunca foram nada, que do nada tiraram nada, que só foram corpo e corpo doente.&lt;br /&gt;Mas, sobrevivem eles? Que equívoco monstruoso é esse de os assimilar à coisa literária? Porque os retém a história da literatura? Que espécie de talento foi o desses homens para merecerem o insulto de lhes chamarem artistas ? Que lhes importou a fama e porque são hoje famosos? Quantos continuam e continuarão esquecidos? Que série de acidentes meramente acidentais estão na origem da expansão publicitária de Kafka? Ou de Artaud? &lt;br /&gt;A história é feita dos que não estão com o nome na História, nisto e em tudo. A história é feita pelos que não têm história nem nela um lugar. Dos ignorados e vencidos e desaparecidos e falhados e doentes e mortos: antes, muito antes do fim, mortos.&lt;br /&gt;Fazer parte desta corrente inglória, anónima, sem fama à venda nos escaparates - eis o mínimo que deve fazer um homem.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Para o resto, para aquilo que qualquer pessoa inepta serve, que sirvo e presto eu?&lt;br /&gt;De maneira  que essa, a da poesia, é a minha última hipótese, o meu derradeiro recurso de falhado (em toda a linha). Essa, a da poesia, a última quase certeza. Última e única que pode funcionar de crença.&lt;br /&gt;Poesia quer dizer: a única maneira de crer em alguma coisa. A única maneira hoje de me suicidar.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O que sabia, esqueci. O que aprendi, não serve. O que serve, não aprendi. Vejo os outros que pensam, memorizam, planeiam obras a prazo, que podem, inclusive, saber que lhes resta tempo, que têm tempo. &lt;br /&gt;Alinhar alguns versos, já é tarefa sobrehumana para levar a cabo a qual tenho que me violentar.&lt;br /&gt;Para o resto, tudo o resto, sou a menos. E tudo me excede: energias, capacidade, disponibilidade, esperança.&lt;br /&gt;Esta certeza de já estar morto e saber que fui sempre velho, que envelheci, que me gastei e queimei, pouco tempo deixa seja ao que for. &lt;br /&gt;Agora, gasto o resto. Uma ruína que ainda não ruiu.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Escrevo para dar testemunho das perplexidades que, numa sociedade fechada, qualquer homem sofre se quiser ser verdadeiro consigo mesmo. &lt;br /&gt;Escrever é dar testemunho da relatividade de tudo - e principalmente da  impossibilidade de, numa sociedade em decadência, ser-se individualmente o homem novo que as teorias humanistas abstractamente programam e proclamam. &lt;br /&gt;Entre o homem velho - que o poeta já não quer ser - e o homem novo - que ainda não pode ser - deve ele dar testemunho directo, vivo, dialéctico do homem em mudança que está sendo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Porque me preocupa a função social da literatura, recuso todo o propósito de distrair e adiar que me parece ser o da maior parte dos escritores que se ocupam a escrever obras longas, adjacentes aos problemas capitais e vitais do homem.&lt;br /&gt; Os longos romances, realistas ou românticos, romance novo ou romance velho, qualquer que seja o rótulo ou escola onde os enquadrem, colaboram com as ideologias e políticas decadentes.&lt;br /&gt;A arte de contar histórias não será, na maior parte dos casos, a arte de distrair os homens das suas capitais, vitais, mortais urgências e necessidades?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O homem, não podendo ser livre, absolutamente livre no mundo da necessidade, inventou a literatura. A literatura seria assim um campo de treino, de ginástica, de aprendizagem da liberdade, um campo experimental ou de ensaio: de onde resulta não só a sua função específica mas também o específico papel que é chamado a desempenhar no processo histórico.&lt;br /&gt;É claro que muita literatura haverá - a mais poderosa e de maior influência, precisamente - que não tem nada a ver com isto, por isso não tem nada a ver com a Poesia e a Poesia nada a ver com ela.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A literatura é o campo de todas as liberdades: a liberdade de formular todas as perguntas (principalmente as perguntas doidas ), a liberdade  de pisar todos os riscos (principalmente os proibidos), a liberdade de desafiar todas as autoridades (principalmente as que até hoje nunca foram desafiadas), a liberdade de desobedecer a todas as leis (principalmente as que se arrogam de eternas), a liberdade de bater o pé a todas as ditaduras (principalmente as paternais).&lt;br /&gt;A este domínio - o livre domínio da liberdade livre - chamou Rimbaud Poesia e Henry Miller o reino do «obsceno».&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Responde o homem sensato, o homem virtuoso, o homem útil, o homem obediente, o homem  legal, o homem oficial: a liberdade absoluta não é possível e não há vida possível na liberdade.&lt;br /&gt;Mas o que tem a ver a poesia com o homem sensato &amp; etc, e o que tem a ver o homem sensato &amp; etc com a poesia?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A desintegração da mitologia ou linguagem instituída, tal a vejo, não tem um objectivo superficial. Atinge as raízes do conhecimento. &lt;br /&gt;Porque a desintegração da linguagem é, de certo modo, a simultânea desintegração da lógica (de uma certa lógica) e  da epistemologia (uma certa epistemologia que insiste em dividir por idealistas e materialistas as duas únicas orientações do conhecimento). &lt;br /&gt;O escritor que a meu ver importa, comete a proeza de não querer enfileirar nem nos idealistas nem nos materialistas. E aqui começa a questão. O filósofo diferente não pode filosofar segundo os processos clássicos, usuais, vigentes, oficiais. Não pode filosofar segundo nenhum sistema instituído ou ideologia constituída.&lt;br /&gt;Aí - onde começa a desobediência ao conhecimento e à filosofia estabelecidas - começa a Poesia. Poeta é o Desobediente e os filósofos, mesmo iconoclastas, Ponty, Jaspers, Sartre, Camus ou Aldous Huxley, são ainda filósofos, ainda que preparem o novo conceito de literatura como básica desobediência.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;«Connaitre» - dizem os franceses - é nascer com.&lt;br /&gt;«Connaitre» para o poeta é também nascer outra vez.&lt;br /&gt;Conhecer é re-nascer, porque a experiência é aquilo em que diariamente se morre e diariamente se ressuscita. Só a experiência é irredutível - e forma de conhecimeto também. Forma mas não teoria do conhecimento, segundo o conceito de tratados e compêndios de filosofia.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É Artaud que autoriza a ver no escritor o aprendiz que se revolta contra o falso conhecimento ou conhecimento adquirido.&lt;br /&gt;À margem das instituições de ensino e cultura, ele é o que aprende sem que lhe ensinem. É o autodidacta. É o que sabe sem aprender. É o que conhece. É o que vê. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Conhecer = &lt;br /&gt;interrogar&lt;br /&gt;explorar não apenas com os olhos e a inteligência mas com todos os sentidos e músculos, vísceras e nervos, fezes e deslumbramentos&lt;br /&gt;inventar sentidos além dos cinco&lt;br /&gt;cortar em todas as direcções, principalmente as proibidas&lt;br /&gt;não admitir limites nem limitações&lt;br /&gt;destruir leis e géneros&lt;br /&gt;descobrir leis e géneros&lt;br /&gt;rir da morte e duvidar da vida&lt;br /&gt;rir da vida e duvidar da morte&lt;br /&gt;arrancar raízes&lt;br /&gt;implantar novas raízes e arrancá-las também&lt;br /&gt;chegar ao nada e partir daí para tudo&lt;br /&gt;assumir apaixonadamente o bem e o mal&lt;br /&gt;preferir ao deserto dos homens o Deserto (Rimbaud) &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Conhecer não é apenas ver e pensar. Conhecer é imaginar. Conhecer é ser (connaitre). Imaginar é ser. Ser é imaginar.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Conhecimento não é apenas o do senhor cientista, o do senhor filósofo e o de todos os senhores que o monopolizaram, estabelecendo uma única norma para todas as épocas e lugares.&lt;br /&gt;Conhecimento não é só o da lógica (qualquer lógica) que distribui sistemas pelos livros que os distribuem pelas universidades que os distribuem pelas populações docentes e discentes que os distribuem pelas infra e superestruturas - económicas, burocráticas, políticas, sociais, etc - desta selva em que andamos.&lt;br /&gt;Conhecimento pode ser o do homem que não é filósofo, nem cientista, nem sequer inteligente, nem sequer lógico, nem sequer de sã razão. Pode ser o do louco, o do que não é culto nem civilizado.&lt;br /&gt;Conhecimento pode não ser só o do adulto. Pode ser o da criança.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Eles escrevem para coadjuvar o lugar, a carreira, a glória, a saúde. &lt;br /&gt;Eu escrevo para não me matar. Ou escrevo enquanto me não mato.&lt;br /&gt;Por isso posso dizer que a literatura é para mim um caso de vida ou de morte. Sem hipérbole.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Proletário sou eu que sou poeta e poeta sou eu que sou proletário.&lt;br /&gt;Poetas do mundo, uni-vos!&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;As palavras são o meu pão. Negro e duro, mas pão.&lt;br /&gt;Ou sono.&lt;br /&gt;Ou droga.&lt;br /&gt;Ou passatempo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Pão, liberdade e poesia são a mesma coisa. E a mesma coisa terá de ser a luta pelo pão, pela poesia e pela liberdade.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Fui, sou e serei um operário. Enquanto escritor, não quis nem quero ser mais ou menos do que isto: um escritor-operário, ou antes, um operário-escritor.&lt;br /&gt;Não defendo de cima os interesses deles em baixo. Também estou em baixo e com eles. Sempre.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Vou publicando o contrário do que escrevo, escrevendo o contrário do que digo, dizendo o contrário do que penso, pensando o contrário do que escrevo, sendo o contrário do que sou.&lt;br /&gt;Que fazer? Sacrificar parcial ou totalmente a verdade e publicar ou dizer toda a verdade e nem sequer escrever?&lt;br /&gt;A verdade do que se pensa é inversamente proporcional à quantidade do que se publica. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Recuso-me a (excluo-me de) qualquer dos seguintes tipos-combinações de ser feliz:&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;com saúde com curso com lar com lugar&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Dos homens altamente morais e intelectuais, não autorizo nenhum a desautorizar-me&lt;br /&gt;nem aos da palavra (obra) subversiva e assento quente&lt;br /&gt;nem aos de origem modesta e carreira próspera&lt;br /&gt;nem aos de origem burguesa e carreira modesta&lt;br /&gt;nem aos de origem e carreira burguesas&lt;br /&gt;nem aos de palavra (obra) conformista e ideologia política dita inconformista&lt;br /&gt;nem aos que singram editorial (industrial)mente com romances pró-proletários ou pró-rústicos&lt;br /&gt;nem aos revolucionários licenciados &lt;br /&gt;nem aos poetas doutores &lt;br /&gt;nem aos romancistas mais burgueses na vida do que na obra, na obra do que na vida, na vida e na obra, nem na vida nem na obra, etc&lt;br /&gt;nem aos filhos de boas famílias-apesar-disso-bons rapazes&lt;br /&gt;nem aos poetas-advogados, nem aos poetas-assistentes-de-faculdade, nem aos poetas seminaristas antes, padres depois&lt;br /&gt;Não autorizo nenhum a julgar o que sou, penso, sinto, publico ou despublico&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quem não sabe ou não pode ser um homem de acção prática e política mas que também não se resigna ao estético pelo estético, ao lúdico pelo lúdico, faz, tem de fazer da literatura uma força e forma de acção.&lt;br /&gt;Acção absoluta, para lá de todas as formas de acção relativa ou conjuntural: política, polémica, pedagógica, crítica, profissional, etc.&lt;br /&gt;Assim entendida, a literatura não pode alhear-se da transformação humana, do movimento histórico, da dialéctica social.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Se não tivesse havido acção, não havia literatura. Onde houve literatura é porque não houve acção. &lt;br /&gt;Escrever assim é um sucedâneo da acção. Escrever assim é acção. Escrever assim acompanha um tempo de inacção, diário ou itinerário dos dias em branco. Escrever assim é testemunho da acção frustrada e a tentativa de procurar dela outra forma.&lt;br /&gt;Desistir da acção não pode neste caso considerar-se trair mas a única forma de não trair, isto é, manter-se responsável e simultâneamente, apesar de tudo e contra todos, livre.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Receio estar a trair mas pergunto: quem posso eu trair?&lt;br /&gt;E creio que só trairia se me traísse, se deixasse de combater - como respiro - pela liberdade do único modo que sei - escrevendo.&lt;br /&gt;Arma só conheço esta: a máquina de escrever.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O homem, não podendo ser livre, absolutamente livre no mundo da necessidade, inventou a literatura. E deu-lhe o nome de Poesia. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Um texto é tanto mais poético quanto mais limites, censuras, autoridades, linhas de medo, ordens, hierarquias e dogmas desafiar.&lt;br /&gt;Um texto é tanto mais poético quanto menos coragem tivermos de o publicar ou assinar.&lt;br /&gt;Um texto é tanto mais poético quanto mais tempo permanecer inédito. &lt;br /&gt;Poético = inédito. &lt;br /&gt;Poético = Póstumo.&lt;br /&gt;Poeta = Yoga da liberdade&lt;br /&gt;Poesia = Liberdade de formular todas as perguntas (principalmente as perguntas doidas), de viver todas as autoridades (principalmente as que até hoje ainda não foram desafiadas).&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Poesia pura?&lt;br /&gt;Só se de qualquer servidão, de qualquer partido, de qualquer ideologia e - também - de qualquer estética . Pura enquanto voz infinita do homem finito, espaço imortal do homem mortal.&lt;br /&gt;Mas impura  porque não há-de vir dos celestes impérios mas dos infernos gerais e particulares que vamos vivendo, estamos vivendo. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando me pedirem poemas sociais, pergunto o que são poemas sociais. &lt;br /&gt;E respondo. Poemas são cartas. E literatura, apesar de tudo, um rio de fraternidade.&lt;br /&gt;Isto é poesia social, digo.&lt;br /&gt;E digo mais: pertencer ao partido dos homens e não pertencer a nenhum partido político.&lt;br /&gt;Só há uma política: fazer humanidade.&lt;br /&gt;Só há uma poesia: fazer humanidade.&lt;br /&gt;Logo, poesia e política são a mesma coisa.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Poeta é o que diz o indizível (Wittgenstein) mas neste outro contexto.&lt;br /&gt;Poeta é o que dá voz aos que não tem voz.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Se poesia é a única real tradição viva, o poeta é partidário dessa tradição e de mais nenhuma. O resto é verso escolar obrigado a mote, poesia-de-arte, poesia género literário.&lt;br /&gt;Se é de poeta não é de político e se é de político não é de poeta que se fala. &lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Março/1966&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;------&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;(*) Este texto foi teclado de um manuscrito dactilografado (tudo leva a crer) em Março de 1966 e dele foram retirados alguns anexins - versos que aparecem no livro «Espaço Mortal». Poderia servir, sabe-se lá, de prefácio a alguma edição dos versos que venha a fazer-se.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-630835974822917053?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/630835974822917053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/630835974822917053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2009/02/tudo-e-nada.html' title='TUDO É NADA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-1000957250369318964</id><published>2007-03-22T03:20:00.000-07:00</published><updated>2007-03-22T03:22:14.769-07:00</updated><title type='text'>AGORA SOMOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-25-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg 26&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AEROTÍADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;25/11/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora somos salvos feitos do sono salvador&lt;br /&gt;somos feitos à imagem e semelhança dos senhores&lt;br /&gt;do Senhor&lt;br /&gt;agora somos soldados poetas aldrabões sub-gente&lt;br /&gt;desta sociedade com gente a mais&lt;br /&gt;somos feitos de guta-percha&lt;br /&gt;(resistente ao minar das térmites)&lt;br /&gt;sempre em pé sempre fixes sempre crus&lt;br /&gt;estamos há muito tempo em forma de parafuso&lt;br /&gt;que nos aperta as brácteas&lt;br /&gt;e em forma de forca que enforca&lt;br /&gt;em forma de moral&lt;br /&gt;e nus&lt;br /&gt;vamos ver numa grande tela branca&lt;br /&gt;os grandes seios brancos&lt;br /&gt;que mantêm abertos muitos olhos com o branco do olho&lt;br /&gt;o preto o verde o cinzento o castanho&lt;br /&gt;e outras cores de que é costume serem os olhos&lt;br /&gt;e o pranto ser a cor falível dos olhos que olham&lt;br /&gt;quando não estão fechados&lt;br /&gt;e olham para dentro que é lugar seguro.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-1000957250369318964?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/1000957250369318964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/1000957250369318964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/agora-somos.html' title='AGORA SOMOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437882992301623</id><published>2007-03-20T02:18:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T02:20:29.926-07:00</updated><title type='text'>CUMPRO O MEU DEVER</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-3-56-01-16-va&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura,&lt;strong&gt;16.1.1956&lt;/strong&gt; [entre as 12.30 e as 13 horas]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser livre e cumprir apenas o dever que se não vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tenho nos meus dedos, segura e rochosa, a tua confiança.&lt;br /&gt;As pedras molham-se com a baba amanhecente das lesmas,&lt;br /&gt;de todos os seres que não têm toca nem lar&lt;br /&gt;e cujo rastro, neste mundo, é apenas um anonimato honrado&lt;br /&gt;mas que o livro da eternidade regista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive um tão inundado mar&lt;br /&gt;a dizer-me que cumpro o meu dever,&lt;br /&gt;o da minha alegria&lt;br /&gt;o do meu trabalho verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos estrangeiros aqui,&lt;br /&gt;onde as sombras ainda se comem umas às outras,&lt;br /&gt;onde as crianças choram de noite com pesadelos,&lt;br /&gt;onde tudo ainda reside no limbo da inquietação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha, eu sei, é a nossa luta (a nossa falta),&lt;br /&gt;temos de pôr em dia essa contabilidade&lt;br /&gt;que os séculos,&lt;br /&gt;os séculos descuidosos e frívolos,&lt;br /&gt;puseram em atraso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há que encher cadernos,&lt;br /&gt;fazer as estatísticas das horas que cuspimos,&lt;br /&gt;porque não eram nossas,&lt;br /&gt;eram as horas dos outros,&lt;br /&gt;sempre dos outros,&lt;br /&gt;as horas irremediavelmente nunca repetidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vês que o dia tarda? É preciso ser mau funcionário.&lt;br /&gt;Não vês que as sombras se mordem e acentuam?&lt;br /&gt;O que fazer, amigo, o que fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«A criança, o bom, o humilde» não é pela nossa presença diária e funcionária que anseia, &lt;br /&gt;adstrita a mil incidentes e à peste,&lt;br /&gt;ao polvo da rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a livre tarefa que nos chama&lt;br /&gt;é a canção das montanhas,&lt;br /&gt;dos eus mais abertos que céus,&lt;br /&gt;dos caudais infindáveis,&lt;br /&gt;dos bosques inteiros,&lt;br /&gt;que dão o papel para os livros,&lt;br /&gt;os mapas, os itinerários fumegantes da nossa raiva.&lt;br /&gt;Vamos,&lt;br /&gt;agora que já não somos só um por apenas sermos um,&lt;br /&gt;vamos,&lt;br /&gt;eu nem sei andar com os meus pés,&lt;br /&gt;falar com a minha língua,&lt;br /&gt;nem perceber a vida com os meus sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos a saudade do mundo,&lt;br /&gt;a incorpórea energia de novas turbinas,&lt;br /&gt;o caudal represo de mil gerações que choraram&lt;br /&gt;e guardaram outra vez as lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[A história não se repetirá porque é um poema heróico&lt;br /&gt;insular como todos os poemas] &lt;br /&gt;[EM, pg 117]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida que deus nos doou para criar em beleza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fêmeas dos pássaros estão pejadinhas,&lt;br /&gt;os ninhos crescerão de peso e, pela manhã,&lt;br /&gt;no rocio dos vegetais em que o orvalho morre,&lt;br /&gt;fecundam-se as árvores que ainda ontem eram rebentos,&lt;br /&gt;os horizontes vão buscar outros horizontes&lt;br /&gt;que ladeiem o mundo e onde o Sol caiba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso um horizonte onde caiba o Sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[O nosso andar de loucos por esta faxa de rodagem proibida &lt;br /&gt;este correr para o canal imundo e medido da vida]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[O esgoto da cidade é onde não pusermos a nossa mão &lt;br /&gt;o nosso mel o nosso lume]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hei-de dizer-te (como se não soubesses melhor do que eu o alfabeto,&lt;br /&gt;como se não me tivesses completado a lição inacabada que eu trazia),&lt;br /&gt;hei-de dizer-te que os «círculos concêntricos» se apertam&lt;br /&gt;e assim será mais brando o nosso perdão,&lt;br /&gt;mais aberta a nossa crítica,&lt;br /&gt;mais benção a nossa palavra dura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Viver é viver em profundidade&lt;br /&gt;não para cumprir um dever&lt;br /&gt;mas para que o nosso Dever seja cumprido.&lt;br /&gt;Se for preciso seremos a tirania&lt;br /&gt;que tiraniza de amor o mundo&lt;br /&gt;que odeia de amor o mundo&lt;br /&gt;que incendeia de amor o mundo&lt;br /&gt;Nero renascido de branco das cinzas que deixou.]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo à tua poesia, mais do que com palavras,&lt;br /&gt;com o silêncio que é a poesia absoluta,&lt;br /&gt;o raio de sol que visita a nossa prisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Somos neste inglório trajecto que se não agarra nem vê&lt;br /&gt;os cegos viajeiros &lt;br /&gt;vasos comunicantes do mundo que há-de vir]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os filhos da amizade não são de carne,&lt;br /&gt;são da pura substância&lt;br /&gt;que enviará a nova aos outros planetas do Universo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[A vida perdeu sentido&lt;br /&gt;porque definitivamente o ganhou]■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437882992301623?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437882992301623/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437882992301623' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437882992301623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437882992301623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/cumpro-o-meu-dever.html' title='CUMPRO O MEU DEVER'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437862275840276</id><published>2007-03-20T02:15:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T02:17:02.760-07:00</updated><title type='text'>PONTE DO INFINITO</title><content type='html'>&lt;em&gt;63-01-15-va&gt; - versos de afonso cautela de 1963 – revisão em 2001-12-05&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MARÉ DE NUVENS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro,&lt;strong&gt;15/1/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maré de nuvens&lt;br /&gt;mar&lt;br /&gt;e fome&lt;br /&gt;maré de fome&lt;br /&gt;madrugada&lt;br /&gt;ponte&lt;br /&gt;ou escada do infinito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;maré de sangue&lt;br /&gt;maré alta de sangue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mar&lt;br /&gt;maré de vozes&lt;br /&gt;mar&lt;br /&gt;maré de amor&lt;br /&gt;mar&lt;br /&gt;maré de mar&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Maré de nuvens&lt;br /&gt;Aceso um cão morto devagar&lt;br /&gt;um corpo morto&lt;br /&gt;maré de fome&lt;br /&gt;tecido espiral da madrugada&lt;br /&gt;escada do infinito ou ponte&lt;br /&gt;ou vento entre montanhas&lt;br /&gt;maré alta de sangue de vozes&lt;br /&gt;um rio de vozes maré de mar&lt;br /&gt;amor maré &lt;br /&gt;mar maré de amor&lt;br /&gt;amor maré de mar ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437862275840276?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437862275840276/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437862275840276' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437862275840276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437862275840276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/ponte-do-infinito.html' title='PONTE DO INFINITO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437850510831627</id><published>2007-03-20T02:12:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T02:15:05.113-07:00</updated><title type='text'>AOS GLORIOSOS VENCEDORES</title><content type='html'>1-3 - 57-01-15-va&gt; 7767 caracteres vozes-13&gt; versos de afonso &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; Janeiro de 1957&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DISCURSO DE UM VENCIDO (= DESPEITADO) A TODOS OS VENCEDORES, DE ONTEM, HOJE E AMANHÃ, DE AQUÉM E ALÉM MAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, os argonautas&lt;br /&gt;a vós, os exploradores do Antárctico, da Estratosfera e do Átomo&lt;br /&gt;a vós, os descobridores dos caminhos marítimos&lt;br /&gt;a vós, os donos, os prósperos, salutares donos, do Mundo, donos da Vida, donos das fábricas, de pontes, de hotéis, de esplanadas&lt;br /&gt;a vós, os conquistadores, do México, da Índia, do Peru, da Moçarábia, do Tibete, da Palestina, de Timor Leste&lt;br /&gt;a vós, conquistadores de mulheres, conquistadores do Céu e dos Mares&lt;br /&gt;a vós, os que sois Luz&lt;br /&gt;a vós, os Iluminados&lt;br /&gt;a vós, os Heróis, do Dia, da História, dos Romances, heróis da Rua, do Pedal, do Volante&lt;br /&gt;a vós, heróis do mar&lt;br /&gt;a vós, os possuidores de tantos milhares de quilómetros de propriedade horizontal&lt;br /&gt;a vós, os legisladores, os de cima, os da honra, os do bem, os do uso próprio&lt;br /&gt;a vós, os fornecedores, os úteis, os inspirados, os imprescindíveis, os intocáveis&lt;br /&gt;a vós, os magos&lt;br /&gt;a vós, os santos, os puros, os deuses de aquém e além Olimpo, de «aquém e além Dor» ( Florbela Espanca dixit)&lt;br /&gt;a vós, os precursores reconhecidos como precursores, profetas e premonitórios &lt;br /&gt;a vós, os irmãos dos precursores, os vindos depois dos precursores&lt;br /&gt;a vós, os inventores de cometas, mitos a atrocidades&lt;br /&gt;a vós, os premiados, os eleitos e elegidos, os crentes e poderosos&lt;br /&gt;a vós, os bons, os mansos, os justos, os do Evangelho, os de boa fé, os de boa fama, os de boa honra, os de boa marca&lt;br /&gt;a vós, os domadores de feras, da fúria, dos oceanos, capitães, generais, chefes, chefes de bandos, de bandas, de exércitos, homens de posição&lt;br /&gt;a vós, os delegados e directores gerais dos deuses, os lugares-tenentes dos deuses, os impedidos dos deuses&lt;br /&gt;a vós, os que me não canso de admirar, até ao impudor, até ao êxtase, até ao desvairamento e à cegueira, ao instinto e á raiva&lt;br /&gt;a vós, os descobridores de jazigos, filões, poços&lt;br /&gt;a vós, os senhores do êxito, da Fama, do Sucesso, do Dinheiro, do Amor, do Fausto, das luzes&lt;br /&gt;a vós, senhores de mim, gata borralheira, servo, mendigo, leproso, imundo cão de guarda dos vossos palácios, esterco dos vossos jardins&lt;br /&gt;a vós, os reis, príncipes, duques, barões, os de sangue nobre, os de raça, timbre, estirpe e anel com brazão, elevador, electricidade e gaz canalisado&lt;br /&gt;a vós, os emigradores&lt;br /&gt;a vós, os novelistas, os plásticos, os triunfadores das bienais, da ciência, dos circos de Roma, das Olimpíadas internacionais&lt;br /&gt;a vós, os dos focos em incidência perene, os presidentes, os das aberturas, os das fechaduras, os das inaugurações, os dos iates, os dos camelos no deserto, os dos estupefacientes inimagináveis, os que não sofreis torturando vítimas até à morte&lt;br /&gt;a vós, os depositários do ideal, dos segredos de Estado das religiões de Estado e das religiões de Igreja, das chaves quando quero entrar em casa e me esqueci delas lá dentro&lt;br /&gt;a vós, os intima, orgulhosa, abarcadoramente poderosos, subtis, sem retrocesso e sem erro, a quem só resta apenas engrossar a bola de neve, mais e mais e mais&lt;br /&gt;a vós, os com ascendência e descendência, antepassados, primos Albuquerques, Gamas, Aguiares &amp; Maias e Cabrais&lt;br /&gt;a vós, os de um só rosto e uma só fé&lt;br /&gt;a vós, os que de tão ilustres embaciais a Luz&lt;br /&gt;a vós, os legadores e usurpadores de heranças, competidores sem rival à altura, batoteiros de cada lance a mil contos (em 1957 eu escrevi 100 contos)&lt;br /&gt;a vós, os não ignorantes nem ignorados, com nome, fotografia e discurso nos jornais&lt;br /&gt;a vós, os felizes por constituição, hereditariedade e vício&lt;br /&gt;a vós, os que vos servis de todos os benefícios da civilização deitando os malefícios pela janela da carruagem, sem que pegue fogo ao restolho seco e sem fim e para sempre ceifado&lt;br /&gt;a vós, os titulares, os onorariamente dispendiosos&lt;br /&gt;a vós, os do botão dos cataclismos siderais, os do impossível, os das escaladas, os mortos na honra e na luta e na glória e na celebridade &lt;br /&gt;a vós, os poetas não retóricos, não pletóricos nem platónicos&lt;br /&gt;a vós, os algozes, os capatazes&lt;br /&gt;a vós, os prestidigitadores, de qualquer modo solenes, de qualquer maneira capazes, sensíveis e argutos&lt;br /&gt;a vós, os que gozam, os que exploram, os que produzem, os que consomem, os que não guincham, os que usam, os que abusam, os da caridade de tabernáculo, os que sentem em dia as digestões, a lei da consciência e da coincidência dos astros obtêm frutos sazonados num Verão que prometem, encomendam e recebem a domicílio&lt;br /&gt;a vós, os capazes, os realizadores, os dinâmicos, os de uma compleição hercúlea de ponte entre Nova Iorque e Brooklin&lt;br /&gt;a vós, os náufragos salvos pelo navio de carreira, os calculadores, os calculistas, os mediadores de esperanças a domicílio, os medianeiros do Céu, os dos metropolitanos das grandes capitais do Mundo&lt;br /&gt;a vós, os abnegados, os salva-vidas, os imutáveis, os consoladores dos aflitos porque deles será o reino dos céus, os Lázaros, os do princípio, os de antes de antes de antes do princípio&lt;br /&gt;a vós, os praticantes de ski nas montanhas da Suiça, os sultões, os ditadores de Estado, da Moda, da Lei e de trazer por casa&lt;br /&gt;a vós, os audazes, os Édipo, os Camões, os Marco Polo, os nomes da História, nomes de texto, nomes dos livros, nomes das montras, nomes dos cartazes, nomes, bons nomes, nomes que custam fortunas, nomes das ruas e das praças, nomes de mármore com colunas&lt;br /&gt;a vós, os que sois a explicação plausível do Movimento&lt;br /&gt;a vós, os comandantes de dinastias, os violadores de virgens impunes, os iniciadores de mágicas negras&lt;br /&gt;a vós, os que odiais e porque odiais sois mais que homens, na morte lenta entre as formas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vós, os que venero sem dissimulação, entre quatro paredes, à espreita, apático, espionando a selva, não sublime, menos que artista e quase tanto como Verme&lt;br /&gt;a vós, os que sois e mais do que sois vos vejo, mitificados no halo da Imortalidade&lt;br /&gt;é a vós que estudo e informo&lt;br /&gt;é por vós que atravesso os meus corredores de insónia, os meus pesadelos&lt;br /&gt;é a vós que endereço os meus mais lúcidos pensamentos, sem absoluto, sem absinto, mas vigorosos como ao começar do princípio&lt;br /&gt;a vós, os de nenhuma anormalidade, os não, nunca, jamais paralíticos, os não, nunca, jamais assimétricos, os não, nunca, jamais artríticos, os não, nunca, jamais perversos e pervertidos, nem segregados, nem assinalados, nem almejados, nem de má-sorte, má-vida, mau-humor, má-fama, má-fortuna&lt;br /&gt;a vós, os mortos com sepultura, os com sepultura arquitectónica bastante acima da média, os mortos imortais, os mortos das academias, os mortos das escolas, os mortos dos cemitérios&lt;br /&gt;a vós, os de farda, os de uniforme, os distintos e distinguidos&lt;br /&gt;a vós, os não torpes, os sempre verticais, os sempre vivos, sempre fixes, sempre em pé&lt;br /&gt;a vós, os audaciosos, os caracteres impolutos, os capitães da raça&lt;br /&gt;a vós, os executores, os juizes, os mártires, os célebres, os críticos de poesia, os industriais, os nunca algemados, os nunca submissos, os nunca altru-ístas, os nunca sacrificados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, o alvoroço das primeiras horas da manhã&lt;br /&gt;a vós, os direitos do cidadão, as faixas de rodagem, a segurança nos caminhoa de ferro, a sinalização aérea&lt;br /&gt;a vós, a morte medicamentada&lt;br /&gt;a vós, os soros, a indústria, os cabeçalhos dos jornais &lt;br /&gt;a vós, as calamidades telúricas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, quero prestar tributo do meu desejo: morar sempre por baixo, no rés-do-chão, ser recinto de escarros e ofensas e humilhações, centro de gravidade de todos os pontapés, não claudicar nunca no heroísmo, nem na perfeição, não usar perfumes, nem ideais, nem me distinguir em nada, ser raso, igual, substantivo comum, não ter nome, nem exigências, nem ambições, nem programa, nem responsabilidades, nem diplomas, nem nenhuma espécie de importância, nem dinheiro, nem necessidade de dinheiro, nem nada&lt;br /&gt;Não pertencer nunca à dinastia dos vencedores ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437850510831627?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437850510831627/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437850510831627' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437850510831627'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437850510831627'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/aos-gloriosos-vencedores.html' title='AOS GLORIOSOS VENCEDORES'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437822135329467</id><published>2007-03-20T02:06:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T02:10:21.356-07:00</updated><title type='text'>O CHEIRO DO CAMPO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-2 -56-01-15-va-&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura, &lt;strong&gt;15/1/1956&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Era hoje que eu adivinhava a totalidade, &lt;br /&gt;o espírito incorrupto sem gavetas.&lt;br /&gt;Era hoje que eu estava mais inseguro,&lt;br /&gt;mais rápido e cheio o rio do sangue.&lt;br /&gt;Não podia adiar a descoberta do Mundo.&lt;br /&gt;Era a totalidade que eu trouxe da noite que dormi de ontem para hoje,&lt;br /&gt;sem sonhos mas profunda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[De manhã os outros planetas olhavam a terra&lt;br /&gt;aterrados de a ver florida&lt;br /&gt;assim em Janeiro e em Natal atrasado um Natal a 15 de Janeiro] [EM, 100]&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tua mesa, esgotas na máquina de escrever as últimas horas que ficaram por dormir.&lt;br /&gt;É domingo, é do tabaco, evidentemente, a humidade dos teus olhos.&lt;br /&gt;A única, a irrefutável verdade porque chega grátis sem a forçarmos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Como tudo naquela manhã cabia ali&lt;br /&gt;Os maus e os bons&lt;br /&gt;o denodo e a inépcia&lt;br /&gt;a morte vestida de crepes e a vida vestida de Primavera&lt;br /&gt;Tudo se reunia à tua volta&lt;br /&gt;na assembleia das tuas poesias ainda por escrever&lt;br /&gt;das que nascem à proporção e limite das emoções ilimitadas&lt;br /&gt;Plátanos frescos&lt;br /&gt;rios com o fundo a ver-se&lt;br /&gt;bodas flores brancas a acenar como um lenço &lt;br /&gt;as bagagens de quem seguiu só&lt;br /&gt;sem ninguém na estação a despedir-se&lt;br /&gt;Tudo à tua volta a chamar-te feliz&lt;br /&gt;todavia era verdade que choravas.] &lt;br /&gt;[EM, 85]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;A simplicidade anicha-se nos que a não conhecem,&lt;br /&gt;nos que a bebem de um trago na taberna,&lt;br /&gt;nos que a compram numa castanha assada,&lt;br /&gt;regelada a manhã a aquentar as almas purinhas das minhas crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;[Aqui o diário do que ficou para trás sem retorno&lt;br /&gt;O nosso diário&lt;br /&gt;Que lição de inutilidade daremos ao mundo&lt;br /&gt;Que inépcia a nossa&lt;br /&gt;Metemos um grão de areia nos mecanismos impecáveis&lt;br /&gt;e lá se foram os mecanismos impecáveis&lt;br /&gt;Rodamos nas calhas diárias (que imprudência a nossa!)&lt;br /&gt;sem uma luz vermelha a anunciar-nos&lt;br /&gt;Não há maneira de fugir&lt;br /&gt;e que houvesse&lt;br /&gt;fugir é porcaria&lt;br /&gt;embora o dicionário lhe dê outro significado&lt;br /&gt;Clamemos antes por mais, mais, mais, sempre mais dia&lt;br /&gt;na escuridão dos nossos olhos fechados.]&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;Nesse dia falaste&lt;br /&gt;no trânsito que há-de trazer esferas de vidro cheias do cheiro do campo&lt;br /&gt;e há-de povoar as pequenas vilas de grandes avenidas,&lt;br /&gt;largos bancos no Verão,&lt;br /&gt;para as pessoas sem história terem também avenidas largas&lt;br /&gt;e um jardim de grades amarelas onde se entra sem pagar bilhete.&lt;br /&gt;Falaste de um turismo para todos,&lt;br /&gt;para os pobres, para os nossos pobres,&lt;br /&gt;para os ricos, para os nossos ricos.&lt;br /&gt;Um turismo para os cães que farejam de tarde&lt;br /&gt;e à noite sujam as esquinas.&lt;br /&gt;O varredor impaciente rebuja e acaba sempre por limpar&lt;br /&gt;(o velhote tem um canito que o afaga todos os dias ao chegar da lida).&lt;br /&gt;Um turismo para os cartazes feios serem também quadros de exposição.&lt;br /&gt;Para que tudo o que é disforme seja ainda assim amável,&lt;br /&gt;para que tudo o que se oculta seja ainda assim glorioso.&lt;br /&gt;Um turismo de portas abertas,&lt;br /&gt;de cara barbeada para todos,&lt;br /&gt;uma camisinha lavada aos domingos.&lt;br /&gt;É a nossa província,&lt;br /&gt;a cidade da nossa infância,&lt;br /&gt;o império o nosso império! ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437822135329467?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437822135329467/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437822135329467' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437822135329467'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437822135329467'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/o-cheiro-do-campo.html' title='O CHEIRO DO CAMPO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437777313866073</id><published>2007-03-20T01:57:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T02:02:53.140-07:00</updated><title type='text'>MAPA DAS ORIGENS</title><content type='html'>&lt;em&gt;60-01-12-VP&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O VALE DA SERENIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(In jornal «Comércio do Porto», &lt;strong&gt;12/1/1960,&lt;/strong&gt; suplemento literário dirigido por Nuno Teixeira Neves&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas zonas de silêncio vive uma forma diversa &lt;br /&gt;Sem água, sem atmosfera, sem as contingências &lt;br /&gt;das que se movem num corredor de rochas subterrâneas&lt;br /&gt;sob a inquieta epiderme das pedras. &lt;br /&gt;O céu é uma água-furtada de tecto baixo e apagado &lt;br /&gt;a terra é uma natureza descoberta com olhos de lentes &lt;br /&gt;a bússola virgem, o crescente voltado às estrelas do sul&lt;br /&gt;o infindável rumor das sombras sobre as sombras &lt;br /&gt;a submissão ao ente macroscópio que governa as esferas. &lt;br /&gt;É a palavra, é também a palavra que desce o atalho &lt;br /&gt;para o vale da serenidade, com dois chifres de oiro &lt;br /&gt;três anzóis suspensos da radiação magnífica de uma flor &lt;br /&gt;do rosto de um trapézio, do corpo de um país &lt;br /&gt;onde se fala a linguagem universal da luz. &lt;br /&gt;Pelas portas, as estreitas e imprevistas portas &lt;br /&gt;é a voz a infinita noite que se avista &lt;br /&gt;uma noite sem janelas acesas, como um sinal inconsciente &lt;br /&gt;talvez dormindo, pressentindo, respirando com certeza&lt;br /&gt;Ao lado do monstro desmaiado as árvores não sobem &lt;br /&gt;de um polo imaginário fixam-se por supostas chaves &lt;br /&gt;a paredes tão altas, verticais e lisas como o solo. &lt;br /&gt;De polo a polo a sombra confirma-se &lt;br /&gt;e das altitudes aos fetos de raiz negativa &lt;br /&gt;gravitando em torno de espaços brancos &lt;br /&gt;massas placentárias movem-se por órgãos pulsatórios &lt;br /&gt;semelhantes a grandes corações solitários. &lt;br /&gt;De estirpe menor os estratos megalíticos &lt;br /&gt;recompõem um planalto de origem vulcânica &lt;br /&gt;sujeita à continuidade das corolas e arcos&lt;br /&gt;fixos ou ligeiramente vibráteis em pisos solares&lt;br /&gt;válvulas e arames de resistência ao conforto &lt;br /&gt;asas asseadas por um mercúrio transparente. &lt;br /&gt;Frente ao universo uma cratera abriu-se. &lt;br /&gt;Cresce no firmamento o mapa absoluto das origens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;14/9/1959&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(In jornal «Comércio do Porto», &lt;strong&gt;12/1/1960,&lt;/strong&gt; suplemento literário dirigido por Nuno Teixeira Neves&lt;/em&gt;)■&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437777313866073?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437777313866073/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437777313866073' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437777313866073'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437777313866073'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/mapa-das-origens.html' title='MAPA DAS ORIGENS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437741591737258</id><published>2007-03-20T01:55:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:56:55.920-07:00</updated><title type='text'>HOJE É O DIA</title><content type='html'>&lt;em&gt;62-01-10-VS&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NO DESERTO ABRIREMOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;em&gt;10/1/1962&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No deserto abriremos&lt;br /&gt;poços de água e luz&lt;br /&gt;dentro da casa que não habitamos&lt;br /&gt;circundaremos a giz&lt;br /&gt;o espaço proibido ao ódio&lt;br /&gt;e consentido à paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vigílias e armas foi o que nos deram &lt;br /&gt;inquietações  celas remorsos e cansaços&lt;br /&gt;nós lhes daremos da alma que pisaram&lt;br /&gt;apenas excrementos cinzas ossos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paternalmente nos ombros mãos sabidas&lt;br /&gt;mas no sinal das mãos ficaram feridas&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É hoje o dia&lt;br /&gt;o dia escolhido &lt;br /&gt;em que celebro a alegria&lt;br /&gt;Apagaram-se as luzes&lt;br /&gt;mas hoje é o dia&lt;br /&gt;o dia escolhido e único&lt;br /&gt;em que celebro a alegria &lt;br /&gt;o coração é apenas&lt;br /&gt;a memória do esquecimento&lt;br /&gt;e já esqueci&lt;br /&gt;o mal que me fizeram&lt;br /&gt;hoje não posso lembrar&lt;br /&gt;os que amo ou não amo&lt;br /&gt;hoje é o dia&lt;br /&gt;é o dia eleito e único&lt;br /&gt;em que celebro a alegria.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Qualquer palavra pode servir&lt;br /&gt;de andaime&lt;br /&gt;ou mesa às nuvens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer vento pode fazer nascer&lt;br /&gt;e abrir uma flor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer relógio pode atrasar-se&lt;br /&gt;e perder o comboio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu é que não serei nunca a soma&lt;br /&gt;que deu certa&lt;br /&gt;a palavra o vento o relógio o ar&lt;br /&gt;que sobe no ar&lt;br /&gt;e fica. ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437741591737258?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437741591737258/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437741591737258' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437741591737258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437741591737258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/hoje-o-dia.html' title='HOJE É O DIA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437723348828057</id><published>2007-03-20T01:45:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:53:53.493-07:00</updated><title type='text'>AS LINHAS DO SILÊNCIO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-7 quarta-feira, 8 de Janeiro de 2003-novo word - 62-01-08-VA&gt; - file perdido: JAN-8-62&gt; - versos inéditos de afonso cautela de 1962 – já incluído no file 1962&gt; - imprimi só rosto – cópia dos dias?&lt;br /&gt;[domingo, 5 de Dezembro de 2004: sem pontuação, um conjunto antológico de 1962, de um só dia?]  &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIZIAS-ME QUE ERA O SOL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;8/1/1962&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizias-me que era o sol&lt;br /&gt;mas eu sabia que a sombra&lt;br /&gt;velava o teu rosto&lt;br /&gt;ainda a noite vinha longe&lt;br /&gt;mas já era a sombra que velava o teu rosto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo se transforma &lt;br /&gt;com os teus passos&lt;br /&gt;Não sei que harmonia se espalha  sobre nós&lt;br /&gt;parecem folhas&lt;br /&gt;ilhas&lt;br /&gt;e lá fora a porta bateu&lt;br /&gt;como se fosse alguém que quer entrar&lt;br /&gt;Apaguei a tua voz&lt;br /&gt;e apenas as linhas do silêncio&lt;br /&gt;ficaram à espera&lt;br /&gt;no papel em branco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também estive à tua espera&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;As flores do Outono estão caindo&lt;br /&gt;mas só tu lembras a Primavera &lt;br /&gt;um ponto tranquilo do jardim&lt;br /&gt;uma lembrança de alguém&lt;br /&gt;A poesia volta sempre&lt;br /&gt;a morte&lt;br /&gt;e onde está a luz&lt;br /&gt;a água dos pequenos corações?&lt;br /&gt;o crepúsculo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde tu não estás &lt;br /&gt;o vento continua&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Pergunto se nasceste&lt;br /&gt;deste desejo de vestir&lt;br /&gt;desta espada nua&lt;br /&gt;que parece de ternura&lt;br /&gt;e às vezes de esperança&lt;br /&gt;sempre fria&lt;br /&gt;sempre nocturna&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;São náufragos&lt;br /&gt;os velhos veleiros&lt;br /&gt;de tristes velas negras&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Ao agitar das folhas&lt;br /&gt;foi o fim dos teus lábios&lt;br /&gt;o vento&lt;br /&gt;não sei que estranho lugar&lt;br /&gt;que espaço de astros&lt;br /&gt;entre a tua e a minha boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi tempestade &lt;br /&gt;o teu silêncio&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Esperava-te um copo de água ao acordar&lt;br /&gt;e um dia&lt;br /&gt;uma nítida distância&lt;br /&gt;entre os teus dedos e os meus&lt;br /&gt;Um barco passou carregado de vozes&lt;br /&gt;e acredito que fosse sol&lt;br /&gt;e acredito que fossem ondas&lt;br /&gt;os teus ombros nos meus&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Vieste mais cedo que a paz &lt;br /&gt;e desejei-te tanto&lt;br /&gt;vieste mais cedo que a madrugada&lt;br /&gt;e as lágrimas ainda não pararam&lt;br /&gt;vieste mais cedo que o sol&lt;br /&gt;e a sombra está aqui&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Se o que penso te pudesse acordar&lt;br /&gt;sem ruído&lt;br /&gt;se o que te amo&lt;br /&gt;falasse&lt;br /&gt;viesse a paz&lt;br /&gt;o sol&lt;br /&gt;a madrugada&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A noite é hoje igual a infinito&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Meu coração descansa&lt;br /&gt;enfim descansa&lt;br /&gt;sobre uma pedra descansa&lt;br /&gt;Vem de longe e não fala&lt;br /&gt;qualquer música é a carta que recebeste&lt;br /&gt;qualquer noiva me daria a sua cama&lt;br /&gt;esta manhã&lt;br /&gt;mas espero&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Debruçado à janela da minha solidão&lt;br /&gt;não admira que já conheça os passos&lt;br /&gt;dos dias que passam&lt;br /&gt;que já os conheça de os ver&lt;br /&gt;com um ar algemado e triste e cansado&lt;br /&gt;de quem trabalha&lt;br /&gt;Não admira que saiba de cor o rosto&lt;br /&gt;das casas em frente&lt;br /&gt;e que ao fim da rua&lt;br /&gt;quando o sol se esquece de entrar&lt;br /&gt;haja uma flor cantando em surdina&lt;br /&gt;ou pedindo esmola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a rua&lt;br /&gt;a rua sempre igual da minha solidão&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Bebo em religioso silêncio&lt;br /&gt;à tua semi-adormecida lembrança&lt;br /&gt;mastigo lentamente&lt;br /&gt;para saber que nada se alterou&lt;br /&gt;Imaginar-te é uma criança esperando&lt;br /&gt;a morte&lt;br /&gt;Se tu existes também é pura &lt;br /&gt;a noite&lt;br /&gt;e tu és mais que a noite&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando a terra respira &lt;br /&gt;ouço-a respirar&lt;br /&gt;mas também sei que os homens respiram&lt;br /&gt;e quando uma árvore canta&lt;br /&gt;penso que nela podem estar&lt;br /&gt;aves ou ventos ou crianças&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Se é certo que a água ri&lt;br /&gt;também os mortos riem&lt;br /&gt;e se o tempo esquece&lt;br /&gt;o coração dos homens foi feito para lembrar&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;No inverno sobe no ar o fumo lento das chaminés&lt;br /&gt;homens e casas respiram no ar frio&lt;br /&gt;O céu chora à vista de toda a gente&lt;br /&gt;mas os homens raramente choram&lt;br /&gt;ao pé dos outros homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cães amam-se na rua&lt;br /&gt;e os homens às escondidas&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Deste convívio com a terra nascem os homens&lt;br /&gt;deste convívio com as palavras&lt;br /&gt;lentas nascem&lt;br /&gt;a gota de luz&lt;br /&gt;o verme a pedra&lt;br /&gt;a água a erva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é mais simples se o conclui o tempo&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É impossível falar de amor&lt;br /&gt;aqui onde uma multidão de vozes&lt;br /&gt;cobre o pó das mesas&lt;br /&gt;Hoje ninguém merece o meu desprezo&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Todos me esqueceram&lt;br /&gt;e hoje é o dia em que celebro a alegria&lt;br /&gt;hoje é o dia escolhido para a alegria&lt;br /&gt;Os meus dias são simples&lt;br /&gt;não desejo mais do que desejo&lt;br /&gt;as luzes apagam-se e fico&lt;br /&gt;Fico porque há para construir&lt;br /&gt;uma casa de linhas modestas&lt;br /&gt;e onde os meus ombros podem caber&lt;br /&gt;mas onde a minha alma não cabe&lt;br /&gt;porque a minha alma não mora em casa&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O mal e o bem que me fizeram&lt;br /&gt;já o esqueci&lt;br /&gt;nem posso lembrar os que amo&lt;br /&gt;porque hoje não amo ninguém&lt;br /&gt;O coração é apenas a memória do esquecimento&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Qualquer palavra pode servir de mesa&lt;br /&gt;às nuvens&lt;br /&gt;qualquer vento pode abrir as flores&lt;br /&gt;qualquer arame sobe no ar&lt;br /&gt;e fica&lt;br /&gt;qualquer relógio pode ficar e atrasar-se&lt;br /&gt;e subitamente perder o comboio&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Não é verdade que chorei&lt;br /&gt;apenas parti &lt;br /&gt;vidro nos teus ombros&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Um morto respira a teu lado&lt;br /&gt;e sou eu que respiro&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É um fio azul&lt;br /&gt;no céu sem cor&lt;br /&gt;é um fio sem cor &lt;br /&gt;no céu azul&lt;br /&gt;Puxo pelo azul&lt;br /&gt;puxo pela cor&lt;br /&gt;e o fio vem &lt;br /&gt;na ponta da cor&lt;br /&gt;do azul&lt;br /&gt;do céu&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É hoje o dia&lt;br /&gt;o dia escolhido&lt;br /&gt;em que celebro a alegria&lt;br /&gt;porque os meus dias são simples&lt;br /&gt;e não desejo mais do que desejo&lt;br /&gt;As luzes pagaram-se e fico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico porque hoje é o dia&lt;br /&gt;o dia escolhido e único&lt;br /&gt;em que celebro a alegria&lt;br /&gt;Fico porque há para construir&lt;br /&gt;uma casa de linhas modestas&lt;br /&gt;onde os meus ombros podem caber&lt;br /&gt;mas onde a alma não cabe&lt;br /&gt;porque a alma não mora em casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é o dia&lt;br /&gt;o dia eleito&lt;br /&gt;em que celebro a alegria&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Lá fora a porta bateu&lt;br /&gt;como se fosse alguém que quer entrar&lt;br /&gt;dizias-me que era o sol&lt;br /&gt;mas eu sabia que era o teu rosto&lt;br /&gt;dizias-me que era a morte&lt;br /&gt;mas tudo renascia com os teus passos&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Ainda a noite vem longe&lt;br /&gt;e não sei que harmonia&lt;br /&gt;não sei que silêncio&lt;br /&gt;se espalha sobre nós&lt;br /&gt;parecem folhas&lt;br /&gt;ilhas&lt;br /&gt;a tua lembrança&lt;br /&gt;ou a tua voz&lt;br /&gt;* &lt;br /&gt;Onde estás a vida continua&lt;br /&gt;caem do Outono as primeiras folhas&lt;br /&gt;mas tu lembras sempre a Primavera&lt;br /&gt;um ponto tranquilo de um jardim&lt;br /&gt;uma viagem no mar&lt;br /&gt;a ternura de alguém que se não conhece&lt;br /&gt;e a poesia volta sempre&lt;br /&gt;apesar da morte&lt;br /&gt;e a luz e a água aos corações&lt;br /&gt;apesar do crepúsculo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só onde não estás&lt;br /&gt;o vento continua ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437723348828057?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437723348828057/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437723348828057' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437723348828057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437723348828057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/as-linhas-do-silncio.html' title='AS LINHAS DO SILÊNCIO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437671425145210</id><published>2007-03-20T01:41:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:45:14.253-07:00</updated><title type='text'>O COMBOIO DO TEMPO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-2-62-01-08-va&gt; = versos do afonso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LÁ FORA A PORTA BATEU &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 8/1/1962&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora a porta bateu &lt;br /&gt;como se fosse alguém a querer entrar&lt;br /&gt;dizias-me que era o sol&lt;br /&gt;mas eu sabia que era o teu rosto&lt;br /&gt;dizias-me que era a morte &lt;br /&gt;mas tudo renascia com os teus passos.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Ainda a noite vem longe &lt;br /&gt;e não sei que harmonia&lt;br /&gt;não sei que silêncio&lt;br /&gt;se espelha sobre nós&lt;br /&gt;parecem folhas&lt;br /&gt;ilhas&lt;br /&gt;a tua lembrança ou a tua voz.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Onde estás a vida continua&lt;br /&gt;caem do Outono as primeiras folhas&lt;br /&gt;mas tu lembras sempre a Primavera &lt;br /&gt;um ponto tranquilo do jardim&lt;br /&gt;uma viagem no mar&lt;br /&gt;a ternura de alguém que se não conhece&lt;br /&gt;e a poesia volta sempre&lt;br /&gt;apesar da morte&lt;br /&gt;e a luz e a água aos corações&lt;br /&gt;apesar do crepúsculo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só onde não estás &lt;br /&gt;o vento continua.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Pergunto se nasceste &lt;br /&gt;deste desejo de te vestir&lt;br /&gt;ou desta espada nua&lt;br /&gt;que parece bruma&lt;br /&gt;que parece um gesto exacto&lt;br /&gt;que parece esperança&lt;br /&gt;sempre fria e nocturna&lt;br /&gt;pergunto se são náufragos&lt;br /&gt;ou velhos veleiros de tristes velas negras&lt;br /&gt;os teus cabelos &lt;br /&gt;e ao agitar das folhas&lt;br /&gt;se foi o teu corpo&lt;br /&gt;o vento&lt;br /&gt;ou não sei que estranha distância&lt;br /&gt;que espaço de astros&lt;br /&gt;entre a tua e a minha boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto se foi a tempestade&lt;br /&gt;o teu silêncio&lt;br /&gt;uma nítida manhã&lt;br /&gt;pergunto e acredito que fosse luz&lt;br /&gt;um barco carregado de vozes&lt;br /&gt;entre os teus dedos e o mar. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Vieste mais cedo que a paz &lt;br /&gt;e desejei-te tanto&lt;br /&gt;vieste mais cedo que a madrugada &lt;br /&gt;e as lágrimas ainda não pararam&lt;br /&gt;Vieste mais cedo que a morte&lt;br /&gt;e a vida está aqui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o que penso te pudesse acordar&lt;br /&gt;sem ruído&lt;br /&gt;se o que te amo &lt;br /&gt;falasse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viesse a paz da madrugada a morte&lt;br /&gt;seria tudo igual a nada&lt;br /&gt;só porque vieste&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Um rio de ternura a tua voz&lt;br /&gt;dentro de mim correndo por correr&lt;br /&gt;és a nascente e corres sem saber&lt;br /&gt;que sou dentro de ti a tua foz.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A noite já caiu &lt;br /&gt;se a casa que não temos&lt;br /&gt;fosse o comboio do tempo&lt;br /&gt;que partiu. ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437671425145210?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437671425145210/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437671425145210' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437671425145210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437671425145210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/o-comboio-do-tempo.html' title='O COMBOIO DO TEMPO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437649955652269</id><published>2007-03-20T01:37:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:41:39.556-07:00</updated><title type='text'>UM FIO DE ÁGUA</title><content type='html'>&lt;em&gt;62-01-08-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AQUELE MENINO VAI ATRÁS DA SOMBRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8/1/1962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele menino vai atrás da sombra&lt;br /&gt;pede licença para entrar&lt;br /&gt;não entra&lt;br /&gt;a sombra está atrás&lt;br /&gt;persegue-o&lt;br /&gt;agora é ele que foge da sombra&lt;br /&gt;e a sombra corre&lt;br /&gt;as casas correm&lt;br /&gt;ao lado do menino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele menino é um fio de água&lt;br /&gt;correndo pela parede&lt;br /&gt;as ruas cercam-no&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino parou&lt;br /&gt;a sombra parou&lt;br /&gt;olham ambos para o cais&lt;br /&gt;e ficam tranquilos. ■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437649955652269?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437649955652269/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437649955652269' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437649955652269'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437649955652269'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/um-fio-de-gua.html' title='UM FIO DE ÁGUA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437608494602812</id><published>2007-03-20T01:31:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:34:44.946-07:00</updated><title type='text'>SÓ NUMA CELA</title><content type='html'>&lt;em&gt;62-01-07-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LEMBRAS-TE NAZIM?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 7/1/1962&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembras-te Nazim?&lt;br /&gt;Dentro de uma cidade&lt;br /&gt;enquanto os altos fornos fabricavam armas&lt;br /&gt;e os altos comandos a traição&lt;br /&gt;sufocavas&lt;br /&gt;estavas só numa cela&lt;br /&gt;e lembras-te de três homens subindo a calçada&lt;br /&gt;lembras-te de que um se suicidou&lt;br /&gt;só ele sabia o motivo&lt;br /&gt;e era não ter motivo.■&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437608494602812?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437608494602812/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437608494602812' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437608494602812'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437608494602812'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/s-numa-cela.html' title='SÓ NUMA CELA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-117437572590649809</id><published>2007-03-20T01:26:00.000-07:00</published><updated>2007-03-20T01:28:45.916-07:00</updated><title type='text'>ISTO É ISTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;62-01-05-vi&gt; = versos inéditos - 1664 bytes janº-5&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEM ADVERSATIVAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5/1/1962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é isto&lt;br /&gt;E depois&lt;br /&gt;e antes do depois&lt;br /&gt;e depois do depois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto é sempre isto&lt;br /&gt;às vezes aquilo&lt;br /&gt;e outras aqueloutro&lt;br /&gt;um outro&lt;br /&gt;aquele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é isto&lt;br /&gt;isto será isto&lt;br /&gt;e nós todos&lt;br /&gt;alguns mais&lt;br /&gt;alguns menos &lt;br /&gt;ou mesmo raramente&lt;br /&gt;na nuca pela frente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais&lt;br /&gt;antes de já&lt;br /&gt;antes já&lt;br /&gt;do que nunca mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é isto&lt;br /&gt;é isto é sempre isto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste café de pouca gente&lt;br /&gt;está sempre menos gente do que está &lt;br /&gt;*****&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-117437572590649809?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/117437572590649809/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=117437572590649809' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437572590649809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/117437572590649809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2007/03/isto-isto.html' title='ISTO É ISTO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116634861725619358</id><published>2006-12-17T01:32:00.000-08:00</published><updated>2006-12-17T01:43:37.270-08:00</updated><title type='text'>NÃO NUNCA</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-20-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg 38 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARDE A NOSSA FÉ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;20/Novembro/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arde a nossa fé exausta &lt;br /&gt;e ainda é cedo &lt;br /&gt;a madrugada espreita &lt;br /&gt;os estrangeiros e o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há gente a mais &lt;br /&gt;dorme estrangeiro &lt;br /&gt;na tua pátria de origem &lt;br /&gt;dorme até á vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;20/Novembro/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(In Espaço Mortal, pg - pg 38)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nunca a alegria &lt;br /&gt;que de mim parte e vai &lt;br /&gt;a outros pertence. &lt;br /&gt;De mim com dor nasce &lt;br /&gt;sou unicamente quem a cria. &lt;br /&gt;Não nunca a alegria.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-11-20-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pgs 38 e 39&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OMNISCIÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;20/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós onde afogar o tédio &lt;br /&gt;e onde acabar de rojo &lt;br /&gt;e como entrar de gatas &lt;br /&gt;à noite num determinado lugar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos o que nos sobra para dividir &lt;br /&gt;o que sonhamos sem dormir &lt;br /&gt;a tranquilidade que nos foge &lt;br /&gt;o túmido batráquio que se escapa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós de uma religião &lt;br /&gt;não o que se destina aos homens &lt;br /&gt;mas o que dos profetas foi ouvido &lt;br /&gt;e conformado aos hábitos dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós que o medo continua &lt;br /&gt;a não surpreender nas camas os doentes &lt;br /&gt;e as térmites que escavam até à solidão os ossos &lt;br /&gt;ou à espera da noite a mastigar rumores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós não comer outros frutos &lt;br /&gt;mais fáceis frutos de sub-reptação &lt;br /&gt;desconhecer o reino &lt;br /&gt;e como poderemos usá-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a dilecta palavra que vence &lt;br /&gt;e do labirinto sem regresso a única porta &lt;br /&gt;a de um pombo branco assassinado &lt;br /&gt;Soubéssemos nós a medida exacta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a fé que nos queime &lt;br /&gt;e que ilumine de vírus reais &lt;br /&gt;a terra onde só a alguns é dado &lt;br /&gt;respirar por pulmões naturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a fórmula ou salmo ou pregador &lt;br /&gt;que propague a nossa fé a nossa exausta fé &lt;br /&gt;que não contamina não infecta &lt;br /&gt;e vive dos diários ventos de feição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah ! soubéssemos nós.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-11-20-va&gt; terça-feira, 7 de Janeiro de 2003-scan &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAUSA LÍRICA (continuação)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[In EM, pg.51-52] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraça o teu silêncio ao meu, &lt;br /&gt;as tuas lágrimas às minhas, &lt;br /&gt;vê que uma fonte nunca seca. &lt;br /&gt;Deixa que o demónio de bondade &lt;br /&gt;que no teu peito arde &lt;br /&gt;seja água corrente &lt;br /&gt;que nunca mata a sede &lt;br /&gt;e sede que jamais a água mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa correr a vida dos teus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabem os homens a tua identidade. &lt;br /&gt;Diz-lhes quem és &lt;br /&gt;Nós realizados &lt;br /&gt;e feitos Alma, e Dor, e Eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um equívoco, crê, &lt;br /&gt;um equívoco com cara de parvo, &lt;br /&gt;asneiras na lapela e ranho no nariz. &lt;br /&gt;Sê grande e bom e triste e, se possível, feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem sabe definir-te, &lt;br /&gt;quem ? &lt;br /&gt;Não é tocável o Deus que em nós habita, &lt;br /&gt;uma corola aberta &lt;br /&gt;a abrir-se indefinidamente. &lt;br /&gt;Não é tocável o Deus que habita em nós, &lt;br /&gt;o teu corpo o nosso corpo, &lt;br /&gt;a nossa a tua voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, nunca a alegria &lt;br /&gt;que de mim parte e vai, &lt;br /&gt;a outros pertence. &lt;br /&gt;De mim, com dor, nasce, &lt;br /&gt;sou unicamente quem a cria. &lt;br /&gt;Não, nunca a alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira , &lt;strong&gt;20/11/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;64-11-20-vi&gt; versos inéditos de afonso cautela – 1964 – toadas &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIALÉCTICA AQUI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt;20/Novembro/64&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que serve já serviu &lt;br /&gt;o que serviu vai servir &lt;br /&gt;fica o casaco no fio &lt;br /&gt;e o aberto por abrir &lt;br /&gt;mas o inverno diz que sim &lt;br /&gt;diz que tudo vai mudar &lt;br /&gt;o inverno que é teimoso &lt;br /&gt;como um vento malcriado &lt;br /&gt;aos ouvidos repetindo &lt;br /&gt;batendo às portas de casa &lt;br /&gt;com seus dedos de veado &lt;br /&gt;como um cão na preguiceira&lt;br /&gt;como um rato na despensa &lt;br /&gt;como o casaco no fio &lt;br /&gt;como a vida que lá vai &lt;br /&gt;a vida que não tivemos &lt;br /&gt;o cão que muda de pata &lt;br /&gt;que se enrosca e rosna ao lado &lt;br /&gt;o rato que muda o dente &lt;br /&gt;e de queijo no sapato &lt;br /&gt;e de cama no buraco &lt;br /&gt;e de canto na gaiola &lt;br /&gt;a cabeça em dor de dentes &lt;br /&gt;uma e outra são urgentes &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o inverno está lá fora &lt;br /&gt;a dizer que quer entrar &lt;br /&gt;diz que sim que vai mudar &lt;br /&gt;mas faz que muda e não muda&lt;br /&gt;para não se chatear &lt;br /&gt;fica hoje o que era ontem &lt;br /&gt;e amanhã o que hoje está &lt;br /&gt;o que andava está parado &lt;br /&gt;o que anda vai parar &lt;br /&gt;muda o fisco muda a renda &lt;br /&gt;muda a muda em surda-muda &lt;br /&gt;a tempestade em bonança &lt;br /&gt;como um vento malcriado &lt;br /&gt;vai o inverno que é teimoso &lt;br /&gt;aos ouvidos repetindo &lt;br /&gt;batendo às portas de casa &lt;br /&gt;a gritar que quer entrar &lt;br /&gt;e que tudo vai mudar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda sim senhor &lt;br /&gt;ninguém duvida que sim &lt;br /&gt;muda o vestido em despido &lt;br /&gt;o nu ainda em mais nu &lt;br /&gt;muda o pobre em pobrezinho &lt;br /&gt;pelas ruas a cantar&lt;br /&gt;muda o toureiro em tourada &lt;br /&gt;muda o teso em tesourada &lt;br /&gt;muda o cavalo o selim &lt;br /&gt;o velhinho que lá estava &lt;br /&gt;deu-lhe um ai e foi o fim &lt;br /&gt;lá mudar vê-se que muda &lt;br /&gt;tudo muda à nossa volta &lt;br /&gt;muda o santo em pecador &lt;br /&gt;muda a noite e muda o dia &lt;br /&gt;muda-se o mau em pior &lt;br /&gt;muda o não e muda o sim &lt;br /&gt;o campo muda em campismo &lt;br /&gt;muda-se a dor em urgência &lt;br /&gt;de acabar de pressa e bem &lt;br /&gt;porque o médico tem pressa &lt;br /&gt;e o cangalheiro também &lt;br /&gt;muda-se o pássaro no ramo &lt;br /&gt;já de si tão aromático &lt;br /&gt;de viver do outro lado &lt;br /&gt;da rua do infinito &lt;br /&gt;o burguês muda em excelência &lt;br /&gt;para alguma presidência &lt;br /&gt;de uma hora para a outra &lt;br /&gt;e a sombra muda de sol &lt;br /&gt;o guindaste em caravela &lt;br /&gt;o pão nosso em padre nosso &lt;br /&gt;já no osso o nosso corpo &lt;br /&gt;já no fio o nosso fato &lt;br /&gt;já no esgoto a nossa alma &lt;br /&gt;já na lama a nossa honra &lt;br /&gt;vai-se o sol e vem a lua&lt;br /&gt;e tudo muda na roda &lt;br /&gt;do mundo que gira e voa &lt;br /&gt;para quem souber espreitar &lt;br /&gt;pelos interstícios da lua &lt;br /&gt;na palma de cada mão &lt;br /&gt;e aos pulos em cada esquina &lt;br /&gt;não vá sair de repente &lt;br /&gt;um papão de carne e osso &lt;br /&gt;que nos coma pela frente &lt;br /&gt;e meta no calabouço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas o inverno é teimoso &lt;br /&gt;e entra pela casa dentro &lt;br /&gt;o medo que medra em nós &lt;br /&gt;os pulos que vamos dando &lt;br /&gt;a cada hora curtindo &lt;br /&gt;nevoeiro ou faça sol &lt;br /&gt;o tédio da nossa paz &lt;br /&gt;o grito da nossa voz &lt;br /&gt;no engodo desta descida &lt;br /&gt;ao vale de maelstrom &lt;br /&gt;ao inferno de rimbaud &lt;br /&gt;com bilhete de ida e volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar &lt;br /&gt;de rabinho e posição &lt;br /&gt;de cantiguinha ligeira &lt;br /&gt;de chefe de secção &lt;br /&gt;de costela e de uniforme &lt;br /&gt;com que manda ás portas bentas &lt;br /&gt;do palácio de s. bento &lt;br /&gt;pedir a esmola da praxe &lt;br /&gt;dizer que já não há multas &lt;br /&gt;caciques frades e putas &lt;br /&gt;repetir o benefício &lt;br /&gt;de salvar em todo o mundo &lt;br /&gt;ao menos um orifício &lt;br /&gt;que salve a moralidade &lt;br /&gt;da célula familiar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116634861725619358?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116634861725619358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116634861725619358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/no-nunca.html' title='NÃO NUNCA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116625927913215636</id><published>2006-12-16T00:52:00.000-08:00</published><updated>2006-12-16T00:54:39.143-08:00</updated><title type='text'>ESTOU VIVO</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-12-16-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pgs. 30 e 31&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MENÓQUENUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís, &lt;strong&gt;16/12/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fuzilem-me estou vivo &lt;br /&gt;nu das maiores e pequenas vinganças &lt;br /&gt;nu de raiva e de ciúmes&lt;br /&gt;nu de ingratidões &lt;br /&gt;nu de armas &lt;br /&gt;nu de respostas &lt;br /&gt;nu de remorsos nu de insultos. &lt;br /&gt;Fuzilem-me assim &lt;br /&gt;estou pronto &lt;br /&gt;estou seguro &lt;br /&gt;estou firme&lt;br /&gt;no meu posto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já levei os pontapés regulamentares &lt;br /&gt;já ensinei cantigas e obscenidades &lt;br /&gt;já experimentei no corpo &lt;br /&gt;as nódoas roxas que me sobraram da alma &lt;br /&gt;já conheci a lei &lt;br /&gt;e as sanções da lei &lt;br /&gt;e a lei da lei &lt;br /&gt;e a falta de lei da lei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou vivo &lt;br /&gt;não vão é dizer que me matei &lt;br /&gt;não vão é desculpar-se com as hierarquias &lt;br /&gt;as altas a desculparem-se com as baixas &lt;br /&gt;as baixas a desculparem-se com as altas&lt;br /&gt;não vão é dizer que colaborei&lt;br /&gt;que morri camonianamente devagar&lt;br /&gt;de fome e chatice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fuzilem-me com pulgas familiares&lt;br /&gt;no refego dos mantos&lt;br /&gt;na bainha das calças&lt;br /&gt;na ponta dos cabelos&lt;br /&gt;fuzilem-me com cuidado&lt;br /&gt; com fúria&lt;br /&gt; com amor&lt;br /&gt; com vontade&lt;br /&gt; sem vontade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou vivo &lt;br /&gt;não vão é dizer que me matei.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116625927913215636?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116625927913215636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116625927913215636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/estou-vivo.html' title='ESTOU VIVO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116540188272900822</id><published>2006-12-06T02:43:00.000-08:00</published><updated>2006-12-06T02:44:42.740-08:00</updated><title type='text'>NÃO PARA DE CHOVER</title><content type='html'>&lt;em&gt;55-12-06-VA&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OBSESSÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura, &lt;strong&gt;6/12/1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choveu a tarde toda&lt;br /&gt;e a chuva o tempo a vida&lt;br /&gt;isto - não acaba &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que vontade imensa de morrer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que vieste?&lt;br /&gt;assim terei de levar o teu nome na boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois o cortejo fúnebre a manchar-me a memória:&lt;br /&gt;as classificações obscenas dos doutores&lt;br /&gt;e os complexos são outra longa história&lt;br /&gt;(eu que nunca me dei ao luxo&lt;br /&gt;de ter um jardim de complexos)&lt;br /&gt;a lei e os seus dois gumes&lt;br /&gt;a dialéctica dos contrários&lt;br /&gt;as hierarquias de nobreza moral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as aparências as conveniências as&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o tempo a vida isto - não para de chover.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116540188272900822?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116540188272900822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116540188272900822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/no-para-de-chover.html' title='NÃO PARA DE CHOVER'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116530648922649840</id><published>2006-12-05T00:09:00.000-08:00</published><updated>2006-12-05T00:14:49.246-08:00</updated><title type='text'>CRÓNICA FAMILIAR</title><content type='html'>&lt;em&gt;55-12-03-VA&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SOL ANDAVA ALEGRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura,&lt;strong&gt; 3/12/1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol andava alegre&lt;br /&gt;e parou de susto&lt;br /&gt;Como estavas triste!&lt;br /&gt;Perguntou com força:&lt;br /&gt;posso fazer-te uma pergunta&lt;br /&gt;ouves-me ainda&lt;br /&gt;existes?&lt;br /&gt;Os teus olhos não respondem &lt;br /&gt;os teus olhos tristes tristes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol continua a sua lida &lt;br /&gt;e enquanto fosse dia&lt;br /&gt;era preciso brilhar&lt;br /&gt;brilhar com descarada ironia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntou outra vez:&lt;br /&gt;- Que te fiz eu que te fiz?&lt;br /&gt;Disse palavras a mais&lt;br /&gt;palavras que talvez deixem&lt;br /&gt;a noite antes que a noite anoiteça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que te fiz eu, que te fiz?&lt;br /&gt;Os teus olhos não respondem&lt;br /&gt;os teus olhos tristes tristes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bom dia irmão&lt;br /&gt;Tanto faz&lt;br /&gt;bom ou mau o que importava &lt;br /&gt;é que houvesse alguém capaz &lt;br /&gt;de dizer uma palavra&lt;br /&gt;que não deixasse falar&lt;br /&gt;o que quer o coração &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero ouvir de ti de ti:&lt;br /&gt;- Bom dia, irmão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o sol com mais força ainda &lt;br /&gt;- Nada, não é nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei como é ridículo &lt;br /&gt;quem na vida não desiste&lt;br /&gt;Foi o sol que gritou pois foi&lt;br /&gt;foi ele não ouviste?&lt;br /&gt;E apenas levo nos olhos&lt;br /&gt;a tua boca triste, triste, triste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Os teus olhos não respondem&lt;br /&gt;mas é verdade que existes&lt;br /&gt;E apenas levo nos meus&lt;br /&gt;os teus olhos tristes, tristes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem foi que nos gritou&lt;br /&gt;ouviste&lt;br /&gt;E apenas levo na minha &lt;br /&gt;a tua boca triste triste &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;58-12-03-EM&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[de facto, estes versos (Crónica familiar) pertencem ao file [---]E portanto a 1958, não 66 : repetido ou não, vale 5 estrelas]] &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRÓNICA FAMILIAR &lt;br /&gt;(páginas 75-76)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosário parou nos dedos&lt;br /&gt;e já ninguém pede a deus por nós&lt;br /&gt;Tudo se apaga&lt;br /&gt;a luz de uns olhos &lt;br /&gt;que perderam e tacteiam a linha&lt;br /&gt;de uma agulha, tudo se acaba,&lt;br /&gt;pela casa só o relógio continua a &lt;br /&gt;cumprir uma obrigação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tristeza&lt;br /&gt;senta-se nas cadeiras empoeiradas &lt;br /&gt;e deixa marca de dedos sobre as mesas.&lt;br /&gt;Um dia só, longo, indesfiável, &lt;br /&gt;terço que fantasmas rezam&lt;br /&gt;brincando com os olhinhos de sol&lt;br /&gt;que brincam às escondidas no telhado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não há contos de fadas&lt;br /&gt;mas enlaçam-nos ainda suavemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As paredes de cal meditam nalguma coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo&lt;br /&gt;essa gripe ou asma da alma&lt;br /&gt;esse gato enroscado num sofá antigo&lt;br /&gt;e debaixo do aparador&lt;br /&gt;sujando com as patas as revistas já antigas&lt;br /&gt;o tempo&lt;br /&gt;o retrato na parede que me olha desconhecido&lt;br /&gt;e tem a cor verde da morte&lt;br /&gt;dos retratos de El Greco&lt;br /&gt;o tempo&lt;br /&gt;um arame de palavras&lt;br /&gt;um jornal amarrotado onde há muitos crimes&lt;br /&gt;títulos tinta rótulos triunfos&lt;br /&gt;o tempo&lt;br /&gt;esse desgaste lento de lugres&lt;br /&gt;avançando a medo na noite&lt;br /&gt;em vão avançando para um lugar&lt;br /&gt;que não existe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo. &lt;br /&gt;+&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116530648922649840?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116530648922649840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116530648922649840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/crnica-familiar.html' title='CRÓNICA FAMILIAR'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116522871502856504</id><published>2006-12-04T02:33:00.000-08:00</published><updated>2006-12-04T02:38:35.046-08:00</updated><title type='text'>IMPERATIVO CATEGÓRICO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-1 - 55-12-02-vp-em&gt; espaço mortal - anti-prosas - terça-feira, 14 de Janeiro de 2003&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2-12-1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ponte estreita, a camioneta larga e o chofer a rogar pragas contra a Junta Autónoma das Estradas. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Raio de lua, raio de sol, raio de luz. Raio de vida &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(In «Espaço Mortal», página?)&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;60-12-02-vs&gt; *****&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ORDEM É A DOS CAVALOS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;2/12/1960&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ordem é a dos cavalos &lt;br /&gt;precipitando-se&lt;br /&gt;a das nuvens&lt;br /&gt;a do aqueduto&lt;br /&gt;aéreo canibal de dentes sãos&lt;br /&gt;quem o pode saber?&lt;br /&gt;Ordem é a dos nervos&lt;br /&gt;gritando&lt;br /&gt;a da água girando num túmulo&lt;br /&gt;a das mãos&lt;br /&gt;quem o diz?&lt;br /&gt;Visco do tempo&lt;br /&gt;sono das entranhas&lt;br /&gt;morte&lt;br /&gt;um boneco desfeito&lt;br /&gt;ordem.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1- 66-12-02-vi&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SÓS NO VERÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;2/Dezembro/1966&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a sós no Verão&lt;br /&gt;és tu que dominas&lt;br /&gt;a tua pequena casa&lt;br /&gt;e quando falas&lt;br /&gt;longamente falas (anónimo)&lt;br /&gt;da tua pequena casa&lt;br /&gt;já te conhecem  no poente&lt;br /&gt;de lá passares todos os dias&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 - 66-12-02-VI-DH&gt; descrição de um homem &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NESSE LIVRO DE HORAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;2/12/1966&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse livro de horas&lt;br /&gt;à margem do que escreves &lt;br /&gt;recebes o teu primeiro amigo&lt;br /&gt;- primeiro na Primavera -&lt;br /&gt;e pensas a sós no Verão&lt;br /&gt;pensas onde ficou o sabor da última bebida &lt;br /&gt;algures no país por onde viajaste&lt;br /&gt;num Verão igual a este &lt;br /&gt;pensas e amplias a ideia (confias)&lt;br /&gt;que fazes do espaço sem fronteiras &lt;br /&gt;dessa pequena &lt;br /&gt;e condoída casa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não te atinge a injúria &lt;br /&gt;porque um pinheiro manso fez bem perto&lt;br /&gt;o caminho que leva a tua casa &lt;br /&gt;ali ficou &lt;br /&gt;e cresce para o céu &lt;br /&gt;Não te esquecerás da vida&lt;br /&gt;esse pequeno avião em que tropeças&lt;br /&gt;essa miniatura de aço&lt;br /&gt;e nem será tarde quando estiveres só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a sós no verão és tu que dominas&lt;br /&gt;a tua pequena casa&lt;br /&gt;e quando falas&lt;br /&gt;longamente falas (anónimo)&lt;br /&gt;da tua pequena casa&lt;br /&gt;já te conhecem no poente&lt;br /&gt;de lá passares todos os dias&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-2 - 58-12-02-em&gt; versos publicados em pgs 32, 33 e 34  - «espaço mortal»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IMPERATIVO CATEGÓRICO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;2/12/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a vida dura&lt;br /&gt;antes que o céu desça &lt;br /&gt;e os homens subam &lt;br /&gt;dispensa os livros &lt;br /&gt;as fórmulas as mentiras &lt;br /&gt;enquanto não fores cinza &lt;br /&gt;atira contra a morte a tua vida &lt;br /&gt;vive como quem escreve &lt;br /&gt;grama respira &lt;br /&gt;não aspires a muito &lt;br /&gt;não partas a cabeça &lt;br /&gt;livra-te das leis &lt;br /&gt;das sessões com nome de solenes &lt;br /&gt;cura-te e anda em frente &lt;br /&gt;porque derrubar sempre derruba &lt;br /&gt;quem sente o que sente e o diz. &lt;br /&gt;Matar não mates senão em legítima defesa &lt;br /&gt;viver não vivas senão por legítimos ataques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atira contra a vida a tua vida &lt;br /&gt;atira contra a morte a tua morte &lt;br /&gt;não frites os miolos &lt;br /&gt;com maiores culturas &lt;br /&gt;delas te livre a sorte. &lt;br /&gt;A cabeça só dói aos parvos com moral. &lt;br /&gt;Realiza o bem &lt;br /&gt;só quando não puderes &lt;br /&gt;realizar o mal &lt;br /&gt;desflora virgens &lt;br /&gt;só quando não puderes o contrário &lt;br /&gt;ou reciprocamente &lt;br /&gt;como uma flor sem haste aguenta-te. &lt;br /&gt;Deus te salvará que salvador é ele&lt;br /&gt;dos aflitos&lt;br /&gt;e à falta de alimentos&lt;br /&gt;atira-te maná&lt;br /&gt;quando não tiveres pão&lt;br /&gt;lembra-te que já ganhaste o dia&lt;br /&gt;aguentando com temperança&lt;br /&gt;a fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando em vez de amor &lt;br /&gt;te derem ou pedirem outra coisa &lt;br /&gt;quando te doer grita &lt;br /&gt;quando vires o caso mal parado e não vires a olho nu &lt;br /&gt;diz que um olho é cego e és poeta&lt;br /&gt;veste o outro de vidro e serás tu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em terra de cegos &lt;br /&gt;serás rei &lt;br /&gt;com um olho &lt;br /&gt;a mais dos habituais.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116522871502856504?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116522871502856504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116522871502856504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/imperativo-categrico.html' title='IMPERATIVO CATEGÓRICO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116514421297129473</id><published>2006-12-03T03:05:00.000-08:00</published><updated>2006-12-03T03:10:12.986-08:00</updated><title type='text'>SOMBRA</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-12-01-em&gt; - versos publicados em «espaço mortal», pg.18 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PÃO NOSSO DE CADA DIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira,&lt;strong&gt; 1/12/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando muito católicos &lt;br /&gt;muito fraternos da santa comunhão &lt;br /&gt;os vemos nos jornais da manhã &lt;br /&gt;e nos jornais da tarde voltamos a lê-los. &lt;br /&gt;Quando falam de carácter &lt;br /&gt;e em rodapé explicam o que é carácter&lt;br /&gt;o que é ter carácter&lt;br /&gt;comer e dar carácter. &lt;br /&gt;Quando falam do fernando pessoa morto &lt;br /&gt;para não falarem dos fernando pessoa vivos &lt;br /&gt;quando lapidam um e delapidam outros &lt;br /&gt;quando no cemitério crescem romãs de cabeceira &lt;br /&gt;quando os que estão de bem &lt;br /&gt;e na graça do senhor &lt;br /&gt;já caducos vão avançando e ninguém os olha &lt;br /&gt;e escrevem sonetos &lt;br /&gt;e pintam bonecos &lt;br /&gt;e britam chavecos &lt;br /&gt;e chucham macacos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Badalam crianças no sino do meu peito.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-12-01-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pgs. 24 e 25 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OS CASTORES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;1/12/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não furam furassem &lt;br /&gt;se não obram obrassem &lt;br /&gt;nos olhos vidrados &lt;br /&gt;de quem não quer ir &lt;br /&gt;de quem não quer ver &lt;br /&gt;engolir e ganir &lt;br /&gt;com óculos escuros &lt;br /&gt;do assim-assim &lt;br /&gt;do parece mal &lt;br /&gt;do vai-te matar &lt;br /&gt;abram-se as páginas &lt;br /&gt;venha a morfina &lt;br /&gt;tragam os álcoois &lt;br /&gt;o emblema a bandeira &lt;br /&gt;a vontade o guindaste &lt;br /&gt;a caminho do céu &lt;br /&gt;com cara de santo &lt;br /&gt;com sexo de anjinho &lt;br /&gt;entre anjos e arcanjos&lt;br /&gt;cultos e orando &lt;br /&gt;de pele ao pescoço &lt;br /&gt;muito carácter e civilidade &lt;br /&gt;se o sémen perderam &lt;br /&gt;é já da idade &lt;br /&gt;arnica na ferida &lt;br /&gt;um borrão na luz &lt;br /&gt;parto sem dor &lt;br /&gt;dor de barbela &lt;br /&gt;Virgem Manuela &lt;br /&gt;à minha espera &lt;br /&gt;fora de casa &lt;br /&gt;com muito dó &lt;br /&gt;abri-me os braços &lt;br /&gt;cheira-me a flores &lt;br /&gt;sabe-me a puz&lt;br /&gt;quando acabará &lt;br /&gt;esta situação &lt;br /&gt;por demais concreta ? &lt;br /&gt;sabê-lo-á Jaspers &lt;br /&gt;Jaspers foi poeta?&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-12-01-vs&gt; versos em nós&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SOMBRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;1/12/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombra&lt;br /&gt;água&lt;br /&gt;morte&lt;br /&gt;flor&lt;br /&gt;lentamente a fechar-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramos de sombra&lt;br /&gt;sombra que nos cobre&lt;br /&gt;de anos e de pasmo&lt;br /&gt;de dúvidas e medo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramos de água&lt;br /&gt;de água e nevoeiro&lt;br /&gt;e mágoa e cativeiro&lt;br /&gt;de dor e de segredo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramos de flor&lt;br /&gt;recanto onde esperamos&lt;br /&gt;e o espanto também espera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flor&lt;br /&gt;Ramos da morte&lt;br /&gt;alva e alta montanha &lt;br /&gt;que nos cega&lt;br /&gt;amor cor de sangue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morte&lt;br /&gt;Sombra&lt;br /&gt;Água&lt;br /&gt;Morte&lt;br /&gt;Flor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lentamente a fechar-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sombra de odiar-nos &lt;br /&gt;a água de nos vermos &lt;br /&gt;a morte de vivermos&lt;br /&gt;a flor de nos ouvirmos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombra &lt;br /&gt;água&lt;br /&gt;morte&lt;br /&gt;flor&lt;br /&gt;lentamente e fechar-se&lt;br /&gt;lentamente a fechar-se&lt;br /&gt;lentamente a fechar-se.&lt;br /&gt;+&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116514421297129473?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116514421297129473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116514421297129473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/12/sombra.html' title='SOMBRA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116418728987070323</id><published>2006-11-22T01:20:00.000-08:00</published><updated>2006-11-22T01:21:29.890-08:00</updated><title type='text'>AMA O SILÊNCIO</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-30-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pgs 36 e 37&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MODO DE SER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;30/11/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém o conhece mas alguns o procuram &lt;br /&gt;poucos o procuraram ontem e muitos o hão-de procurar. &lt;br /&gt;Não consta de nenhum exemplar teratológico &lt;br /&gt;a linguagem e esqueleto existentes &lt;br /&gt;sabe-se apenas que há-de vir que há-de nascer &lt;br /&gt;Além dos poucos que dele falam &lt;br /&gt;outros para não estarem calados &lt;br /&gt;falam de uma para-existência &lt;br /&gt;Sabe-se ainda que imita os homens de condição humilde &lt;br /&gt;que ama os homens sem história e de incolor destino &lt;br /&gt;que assimila facilmente os fácies e os dialectos regionais &lt;br /&gt;tem irmãos que ama em silêncio &lt;br /&gt;e ama o silêncio &lt;br /&gt;Os quatro cantos das figuras quadradas interrogam-se &lt;br /&gt;sobre se terá a sua forma ou a de um polígono qualquer &lt;br /&gt;ou se no centro o atravessará um número obrigatório de apótemas e diagonais &lt;br /&gt;sabendo como se sabe (e isso sabe-se) &lt;br /&gt;que há uma explicação cartesiana &lt;br /&gt;para tudo o que vibra &lt;br /&gt;e uma teoria física o explicará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto de mim assusta-se um pequeno pássaro &lt;br /&gt;olha-me só pelo rumor que fiz de olhá-lo &lt;br /&gt;O pássaro sabe como eu &lt;br /&gt;que nada ambos sabemos &lt;br /&gt;e no entanto sabe que o mistério &lt;br /&gt;terá que desnudar-se antes de amanhã &lt;br /&gt;só com o nosso tentar explicá-lo &lt;br /&gt;descobri-lo abri-lo de mãos presas &lt;br /&gt;Talvez este lugar venha a ser um dia &lt;br /&gt;ponto de romagem internacional &lt;br /&gt;onde agora é apenas uma curva boreal frustrada &lt;br /&gt;e o nosso intenso desejo de olhá-la &lt;br /&gt;A humanidade inteira o procura &lt;br /&gt;dá-se-lhe em pensamento &lt;br /&gt;e ela ou ele cresce oculto &lt;br /&gt;vestido de todas as aparências &lt;br /&gt;retráctil a todas as essências &lt;br /&gt;Cresce a planta onde nunca pés humanos chegaram &lt;br /&gt;cresce até o dia &lt;br /&gt;em que a coincidência se faça &lt;br /&gt;por encontro intuitivo de ser para ser.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116418728987070323?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116418728987070323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116418728987070323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/ama-o-silncio.html' title='AMA O SILÊNCIO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116410530691101892</id><published>2006-11-21T02:31:00.000-08:00</published><updated>2006-11-21T02:35:06.923-08:00</updated><title type='text'>DE PERFIL</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-28-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RETRATO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;28/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como gostei de ti foi de perfil dormindo &lt;br /&gt;e era cedo para a noite que descia &lt;br /&gt;cansado do trabalho cansado da vida &lt;br /&gt;de lidar vi-te e sorrias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não&lt;br /&gt;não eras tu a solução &lt;br /&gt;que em ti escondias.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116410530691101892?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116410530691101892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116410530691101892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/de-perfil.html' title='DE PERFIL'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116402477554507229</id><published>2006-11-20T04:11:00.000-08:00</published><updated>2006-11-20T04:12:55.546-08:00</updated><title type='text'>NEM UM POÇO</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-25-em&gt; - versos publicados em «espaço mortal», pgs. 12 e 13&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO, NADA, NUNCA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís, &lt;strong&gt;25/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem um poço sem fundo &lt;br /&gt;por nós dentro, &lt;br /&gt;nem ser a diagonal de nada &lt;br /&gt;e existir, &lt;br /&gt;nem esta cabeça pesada, &lt;br /&gt;nem esta vontade, que não cuspo &lt;br /&gt;nem assoo, &lt;br /&gt;de partir, nada me julga, assusta ou cansa, &lt;br /&gt;nada me risca do quadro &lt;br /&gt;onde estou escrito,&lt;br /&gt;nem esta fome, nem este andar, &lt;br /&gt;nem o eco do eco &lt;br /&gt;do eco deste grito, &lt;br /&gt;nenhum ramo, nenhum cheiro, &lt;br /&gt;nenhuma sombra foi mais grata&lt;br /&gt;ao viajante &lt;br /&gt;do que a sombra da árvore &lt;br /&gt;que hei-de querer &lt;br /&gt;quando noutra vida for a vida &lt;br /&gt;que nesta vida levei a vida inteira&lt;br /&gt;a ser, &lt;br /&gt;nem a morte que me arrefece &lt;br /&gt;os dedos, de manhã, &lt;br /&gt;nem os dedos frios &lt;br /&gt;que me ajudam a estar morto &lt;br /&gt;e a ser da morte a morte &lt;br /&gt;ou uma forma irregular de aborto, &lt;br /&gt;de nó que se não desata, &lt;br /&gt;de pesadelo de que se não acorda, &lt;br /&gt;de abcesso que não rebenta.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116402477554507229?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402477554507229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402477554507229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/nem-um-poo.html' title='NEM UM POÇO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116402463522838698</id><published>2006-11-20T04:09:00.000-08:00</published><updated>2006-11-20T04:10:35.236-08:00</updated><title type='text'>AGORA SOMOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-25-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg 26&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AEROTÍADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;25/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora somos salvos feitos do sono salvador&lt;br /&gt;somos feitos à imagem e semelhança dos senhores&lt;br /&gt;do Senhor&lt;br /&gt;agora somos soldados poetas aldrabões sub-gente&lt;br /&gt;desta sociedade com gente a mais&lt;br /&gt;somos feitos de guta-percha&lt;br /&gt;(resistente ao minar das térmites)&lt;br /&gt;sempre em pé sempre fixes sempre crus&lt;br /&gt;estamos há muito tempo em forma de parafuso&lt;br /&gt;que nos aperta as brácteas&lt;br /&gt;e em forma de forca que enforca&lt;br /&gt;em forma de moral&lt;br /&gt;e nus&lt;br /&gt;vamos ver numa grande tela branca&lt;br /&gt;os grandes seios brancos&lt;br /&gt;que mantêm abertos muitos olhos com o branco do olho&lt;br /&gt;o preto o verde o cinzento o castanho&lt;br /&gt;e outras cores de que é costume serem os olhos&lt;br /&gt;e o pranto ser a cor falível dos olhos que olham&lt;br /&gt;quando não estão fechados&lt;br /&gt;e olham para dentro que é lugar seguro.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116402463522838698?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402463522838698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402463522838698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/agora-somos.html' title='AGORA SOMOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116402275566415373</id><published>2006-11-20T03:36:00.000-08:00</published><updated>2006-11-20T03:39:15.676-08:00</updated><title type='text'>INDISTINTA NÉVOA</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-23-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg. 49&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAUSA LIRICA (1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira/Sines, &lt;strong&gt;23/11/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso perder-te &lt;br /&gt;e perder o teu rosto, &lt;br /&gt;posso perder-te e à claridade &lt;br /&gt;de me teres acordado &lt;br /&gt;na minha noite de miséria. &lt;br /&gt;Posso perder-te &lt;br /&gt;porque fica a indistinta névoa &lt;br /&gt;que me ficou de ti, &lt;br /&gt;porque fica o teu rosto &lt;br /&gt;que reconheceria entre milhares, &lt;br /&gt;o teu perfil que nunca vira, &lt;br /&gt;que nunca voltarei a ver, &lt;br /&gt;porque o teu cabelo &lt;br /&gt;o reconheceria entre mil cabelos, &lt;br /&gt;posso perder-te &lt;br /&gt;porque posso resignar-me&lt;br /&gt;a perder-te.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116402275566415373?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402275566415373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116402275566415373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/indistinta-nvoa.html' title='INDISTINTA NÉVOA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116393341211861365</id><published>2006-11-19T02:46:00.000-08:00</published><updated>2006-11-19T02:50:12.130-08:00</updated><title type='text'>DOIS RIOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-21-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg19&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONDE, AONDE, ALGURES, NENHURES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís,&lt;strong&gt; 21/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde há novidade há boca aberta &lt;br /&gt;onde há boca aberta há mosca &lt;br /&gt;onde há cabeça há cabeçada &lt;br /&gt;onde há cabeçada há cabeça partida &lt;br /&gt;onde não há emprego há desemprego &lt;br /&gt;onde há capital tem que haver trabalho &lt;br /&gt;onde há trabalho é que nem sempre há capital &lt;br /&gt;onde há marinheiros em calças pardas &lt;br /&gt;há várias pessoas aos saltinhos em demanda do Graal&lt;br /&gt;onde há abastança há miséria&lt;br /&gt;onde não há miséria há abastança&lt;br /&gt;onde há fuga pode haver por onde fugir  &lt;br /&gt;e onde há por onde fugir pode não haver polícia&lt;br /&gt;onde há vigaristas há vigarizados &lt;br /&gt;e onde há vigarices há  o verbo em vigor&lt;br /&gt;onde há moralidade a mais há moralidade a menos&lt;br /&gt;onde alguns comem muitos passam fome&lt;br /&gt;e onde muitos passam fome o que é demais não presta&lt;br /&gt;onde há fuga há gás pode haver ou não suicídio&lt;br /&gt;onde há morte provocada diz-se que há morte natural&lt;br /&gt;e onde acaba diz-se que é ponto final.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;55-11-21-vs-cd&gt; terça-feira, 14 de Janeiro de 2003&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DOIS RIOS QUE CONFLUEM PARA NENHUM É FIM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura, &lt;strong&gt;21/Novembro/1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois rios que confluem para nenhum é fim&lt;br /&gt;ao mesmo braço único vão dar.&lt;br /&gt;Somos nós dois rios desiguais&lt;br /&gt;para o caminho único do mar.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116393341211861365?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116393341211861365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116393341211861365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/dois-rios.html' title='DOIS RIOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116385219801242394</id><published>2006-11-18T04:09:00.000-08:00</published><updated>2006-11-18T04:16:38.030-08:00</updated><title type='text'>DIALÉCTICA AQUI</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-20-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pgs 38 e 39&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OMNISCIÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;20/11/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós onde afogar o tédio &lt;br /&gt;e onde acabar de rojo &lt;br /&gt;e como entrar de gatas &lt;br /&gt;à noite num determinado lugar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos o que nos sobra para dividir &lt;br /&gt;o que sonhamos sem dormir &lt;br /&gt;a tranquilidade que nos foge &lt;br /&gt;o túmido batráquio que se escapa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós de uma religião &lt;br /&gt;não o que se destina aos homens &lt;br /&gt;mas o que dos profetas foi ouvido &lt;br /&gt;e conformado aos hábitos dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós que o medo continua &lt;br /&gt;a não surpreender nas camas os doentes &lt;br /&gt;e as térmites que escavam até à solidão os ossos &lt;br /&gt;ou à espera da noite a mastigar rumores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós não comer outros frutos &lt;br /&gt;mais fáceis frutos de sub-reptação &lt;br /&gt;desconhecer o reino &lt;br /&gt;e como poderemos usá-lo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a dilecta palavra que vence &lt;br /&gt;e do labirinto sem regresso a única porta &lt;br /&gt;a de um pombo branco assassinado &lt;br /&gt;Soubéssemos nós a medida exacta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a fé que nos queime &lt;br /&gt;e que ilumine de vírus reais &lt;br /&gt;a terra onde só a alguns é dado &lt;br /&gt;respirar por pulmões naturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soubéssemos nós a fórmula ou salmo ou pregador &lt;br /&gt;que propague a nossa fé a nossa exausta fé &lt;br /&gt;que não contamina não infecta &lt;br /&gt;e vive dos diários ventos de feição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah ! soubéssemos nós.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;58-11-20-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg 38 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARDE A NOSSA FÉ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, 20/Novembro/58&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arde a nossa fé exausta &lt;br /&gt;e ainda é cedo &lt;br /&gt;a madrugada espreita &lt;br /&gt;os estrangeiros e o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há gente a mais &lt;br /&gt;dorme estrangeiro &lt;br /&gt;na tua pátria de origem &lt;br /&gt;dorme até à vista.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;64-11-20-vi&gt; veros inéditos de afonso cautela – 1964 – toadas &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIALÉCTICA AQUI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt;20/Novembro/64&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que serve já serviu &lt;br /&gt;o que serviu vai servir &lt;br /&gt;fica o casaco no fio &lt;br /&gt;e o aberto por abrir &lt;br /&gt;mas o inverno diz que sim &lt;br /&gt;diz que tudo vai mudar &lt;br /&gt;o inverno que é teimoso &lt;br /&gt;como um vento malcriado &lt;br /&gt;aos ouvidos repetindo &lt;br /&gt;batendo às portas de casa &lt;br /&gt;com seus dedos de veado &lt;br /&gt;como um cão na preguiceira&lt;br /&gt;como um rato na despensa &lt;br /&gt;como o casaco no fio &lt;br /&gt;como a vida que lá vai &lt;br /&gt;a vida que não tivemos &lt;br /&gt;o cão que muda de pata &lt;br /&gt;que se enrosca e rosna ao lado &lt;br /&gt;o rato que muda o dente &lt;br /&gt;e de queijo no sapato &lt;br /&gt;e de cama no buraco &lt;br /&gt;e de canto na gaiola &lt;br /&gt;a cabeça em dor de dentes &lt;br /&gt;uma e outra são urgentes &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o inverno está lá fora &lt;br /&gt;a dizer que quer entrar &lt;br /&gt;diz que sim que vai mudar &lt;br /&gt;mas faz que muda e não muda&lt;br /&gt;para não se chatear &lt;br /&gt;fica hoje o que era ontem &lt;br /&gt;e amanhã o que hoje está &lt;br /&gt;o que andava está parado &lt;br /&gt;o que anda vai parar &lt;br /&gt;muda o fisco muda a renda &lt;br /&gt;muda a muda em surda-muda &lt;br /&gt;a tempestade em bonança &lt;br /&gt;como um vento malcriado &lt;br /&gt;vai o inverno que é teimoso &lt;br /&gt;aos ouvidos repetindo &lt;br /&gt;batendo às portas de casa &lt;br /&gt;a gritar que quer entrar &lt;br /&gt;e que tudo vai mudar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda sim senhor &lt;br /&gt;ninguém duvida que sim &lt;br /&gt;muda o vestido em despido &lt;br /&gt;o nu ainda em mais nu &lt;br /&gt;muda o pobre em pobrezinho &lt;br /&gt;pelas ruas a cantar&lt;br /&gt;muda o toureiro em tourada &lt;br /&gt;muda o teso em tesourada &lt;br /&gt;muda o cavalo o selim &lt;br /&gt;o velhinho que lá estava &lt;br /&gt;deu-lhe um ai e foi o fim &lt;br /&gt;lá mudar vê-se que muda &lt;br /&gt;tudo muda à nossa volta &lt;br /&gt;muda o santo em pecador &lt;br /&gt;muda a noite e muda o dia &lt;br /&gt;muda-se o mau em pior &lt;br /&gt;muda o não e muda o sim &lt;br /&gt;o campo muda em campismo &lt;br /&gt;muda-se a dor em urgência &lt;br /&gt;de acabar de pressa e bem &lt;br /&gt;porque o médico tem pressa &lt;br /&gt;e o cangalheiro também &lt;br /&gt;muda-se o pássaro no ramo &lt;br /&gt;já de si tão aromático &lt;br /&gt;de viver do outro lado &lt;br /&gt;da rua do infinito &lt;br /&gt;o burguês muda em excelência &lt;br /&gt;para alguma presidência &lt;br /&gt;de uma hora para a outra &lt;br /&gt;e a sombra muda de sol &lt;br /&gt;o guindaste em caravela &lt;br /&gt;o pão nosso em padre nosso &lt;br /&gt;já no osso o nosso corpo &lt;br /&gt;já no fio o nosso fato &lt;br /&gt;já no esgoto a nossa alma &lt;br /&gt;já na lama a nossa honra &lt;br /&gt;vai-se o sol e vem a lua&lt;br /&gt;e tudo muda na roda &lt;br /&gt;do mundo que gira e voa &lt;br /&gt;para quem souber espreitar &lt;br /&gt;pelos interstícios da lua &lt;br /&gt;na palma de cada mão &lt;br /&gt;e aos pulos em cada esquina &lt;br /&gt;não vá sair de repente &lt;br /&gt;um papão de carne e osso &lt;br /&gt;que nos coma pela frente &lt;br /&gt;e meta no calabouço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas o inverno é teimoso &lt;br /&gt;e entra pela casa dentro &lt;br /&gt;o medo que medra em nós &lt;br /&gt;os pulos que vamos dando &lt;br /&gt;a cada hora curtindo &lt;br /&gt;nevoeiro ou faça sol &lt;br /&gt;o tédio da nossa paz &lt;br /&gt;o grito da nossa voz &lt;br /&gt;no engodo desta descida &lt;br /&gt;ao vale de maelstrom &lt;br /&gt;ao inferno de rimbaud &lt;br /&gt;com bilhete de ida e volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar &lt;br /&gt;de rabinho e posição &lt;br /&gt;de cantiguinha ligeira &lt;br /&gt;de chefe de secção &lt;br /&gt;de costela e de uniforme &lt;br /&gt;com que manda ás portas bentas &lt;br /&gt;do palácio de s. bento &lt;br /&gt;pedir a esmola da praxe &lt;br /&gt;dizer que já não há multas &lt;br /&gt;caciques frades e putas &lt;br /&gt;repetir o benefício &lt;br /&gt;de salvar em todo o mundo &lt;br /&gt;ao menos um orifício &lt;br /&gt;que salve a moralidade &lt;br /&gt;da célula familiar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;20/Novembro/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(In Espaço Mortal, pg - pg 38)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não nunca a alegria &lt;br /&gt;que de mim parte e vai &lt;br /&gt;a outros pertence. &lt;br /&gt;De mim com dor nasce &lt;br /&gt;sou unicamente quem a cria. &lt;br /&gt;Não nunca a alegria.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116385219801242394?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116385219801242394'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116385219801242394'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/dialctica-aqui.html' title='DIALÉCTICA AQUI'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116375741824424371</id><published>2006-11-17T01:54:00.000-08:00</published><updated>2006-11-17T01:56:58.260-08:00</updated><title type='text'>SEM MEDO</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-11-19-vi&gt; - versos inéditos de afonso cautela &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AO FOGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;19/Novembro/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fogo &lt;br /&gt;ao fogo que suprime purifica e apaga &lt;br /&gt;ao fogo que sagra e destina &lt;br /&gt;ao fogo despistante das marcas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou já sei sou a esterilidade &lt;br /&gt;e contra os da Conspiração estou &lt;br /&gt;contigo em corpo inteiro &lt;br /&gt;sem medo.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116375741824424371?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116375741824424371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116375741824424371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/sem-medo.html' title='SEM MEDO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116350667300108390</id><published>2006-11-14T04:16:00.000-08:00</published><updated>2006-11-14T04:17:53.016-08:00</updated><title type='text'>A FORMIGA</title><content type='html'>&lt;em&gt;62-11-16-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O TEMPO A FORMIGA O PROBLEMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 16/11/1962&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo a formiga o problema&lt;br /&gt;o tempo a língua vil a viva flora&lt;br /&gt;os anos a rediviva flor de agora&lt;br /&gt;a formiga o templo a forma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerco de ouvidos bocas dedos&lt;br /&gt;a terra estremecendo como um raio&lt;br /&gt;arame farpado de silêncios bêbados&lt;br /&gt;língua de arame de silêncio baixo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piedade concreta luz secreta&lt;br /&gt;um peito nu aberto ao que o procura&lt;br /&gt;concreta coragem estrada secreta&lt;br /&gt;os ratos no queijo a ditadura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o templo a formiga o problema.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116350667300108390?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116350667300108390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116350667300108390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/formiga.html' title='A FORMIGA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116342135497587570</id><published>2006-11-13T04:33:00.000-08:00</published><updated>2006-11-13T04:35:54.990-08:00</updated><title type='text'>DIALÉCTICA À PORTUGUESA</title><content type='html'>&lt;em&gt;1964-IV&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PONTE SOBRE O TEJO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;15/11/1964  &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá para os dois lados &lt;br /&gt;que grande que linda&lt;br /&gt;dá para os dois lados&lt;br /&gt;e é de encomenda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia nada&lt;br /&gt;e agora que linda&lt;br /&gt;que grande&lt;br /&gt;que encanto&lt;br /&gt;pois anda pois anda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os mortos aos gritos&lt;br /&gt;e os mortos aos saltos&lt;br /&gt;do lado de cá pró lado de lá&lt;br /&gt;do lado de cá pró lado de cá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gritar a chorar&lt;br /&gt;para as duas bandas&lt;br /&gt;como quem nada&lt;br /&gt;como quem chama&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(O nada é tudo &lt;br /&gt;o que se pode fazer&lt;br /&gt;num tempo de rosas&lt;br /&gt;num tempo de guerra&lt;br /&gt;num tempo de lama )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mochilas e machos&lt;br /&gt;apitos apertos&lt;br /&gt;nos becos nocturnos&lt;br /&gt;perfeitas e mansas&lt;br /&gt;manobras de mãos&lt;br /&gt;de muitos soldados&lt;br /&gt;a jogar às guerras&lt;br /&gt;os mortos de cá&lt;br /&gt;os mortos de lá&lt;br /&gt;para as duas bandas&lt;br /&gt;sempre há-de haver um&lt;br /&gt;sempre há-de haver trinta&lt;br /&gt;a pintar a ponte&lt;br /&gt;a revolução&lt;br /&gt;que nunca mais chega &lt;br /&gt;ou já chegou tarde&lt;br /&gt;e o cangurú&lt;br /&gt;que nunca mais leu&lt;br /&gt;que nunca aprendeu&lt;br /&gt;o que andava a ler&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mortos daqui&lt;br /&gt;falando aos dali&lt;br /&gt;milhões de habitantes&lt;br /&gt;formigas gigantes&lt;br /&gt;chegou o dilúvio&lt;br /&gt;chegaram aos montes&lt;br /&gt;a arca e o resto&lt;br /&gt;dos rinocerontes&lt;br /&gt;chegaram bandeiras&lt;br /&gt;e nações inteiras&lt;br /&gt;vindas lá dos montes &lt;br /&gt;piratas ingleses&lt;br /&gt;chicanas de Alfama&lt;br /&gt;um escroque infinito&lt;br /&gt;e algures em Lisboa&lt;br /&gt;a peregrinação&lt;br /&gt;do fernão mendes pinto&lt;br /&gt;que era não era&lt;br /&gt;que andava embarcado&lt;br /&gt;navegando ao largo&lt;br /&gt;do largo oceano&lt;br /&gt;e a todo o pano&lt;br /&gt;já ninguém o via&lt;br /&gt;ninguém o chamava &lt;br /&gt;só latifundiários &lt;br /&gt;expulsos da terra&lt;br /&gt;ali mesmo à mão&lt;br /&gt;de modo que emigrem&lt;br /&gt;para a mão de deus&lt;br /&gt;que é o paraíso&lt;br /&gt;(lá dizem que é)&lt;br /&gt;da subversão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá contam também&lt;br /&gt;que a merda é a mesma &lt;br /&gt;mas enquanto esperam&lt;br /&gt;vai morrendo a morte&lt;br /&gt;de morte-macaca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tempo de rosas&lt;br /&gt;um tempo de guerra&lt;br /&gt;um tempo de lama&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As guerras são lindas &lt;br /&gt;se vistas do alto&lt;br /&gt;das pontes que lindas&lt;br /&gt;viseiras de couro&lt;br /&gt;em segunda mão&lt;br /&gt;lavagens a seco&lt;br /&gt;a miolos rebeldes&lt;br /&gt;pintados de novo&lt;br /&gt;a nanquim ou carvão&lt;br /&gt;de forro cá fora &lt;br /&gt;ou a ferro e fogo&lt;br /&gt;estrume e cimento &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que lindas as guerras&lt;br /&gt;para ver do alto&lt;br /&gt;que mudam a face &lt;br /&gt;do mundo e da vida&lt;br /&gt;são rosas são lanças&lt;br /&gt;de faces caídas&lt;br /&gt;do céu renascidas &lt;br /&gt;por mão de crianças&lt;br /&gt;logo recolhidas &lt;br /&gt;nos lagos serenos &lt;br /&gt;ali do Rossio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas manhãs amenas &lt;br /&gt;de meias mentiras&lt;br /&gt;de meias verdades &lt;br /&gt;minazes estrelas&lt;br /&gt;às portas dos tios &lt;br /&gt;tocam as trindades&lt;br /&gt;meninos de saias&lt;br /&gt;saídos recentes &lt;br /&gt;dos ventres zelosos&lt;br /&gt;de mães procriantes&lt;br /&gt;meninos de bibe &lt;br /&gt;bordados na cinta&lt;br /&gt;de modos risonhos&lt;br /&gt;e botões de punho&lt;br /&gt;já daquela idade&lt;br /&gt;tão logo manetas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que lindas as guerras&lt;br /&gt;se vistas do alto&lt;br /&gt;dos prédios que mudam&lt;br /&gt;da Bica a Alfama&lt;br /&gt;o ritmo da vida&lt;br /&gt;é tudo conforme&lt;br /&gt;se pôs deste lado&lt;br /&gt;o fraco é mais fraco&lt;br /&gt;o forte é mais forte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo é conforme&lt;br /&gt;se pôs deste lado &lt;br /&gt;o tudo está certo&lt;br /&gt;no mundo que imundo&lt;br /&gt;sofria de insónias&lt;br /&gt;gemia do peito&lt;br /&gt;passou da miséria&lt;br /&gt;a rapaz eleito&lt;br /&gt;que cobrava o fisco&lt;br /&gt;nas zonas menores &lt;br /&gt;da cidade Norte&lt;br /&gt;e depois de eleito&lt;br /&gt;passou às maiores &lt;br /&gt;passou a cobrar&lt;br /&gt;o imposto da zona&lt;br /&gt;do Campo Pequeno&lt;br /&gt;para o Lumiar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que na grama&lt;br /&gt;recém-semeada&lt;br /&gt;mamam meninos&lt;br /&gt;que não são de mama&lt;br /&gt;são revolucionários&lt;br /&gt;padres velozes&lt;br /&gt;e em pé de guerra&lt;br /&gt;pràs festas da virgem&lt;br /&gt;com foguetes à tarde&lt;br /&gt;com o D. Henrique&lt;br /&gt;que descobriu mares&lt;br /&gt;com o leme alerta&lt;br /&gt;e os alambicados&lt;br /&gt;defensores da pátria &lt;br /&gt;com patas e pazes&lt;br /&gt;fazendo negaças&lt;br /&gt;às pretas cansadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paz em ruínas&lt;br /&gt;os nomes os gritos &lt;br /&gt;à espera às esquinas&lt;br /&gt;dos jornais extintos&lt;br /&gt;dos panfletos mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte não grita&lt;br /&gt;a morte não chega&lt;br /&gt;estrebucha devora&lt;br /&gt;ternura que agora &lt;br /&gt;se dá por guarida&lt;br /&gt;aos mortos de agora&lt;br /&gt;aos vivos de outrora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De murros e escarros&lt;br /&gt;a Ceia se faz&lt;br /&gt;de Cristo na cama&lt;br /&gt;a fama de Alfama&lt;br /&gt;chegou até nós&lt;br /&gt;de ocultas muralhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tempo de rosas&lt;br /&gt;Um tempo de guerra&lt;br /&gt;Um tempo de lama&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;64-11-15-vs&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIALÉCTICA À MODA PORTUGUESA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, 15/11/1964 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vida que já lá vai &lt;br /&gt;a vida que não tivemos &lt;br /&gt;os pais airosos cofiam&lt;br /&gt;o pelo dos filhos gémeos &lt;br /&gt;o cão que muda de pata&lt;br /&gt;que se enrosca e rosna ao lado&lt;br /&gt;o rato que muda o dente &lt;br /&gt;e de queijo no sapato&lt;br /&gt;e de cama no buraco&lt;br /&gt;e de canto na gaiola&lt;br /&gt;a cabeça em dor de dentes&lt;br /&gt;uma e outra são urgentes&lt;br /&gt;o Inverno está lá fora&lt;br /&gt;a dizer que quer entrar &lt;br /&gt;muda de pele e de mãos&lt;br /&gt;faz que muda mas não muda&lt;br /&gt;só para os chatear&lt;br /&gt;fica hoje o que era ontem&lt;br /&gt;e amanhã o que hoje está&lt;br /&gt;o que anda vai parar&lt;br /&gt;o que andava está parado&lt;br /&gt;muda o fisco muda a renda&lt;br /&gt;sem descanso sem parança&lt;br /&gt;faz que muda mas não muda&lt;br /&gt;a tempestade em bonança&lt;br /&gt;o Inverno que é teimoso&lt;br /&gt;como um vento malcriado&lt;br /&gt;aos ouvidos repetindo&lt;br /&gt;batendo às portas de casa&lt;br /&gt;com os seus dedos de veado&lt;br /&gt;a canção dos tempos velhos&lt;br /&gt;dos tempos em que ele andava &lt;br /&gt;como um cão na preguiceira&lt;br /&gt;como o rato na dispensa&lt;br /&gt;como o casaco no fio&lt;br /&gt;como a vida que lá vai&lt;br /&gt;a vida que não tivemos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;muda o sol em guarda-sol&lt;br /&gt;a cabeça em cabeceira&lt;br /&gt;do doente imaginário&lt;br /&gt;mas mundo que tanto mude&lt;br /&gt;tão redondo e tão propício&lt;br /&gt;nunca vi assim tão perto&lt;br /&gt;desta boca e desta terra&lt;br /&gt;seu andaime e seu ofício&lt;br /&gt;nunca vi assim que a guerra &lt;br /&gt;dissesse adeus à senhora&lt;br /&gt;se fosse às dez já embora&lt;br /&gt;quando o serão começava &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda sim senhor &lt;br /&gt;ninguém duvida que sim&lt;br /&gt;muda o vestido em despido&lt;br /&gt;o nu ainda em mais nu&lt;br /&gt;muda o pobre em pobrezinho&lt;br /&gt;pelas ruas a cantar&lt;br /&gt;muda o toureiro em tourada &lt;br /&gt;muda o teso em tesourada &lt;br /&gt;muda o cavalo o selim&lt;br /&gt;o velhinho que lá estava &lt;br /&gt;deu-lhe um ai e foi o fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá mudar vê-se que muda&lt;br /&gt;tudo muda à nossa volta&lt;br /&gt;muda o santo em pecador&lt;br /&gt;muda a noite e muda o dia&lt;br /&gt;muda-se o mau em pior&lt;br /&gt;muda o não e muda o sim&lt;br /&gt;o campo muda em campismo&lt;br /&gt;muda-se a dor em urgência &lt;br /&gt;de acabar depressa e bem&lt;br /&gt;porque o médico tem pressa&lt;br /&gt;e o cangalheiro também&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;muda-se o pássaro no ramo&lt;br /&gt;já de si tão aromático&lt;br /&gt;de viver do outro lado &lt;br /&gt;da rua do infinito&lt;br /&gt;o burguês muda em excelência &lt;br /&gt;para alguma presidência&lt;br /&gt;de uma hora para a outra&lt;br /&gt;e a sombra muda de sol&lt;br /&gt;o guindaste em caravela&lt;br /&gt;o pão nosso em padre nosso&lt;br /&gt;já no osso o nosso corpo&lt;br /&gt;já no fio o nosso fato&lt;br /&gt;já no esgoto a nossa alma&lt;br /&gt;já na lama a nossa honra &lt;br /&gt;vai-se o sol e vem a lua&lt;br /&gt;e tudo muda na roda&lt;br /&gt;do mundo que gira e voa&lt;br /&gt;para quem souber espreitar&lt;br /&gt;pelos interstícios da lua&lt;br /&gt;na palma de cada mão&lt;br /&gt;e aos pulos em cada esquina&lt;br /&gt;não vá sair de repente &lt;br /&gt;um papão de carne e osso&lt;br /&gt;que nos coma pela frente&lt;br /&gt;e meta no calabouço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas o Inverno é teimoso&lt;br /&gt;e entra pela casa dentro&lt;br /&gt;o medo que medra em nós&lt;br /&gt;os pulos que vamos dando&lt;br /&gt;a cada hora curtindo&lt;br /&gt;nevoeiro ou faça sol&lt;br /&gt;o tédio da nossa paz &lt;br /&gt;o grito da nossa voz&lt;br /&gt;no engodo desta descida&lt;br /&gt;ao vale do maelstrom &lt;br /&gt;ao inferno de rimbaud&lt;br /&gt;com bilhete de ida e volta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar&lt;br /&gt;de rabinho e posição&lt;br /&gt;de cantiguinha ligeira &lt;br /&gt;de chefe de secção&lt;br /&gt;de costela e de uniforme&lt;br /&gt;com que manda às portas bentas&lt;br /&gt;do palácio de são bento&lt;br /&gt;pedir a esmola da praxe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dizer que já não há multas&lt;br /&gt;caciques frades e putas&lt;br /&gt;repetir o benefício&lt;br /&gt;de salvar em todo o mundo&lt;br /&gt;ao menos um orifício&lt;br /&gt;que salve a moralidade&lt;br /&gt;da célula familiar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá que muda há-de mudar&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116342135497587570?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116342135497587570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116342135497587570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/dialctica-portuguesa.html' title='DIALÉCTICA À PORTUGUESA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116316144617740082</id><published>2006-11-10T04:21:00.000-08:00</published><updated>2006-11-10T04:24:06.190-08:00</updated><title type='text'>SALA GRANDE</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-2 - 1969-X&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SESSÃO SOLENE &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;11/11/1969 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem encosta &lt;br /&gt;o cano à nuca&lt;br /&gt;e enfia na cabeça por disfarce&lt;br /&gt;a perruca de Voltaire&lt;br /&gt;estamos na sala dos grandes actos&lt;br /&gt;onde o comboio foi chocar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castanhas alcatifas dão ao ambiente&lt;br /&gt;a quente tonalidade &lt;br /&gt;suficiente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Drinks&lt;br /&gt;risadas&lt;br /&gt;sorrisos&lt;br /&gt;e olhares&lt;br /&gt;na sala grande e solene &lt;br /&gt;da notícia de hoje&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se desce ao rés-do-chão do Inferno&lt;br /&gt;o melhor é desistir&lt;br /&gt;porque não é possível descer mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor é desistir de existir &lt;br /&gt;e não falar demais&lt;br /&gt;porque é sempre de menos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudos e horrivelmente mutilados&lt;br /&gt;danificados nas membranas&lt;br /&gt;que protegem do sol&lt;br /&gt;os olhos&lt;br /&gt;ou que estabelecem a ligação&lt;br /&gt;interna do ouvido&lt;br /&gt;com a vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horrivelmente danificados&lt;br /&gt;foi como ficámos&lt;br /&gt;na sala dos grandes actos&lt;br /&gt;onde o comboio foi chocar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os drinks&lt;br /&gt;os risos os olhares&lt;br /&gt;foi só pra disfarçar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há quem possa decência ainda ter&lt;br /&gt;neste ofício ou mister de matar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há quem se proponha evitar &lt;br /&gt;palavras duras usando metáforas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há quem posso suportar de pé&lt;br /&gt;este cheiro a peste das axilas&lt;br /&gt;na sala dos grandes actos&lt;br /&gt;das grandes assembleias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ainda há quem&lt;br /&gt;que fique.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116316144617740082?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/116316144617740082/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=116316144617740082' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116316144617740082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116316144617740082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/sala-grande.html' title='SALA GRANDE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-116306754289078927</id><published>2006-11-09T02:13:00.000-08:00</published><updated>2006-11-09T02:19:02.916-08:00</updated><title type='text'>UM DEUS DE BOLSO</title><content type='html'>&lt;em&gt;59-11-10-on&gt; versos publicados em « o nariz», páginas 17 e 18 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NESTE ARQUIPÉLAGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt;10/11/59&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste arquipélago de tranquilidade&lt;br /&gt;espero a hora triste de embarcar &lt;br /&gt;quando a bóia vermelha for &lt;br /&gt;uma veia aberta para o mar. &lt;br /&gt;Espero o teu lago de calma e segurança &lt;br /&gt;espero a ocasião do amor &lt;br /&gt;como um duende diurno procura a sua casa &lt;br /&gt;na espuma destas ondas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois fios cruzados dois fios &lt;br /&gt;cruzados para o norte cruzados para o sul &lt;br /&gt;cruzados são dois braços de navios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se falasse das algemas de ternura &lt;br /&gt;com que te aperto os pulsos &lt;br /&gt;era uma explicação. &lt;br /&gt;Se falasse de amoras frescas&lt;br /&gt;sujando de vermelho a tua boca &lt;br /&gt;era também uma explicação. &lt;br /&gt;Se falasse dos meninos brincando &lt;br /&gt;com as próprias vozes &lt;br /&gt;era ainda uma explicação. &lt;br /&gt;Mas porque nos deixaram crescer sem uma explicação?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me faltam palavras tenho as estações &lt;br /&gt;quando me faltam palavras para dizer que te amo &lt;br /&gt;procuro-as na toalha limpa dos pinheiros&lt;br /&gt;nos subterrâneos da toupeira que cega trabalhando &lt;br /&gt;nas asas mais pesadas ou leves do que o ar &lt;br /&gt;no meu quarto de quatro paredes de cela e de prisão &lt;br /&gt;quando não tenho palavras para dizer que te amo &lt;br /&gt;fico em silêncio olhando as veias &lt;br /&gt;que marcam de azul a pele e vão guiando &lt;br /&gt;os dias e o instinto à morada definitiva.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;64-11-10-vs&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UM DEUS DE BOLSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;10/11/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro dia fez da noite a quatro patas um mundo original e do mundo um mocho a duas patas que era cego mas não era original  Ao segundo dia fez o que podia ressuscitou dos mortos &lt;br /&gt;Ao terceiro como não era bastante  e a semana tinha sete dias&lt;br /&gt;inventou a morte para os vivos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois dormiu&lt;br /&gt;mas antes inventou o sono&lt;br /&gt;e depois a doença&lt;br /&gt;e porque fosse pouco&lt;br /&gt;ao quarto dia&lt;br /&gt;fez um filho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da costela ou mão esquerda&lt;br /&gt;a história não regista&lt;br /&gt;tirou palavras&lt;br /&gt;agitou o lume&lt;br /&gt;cobrou impostos e lambeu-se&lt;br /&gt;lamentou-se&lt;br /&gt;já ia no quinto e afinal&lt;br /&gt;nada que se visse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sexto&lt;br /&gt;pôs-se a meditar&lt;br /&gt;(que me ditava ele?) &lt;br /&gt;para salvar alguém já não ia a tempo&lt;br /&gt;e para se salvar &lt;br /&gt;o tempo estava mau&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desempregou-se&lt;br /&gt;ficou pasmado quando viu o mundo&lt;br /&gt;e não sabia para que servia&lt;br /&gt;por onde se pegava&lt;br /&gt;era o sétimo e último dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não tinha pressa&lt;br /&gt;morria aos bocados porque era imortal&lt;br /&gt;enquanto os homens &lt;br /&gt;bocejavam e chamavam &lt;br /&gt;àquilo &lt;br /&gt;um deus.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-116306754289078927?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/116306754289078927/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=116306754289078927' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116306754289078927'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/116306754289078927'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/11/um-deus-de-bolso.html' title='UM DEUS DE BOLSO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115960871587656594</id><published>2006-09-30T02:28:00.000-07:00</published><updated>2006-09-30T02:31:55.886-07:00</updated><title type='text'>É TARDE</title><content type='html'>&lt;em&gt; 11-1 - 90-09-30-vv&gt; versículos prosaicos - crise3&gt; 317 caracteres&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;30-09-1990&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONDE ESTÁ A CRISE?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A avaliar pelo que desperdiçamos&lt;br /&gt;- haverá crise de energia?&lt;br /&gt;- haverá crise alimentar?&lt;br /&gt;- haverá crise de água?&lt;br /&gt;- haverá crise de recursos?&lt;br /&gt;- haverá crise económica?&lt;br /&gt;- haverá crise de emprego?&lt;br /&gt;- haverá crise?&lt;br /&gt;A crise não será afinal na cabaça deles, ideólogos do regime?&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;65-09-30-vi&gt; temas em cadáver esquisito&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VAMOS NASALAR A VOZ QUE AQUI FICOU&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;30/9/1965&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos nasalar a voz que aqui ficou&lt;br /&gt;e pôr um gato bravo no esquife do avô&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são dignas as mãos que tacteiam no cinema&lt;br /&gt;as meias do mariola agora é que são elas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De caminho vamos todos à caça&lt;br /&gt;de caminho ficamos em casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obras públicas que sim que são boas&lt;br /&gt;obras depois de o ser melhor que broas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma anedota que se conta a menores&lt;br /&gt;nas esquinas à noite há muito piores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é português já se sabe que foi&lt;br /&gt;sempre a queixar-se da perna que lhe dói&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deste chamado rectângulo desta chamada pátria&lt;br /&gt;deste chamado país deste chamado Portugal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ficou como novo depois de ser pintado&lt;br /&gt;e ficou à espera de um voto para deputado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lamberam-lhe as virilhas no lugar próprio&lt;br /&gt;mas quando chegaram faltava um fuso horário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das mãos em cruz uma algema se faz&lt;br /&gt;dos ovos omelete e da guerra paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos velhos cueiros dos cristãos novos&lt;br /&gt;fizeram os ímpios potentes binóculos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a perna se acrescenta da mão morta&lt;br /&gt;é legítimo então esperar que se meta &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que é tarde e nos vamos embora&lt;br /&gt;vamos todos ler ao serão da senhora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordaram de manhã no colchão do chão molhado&lt;br /&gt;e ouvem-se gritar um belo cântico magoado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz uns versos em estilo classicizante&lt;br /&gt;para agradar aos críticos no centenário de Dante. &lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115960871587656594?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115960871587656594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115960871587656594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/tarde.html' title='É TARDE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115952128136071370</id><published>2006-09-29T02:11:00.001-07:00</published><updated>2006-09-29T02:14:41.376-07:00</updated><title type='text'>NOSSOS DIAS</title><content type='html'>&lt;em&gt;59-09-29-on&gt; versos publicados em «o nariz», página 14&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO ESCREVO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt;29/9/59&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não escrevo &lt;br /&gt;a tua voz escreve &lt;br /&gt;o som da tua voz. &lt;br /&gt;Não vejo &lt;br /&gt;só os teus olhos &lt;br /&gt;a luz que há nos teus olhos &lt;br /&gt;mas penso &lt;br /&gt;acordo e como foi isto &lt;br /&gt;amor? &lt;br /&gt;Por nossa culpa são diferentes &lt;br /&gt;a tristeza as algemas os escombros &lt;br /&gt;as veias de humidade sobre os dias &lt;br /&gt;e principalmente as insónias &lt;br /&gt;as nossas noites sempre iguais às noites &lt;br /&gt;os nossos dias sempre iguais aos dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que somos nós mais do que crianças &lt;br /&gt;mais do que risos namorados rios &lt;br /&gt;mais do que árvores escutando o céu &lt;br /&gt;mais do que uma lágrima &lt;br /&gt;mais do que uma flor? &lt;br /&gt;É que não vale ainda a tua companhia &lt;br /&gt;o que a vida e a morte me derem de melhor.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115952128136071370?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115952128136071370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115952128136071370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/nossos-dias_29.html' title='NOSSOS DIAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115927231977930761</id><published>2006-09-26T05:04:00.000-07:00</published><updated>2006-09-26T05:05:19.796-07:00</updated><title type='text'>O DIA NASCE</title><content type='html'>&lt;em&gt;59-09-26-on&gt; versos publicados em «o nariz», página 13&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM TEUS OLHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 26/9/59&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em teus olhos o dia nasce e sobe &lt;br /&gt;é um deus do mar que o sol descobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra face tem agora a nossa dor &lt;br /&gt;outra geografia a terra que aguardamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero contar-te o que adivinho e vejo &lt;br /&gt;o que desespero penso e imagino &lt;br /&gt;e o coração reparte. &lt;br /&gt;Quero dar-te a minha ilha alada &lt;br /&gt;e não trocar por nada &lt;br /&gt;o que me deste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feno das horas vai crescendo &lt;br /&gt;vão caindo pedras no porão do tempo &lt;br /&gt;que já não é a teia do remorso &lt;br /&gt;a ilha onde pernoita em tua mão &lt;br /&gt;o pássaro de sono desta angústia &lt;br /&gt;da tua aurora e minha confusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(In «Diário de Lisboa», suplemento «Vida Literária», &lt;strong&gt;9/2/1961&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115927231977930761?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115927231977930761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115927231977930761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/o-dia-nasce.html' title='O DIA NASCE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115916923313475443</id><published>2006-09-25T00:24:00.000-07:00</published><updated>2006-09-25T00:27:13.146-07:00</updated><title type='text'>ALMA DAS COISAS</title><content type='html'>&lt;em&gt;59-09-25-on&gt; versos publicados em «o nariz», páginas 7, 8, 9, 10, 11 e 12 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O FUMO DAS CIDADES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;25/9/59&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;«J' écris ton nom»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Éluard&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fumo das cidades desenha o teu nome &lt;br /&gt;as crianças decoram o teu nome &lt;br /&gt;os pobres semeiam na terra o teu nome. &lt;br /&gt;Nos teus ombros dormem os tristes e os desesperados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aperto as tuas mãos &lt;br /&gt;as tuas mãos me guiam &lt;br /&gt;ouço nos teus passos a certeza &lt;br /&gt;de não mais se abrir a terra &lt;br /&gt;ao fundo dos nossos passos. &lt;br /&gt;Dou-te uma afeição sem dúvidas &lt;br /&gt;sem laços sem pretextos&lt;br /&gt;uma gratuita afeição. &lt;br /&gt;Não falo de mim &lt;br /&gt;não me canso de esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu rosto anda por aqui&lt;br /&gt;um fantasma de passos brandos. &lt;br /&gt;Desenganado de procurar-te &lt;br /&gt;não estar contigo &lt;br /&gt;não estar &lt;br /&gt;tu sabes que é ainda &lt;br /&gt;estar presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo a descrever o teu corpo &lt;br /&gt;que é o teu espírito &lt;br /&gt;o compasso das gaivotas sobre as ondas &lt;br /&gt;o ritmo das crianças nos berços e baloiços &lt;br /&gt;os machados falando alto na floresta &lt;br /&gt;o amanhecer da terra e da distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A calma ondulação do teu olhar &lt;br /&gt;é a mudez de um verso &lt;br /&gt;é o tronco fabuloso &lt;br /&gt;de um grande corpo de mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou perguntar aos teus olhos o mistério &lt;br /&gt;e o que ouvir de conhecimento ou belo &lt;br /&gt;azul ou confusão anonimato ou ódio &lt;br /&gt;é teu é ainda teu é também teu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São teus os dentes das plantas &lt;br /&gt;os braços puros que se erguem da manhã &lt;br /&gt;as veias da árvore-lua tua irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei porque na tua solicitude &lt;br /&gt;só de espáduas feita se reconhece deus. &lt;br /&gt;Talvez porque participes &lt;br /&gt;da linguagem do vento &lt;br /&gt;do mar que te ilumina cara a cara&lt;br /&gt;do sol que carboniza frente a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teu olhar retém a alma &lt;br /&gt;de todas as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confio-te o meu nome verdadeiro &lt;br /&gt;o meu endereço certo &lt;br /&gt;hoje que apareceste &lt;br /&gt;unindo à minha noite de vigílias &lt;br /&gt;o teu dia de águias dormitando &lt;br /&gt;de rastejantes plantas raras &lt;br /&gt;de místicas roseiras actos e palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhámo-nos sem máscaras e sentimo-nos &lt;br /&gt;incapazes para escolher o sentido de nada &lt;br /&gt;que se guarda na falta de sentido de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o amor é que nunca chega tarde. &lt;br /&gt;Em forma de arma ele fulmina e queima &lt;br /&gt;em forma de asa impulsiona e arde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida hoje que apareceste &lt;br /&gt;surge só porque tu surgiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo a minha jura à noite que foi nossa &lt;br /&gt;à noite com tudo o que foi nosso&lt;br /&gt;e dentro de nós adormeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é por estar à espera &lt;br /&gt;que a morte virá mais cedo &lt;br /&gt;não é saber a morte à nossa espera &lt;br /&gt;o que me assusta. &lt;br /&gt;É antes saber que acordo de manhã &lt;br /&gt;junto dos teus movimentos puros &lt;br /&gt;de adolescente e saber&lt;br /&gt;que existias antes de mover &lt;br /&gt;os teus longos braços na manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leio no céu o teu nome &lt;br /&gt;por seres tu &lt;br /&gt;as nuvens sossegadas &lt;br /&gt;que vão escrevendo &lt;br /&gt;a história do infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia de manhã pelo rio&lt;br /&gt;apenas o nosso ar ensonado &lt;br /&gt;de príncipes perdidos no nevoeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das bocas e paredes vigilantes &lt;br /&gt;das horas já sem dentes &lt;br /&gt;de um rosto de animal morto de medo &lt;br /&gt;larvar indescritível proibido &lt;br /&gt;apenas me ficou o coração da terra &lt;br /&gt;e o nosso submisso batendo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde os olhos dos outros nada viram &lt;br /&gt;onde nada souberam do nosso segredo &lt;br /&gt;lá estávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arde a pira de sono ao nosso lado &lt;br /&gt;sobre a mesa de pinho &lt;br /&gt;só num quarto da memória &lt;br /&gt;a noite abençoando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde te escrevo&lt;br /&gt;falam de negócios.&lt;br /&gt;Eu falo &lt;br /&gt;escrevo para ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra tudo estaremos &lt;br /&gt;respirando o mesmo ar &lt;br /&gt;pela mesma boca&lt;br /&gt;para sempre.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115916923313475443?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115916923313475443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115916923313475443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/alma-das-coisas.html' title='ALMA DAS COISAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115891823220921190</id><published>2006-09-22T02:39:00.000-07:00</published><updated>2006-09-22T02:43:52.220-07:00</updated><title type='text'>A HISTÓRIA</title><content type='html'>63-09-22-vs-vc&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[APÓCRIFO DE FERNANDO PESSOA] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Última versão abreviadíssima) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com as acções mais simples &lt;br /&gt;Com as palavras mais puras&lt;br /&gt;Com a dor mais discreta&lt;br /&gt;Com as mais humanas hesitações &lt;br /&gt;E dúvidas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história é dos que a fazem &lt;br /&gt;Em silêncio&lt;br /&gt;Com a voz calada das mordaças&lt;br /&gt;Com o corpo ferido das torturas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às escondidas primeiro&lt;br /&gt;À luz do sol depois&lt;br /&gt;E antes da luz da liberdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história é dos que a escrevem&lt;br /&gt;Com as mãos tolhidas das algemas&lt;br /&gt;Com o pão negro das humilhações&lt;br /&gt;Com os dedos frios das prisões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história é dos vencidos de ontem&lt;br /&gt;É dos vencidos de hoje&lt;br /&gt;é dos vencidos de amanhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para que nunca mais haja vencedores&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-09-22-VA&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;22/Setembro/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com as acções mais simples&lt;br /&gt;com as palavras mais puras&lt;br /&gt;com a dor mais discreta&lt;br /&gt;com as mais humanas hesitações &lt;br /&gt;e dúvidas&lt;br /&gt;a história é dos que a fazem&lt;br /&gt;em silêncio&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-09-22-VA&gt; - versos inéditos de 1963 – revisão em 2001-12-03 – o livro do desassossego (continuação&lt;/em&gt;) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A HISTÓRIA É DOS QUE A FAZEM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;22/Setembro/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a história é dos que a fazem com as acções mais simples com a dor mais discreta e pura com as hesitações e dúvidas humanas hesitações e dúvidas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a história é dos que a escrevem para serem lidos e amados e compreendidos às escondidas primeiro e talvez à luz do sol e da liberdade depois&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a história é das vozes sem voz dos que sempre perderam mas ganharam o direito a não haver vencido e vencedor &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a história por enquanto é dos vencidos&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115891823220921190?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115891823220921190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115891823220921190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/histria.html' title='A HISTÓRIA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115883182751803590</id><published>2006-09-21T02:41:00.000-07:00</published><updated>2006-09-21T02:46:24.273-07:00</updated><title type='text'>APÓCRIFO</title><content type='html'>&lt;em&gt;63-09-21-vs&gt;6400 bytes -apocrifo&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APÓCRIFO DE FERNANDO PESSOA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;21/9/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a esposa pela trela e os filhos baptizados pela mão&lt;br /&gt;fins de semana e wolkswagen&lt;br /&gt;e casa de campo &lt;br /&gt;no Verão&lt;br /&gt;o registo criminal imaculado&lt;br /&gt;intransigentemente qualquer-coisa&lt;br /&gt;abertos aos quatro ventos do progresso &lt;br /&gt;velhos e portanto felizes&lt;br /&gt;no aconchego do lar&lt;br /&gt;mas intransigentemente socialistas&lt;br /&gt;hei-de vê-los&lt;br /&gt;aos eleitos de deus&lt;br /&gt;assistirei ao seu casamento&lt;br /&gt;ao seu embarque&lt;br /&gt;aos seus enterros&lt;br /&gt;metodicamente dispostos como na vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois&lt;br /&gt;cansado da Luz ouvirei a Música das esferas&lt;br /&gt;recolho a este quarto de Solteiro&lt;br /&gt;onde escondo e escrevo a minha vida&lt;br /&gt;e prometo que hei-de saber&lt;br /&gt;matar-me o tempo&lt;br /&gt;o que - reconheço - leva seu tempo, e já vai sendo mesmo tarde&lt;br /&gt;mesmo muito tarde&lt;br /&gt;e os meus filhos estão impacientes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hei-de vê-los aos filhos dos meus filhos&lt;br /&gt;e esconder-me porque a vergonha &lt;br /&gt;é inteiramente minha&lt;br /&gt;certo de que direi quase tudo&lt;br /&gt;com o meu silêncio&lt;br /&gt;quase certo do meu dia de chuva&lt;br /&gt;do meu pobre e estranho e covarde ardil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Altruístas ou apenas democratas&lt;br /&gt;eles sofrem pelos outros&lt;br /&gt;não lhes faltam poemas aos humildes&lt;br /&gt;romances contando a odisseia das classes&lt;br /&gt;contra as classes&lt;br /&gt;o trabalho forçado&lt;br /&gt;os monstros devoradores das cidades&lt;br /&gt;nem faltam odes - que são a arte de odiar&lt;br /&gt;ao alcance das grandes tiragens -&lt;br /&gt;e não faltam hossanas ao trabalhador&lt;br /&gt;falam alto de poesia e acordam os mortos&lt;br /&gt;estremunhados nos túmulos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em vez de buracos eu abrisse&lt;br /&gt;nas escondidas covas&lt;br /&gt;uma fraterna cratera&lt;br /&gt;era bom que eu pudesse ser bom&lt;br /&gt;e tanto quanto possível sociável&lt;br /&gt;dizer que sim a tudo e se tudo corresse a jeito&lt;br /&gt;certo e a horas certas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eles receiam-me e têm razão&lt;br /&gt;a minha solidão é das piores que há &lt;br /&gt;agressiva e galopante não perdoa&lt;br /&gt;é a felicidade objectiva dos leninistas vista do avesso&lt;br /&gt;uma bomba de bairro periférico de São João&lt;br /&gt;que está ali mas ainda não explodiu e nunca se sabe&lt;br /&gt;se vai explodir&lt;br /&gt;é um acesso às estrelas do Pólo Norte&lt;br /&gt;com passagem por Setúbal&lt;br /&gt;um murro directo no baixo ventre e a sua obsessiva&lt;br /&gt;crueldade de existir é o reverso&lt;br /&gt;da humaníssima visão deles das coisas&lt;br /&gt;porque eu não sou humanista nem confio no Mundo&lt;br /&gt;e mesmo com desconto conto todos os trocos que me dão&lt;br /&gt;e da História Universal do Matoso &lt;br /&gt;faço os usos mais irregulares quiçá mesmo obscenos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As relações entre os vivos &lt;br /&gt;resumem-se a um estado mais ou menos agravado&lt;br /&gt;mais ou menos crónico&lt;br /&gt;das suas recíprocas doenças&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ser social é ser doente&lt;br /&gt;e não poder ser doente &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim e em minha defesa tenho as células a desintegrar-se&lt;br /&gt;que oiço e vejo&lt;br /&gt;e a solidão - grande castelo feudal no Rio de Janeiro -&lt;br /&gt;o grande sono reparador e justo&lt;br /&gt;e a morte&lt;br /&gt;tenho comigo a Morte&lt;br /&gt;esta morte lenta &lt;br /&gt;de um corpo feito de milhões de células&lt;br /&gt;uma a uma a desfazer-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me falam de Primavera&lt;br /&gt;ou da ternura com que a Natureza de facto envolve as coisas&lt;br /&gt;e as coisas se deixam envolver e possuir pela Primavera&lt;br /&gt;é um facto admito e talvez vocês tenham razão&lt;br /&gt;mas onde há - onde meu Deus? - palavras que digam&lt;br /&gt;ou apenas toquem a ilusão cor-de-rosa&lt;br /&gt;que as pessoas têm de tudo isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim tenho as insónias&lt;br /&gt;em que o retirar das tropas interiores&lt;br /&gt;se ouve e sente mais alto&lt;br /&gt;com o ranger das botas na gravília (???) &lt;br /&gt;porque está tudo em silêncio na alta madrugada e ouve-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes os atropelos surgem do lado esquerdo&lt;br /&gt;às vezes a Luz que se acende e apaga debaixo da Terra&lt;br /&gt;às vezes o rosto meteórico de uma estrela&lt;br /&gt;quando supuz que era o sonho&lt;br /&gt;e ainda não era o Sono&lt;br /&gt;tudo faz assembleia geral nesta república minha pessoal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho por mim as lágrimas ou o esquecimento&lt;br /&gt;a Luz que dos olhos se vai apagando&lt;br /&gt;a Noite que cerrará todas as portas&lt;br /&gt;a morte que abrirá todas as portas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho por mim a Morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser doente incurável &lt;br /&gt;acho que é bastante&lt;br /&gt;e que já cumpri o meu dever cívico&lt;br /&gt;à tona dos barcos a caminho do Barreiro&lt;br /&gt;em dias mesmo de tempestade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles falam de um homem novo&lt;br /&gt;que há-de nascer de um parto marxista-leninista&lt;br /&gt;eu visto o fato velho que tenho&lt;br /&gt;e sinto-me nascer ao contrário &lt;br /&gt;para o lado da Morte&lt;br /&gt;que é - segundo os livros sagrados -  &lt;br /&gt;a parte verdadeira da Vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Injectaram-me às primeiras horas da manhã&lt;br /&gt;e sinto que lhes estou profundamente reconhecido&lt;br /&gt;por esta rápida viagem ao desconhecido &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois lentamente começo a adormecer&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115883182751803590?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115883182751803590/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115883182751803590' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115883182751803590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115883182751803590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/apcrifo.html' title='APÓCRIFO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115875181583416355</id><published>2006-09-20T04:27:00.000-07:00</published><updated>2006-09-20T04:30:15.856-07:00</updated><title type='text'>AGULHA PERDIDA</title><content type='html'>&lt;em&gt;63-09-20-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;20/9/1963 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÃO NOSSO DE TODOS OS DIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pão proibido&lt;br /&gt;pão política de um morto&lt;br /&gt;pão chato&lt;br /&gt;pão eucarístico do senhor&lt;br /&gt;pão ditador&lt;br /&gt;pão dia-de-todos-os-santos&lt;br /&gt;pão dos sustos&lt;br /&gt;pão sangue dos puros&lt;br /&gt;pão intra-muros&lt;br /&gt;pão pátria de bolor&lt;br /&gt;pão dor&lt;br /&gt;pão pim-pam-pum&lt;br /&gt;pão comum&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-09-20-vs&gt; versos inéditos de afonso cautela – revisão em 2001-12-07 - 2944 bytes setº-20&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA  AGULHA PERDIDA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja,&lt;strong&gt; 20/9/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas vezes as tuas mãos&lt;br /&gt;duas vezes as horas&lt;br /&gt;repetidas até à exaustão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exilado da vida tantas vezes&lt;br /&gt;de que chora o tempo&lt;br /&gt;de que vive e se alimenta&lt;br /&gt;de que lágrimas se ocupa&lt;br /&gt;de que fome &lt;br /&gt;e de que circunstâncias?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na circunstância vivo&lt;br /&gt;na circunstância falo e espero&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me responde ou escuta&lt;br /&gt;quem me nomeia&lt;br /&gt;neste exílio concreto de veludo&lt;br /&gt;de passos na sombra &lt;br /&gt;de sombras na penumbra&lt;br /&gt;de penumbras na alfombra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma agulha perdida&lt;br /&gt;Um resto de esperança&lt;br /&gt;Um istmo de esperança &lt;br /&gt;agarrando-se à vida&lt;br /&gt;como aquela criança&lt;br /&gt;que se julga esquecida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto mergulhado em bruma&lt;br /&gt;uma caravela que espelha a solidão&lt;br /&gt;e fala&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ramos de sombra&lt;br /&gt;ramos de água da sombra que nos vela&lt;br /&gt;que arestas de bruma&lt;br /&gt;que nos cega&lt;br /&gt;que alva morte&lt;br /&gt;alva montanha de morte&lt;br /&gt;te espera&lt;br /&gt;que flor de sangue&lt;br /&gt;se abriu e nega&lt;br /&gt;a quem a colhe?&lt;br /&gt;Que nuvem ou música&lt;br /&gt;que espanto de existir&lt;br /&gt;que sombra de nos vermos&lt;br /&gt;que música de ouvirmos&lt;br /&gt;nos revela? &lt;br /&gt;Que tombo&lt;br /&gt;que agonia&lt;br /&gt;a fechar-nos lentamente?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palavras que eu uso moderadas&lt;br /&gt;ao ritmo que aprendi e esqueço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lágrimas passadas&lt;br /&gt;versos absurdos&lt;br /&gt;infinitamente recomeçados&lt;br /&gt;mãos&lt;br /&gt;são testemunhas vivas&lt;br /&gt;que uma enxada encontrou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esquecer &lt;br /&gt;se fosse fácil esquecer&lt;br /&gt;explicar onde estamos e porquê&lt;br /&gt;esquecer&lt;br /&gt;perder a pista do regresso &lt;br /&gt;e começar de novo&lt;br /&gt;e de cansaço adormecer&lt;br /&gt;para sempre &lt;br /&gt;recomeçar&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115875181583416355?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115875181583416355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115875181583416355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/agulha-perdida.html' title='AGULHA PERDIDA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115831268340846563</id><published>2006-09-15T02:22:00.000-07:00</published><updated>2006-09-15T02:31:23.426-07:00</updated><title type='text'>FORMAS DO MUNDO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-2 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO TÊM PESO AS PALAVRAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira/Tavira,&lt;strong&gt; 15/9/1960&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não têm peso as palavras&lt;br /&gt;nos teus lábios&lt;br /&gt;não sei onde ouvi a tua voz&lt;br /&gt;talvez dentro de mim&lt;br /&gt;talvez na minha voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são as formas do mundo&lt;br /&gt;ásperas corroídas&lt;br /&gt;nem o seu fundo mais fundo &lt;br /&gt;de tristeza&lt;br /&gt;não são as tuas cores&lt;br /&gt;cores definidas&lt;br /&gt;ou que a natureza reproduz&lt;br /&gt;de deus ou do inferno as inventaste&lt;br /&gt;e são apenas Luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há naves sulcando o intérmino corredor&lt;br /&gt;há aves agoirando o amor&lt;br /&gt;mas permaneces tu dando um sentido&lt;br /&gt;segues contornando as faces&lt;br /&gt;amaciando os ângulos&lt;br /&gt;dando às plantas um perfume menos ácido&lt;br /&gt;apareces ignorante da penumbra&lt;br /&gt;abrindo com gestos o sol&lt;br /&gt;és tu apenas movimento&lt;br /&gt;no teu espaço de luz&lt;br /&gt;no teu chão que se pode beijar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és tu apenas movimento&lt;br /&gt;a ponte de silêncio&lt;br /&gt;o sal do instinto&lt;br /&gt;o bem e o mal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pétalas líquidas&lt;br /&gt;lágrimas de neve sobre a terra&lt;br /&gt;tão poucas as palavras verdadeiras&lt;br /&gt;tão belos os teus olhos&lt;br /&gt;tão cegas e minazes as toupeiras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é certo que partiste&lt;br /&gt;hei-de perder de certo os teus contornos&lt;br /&gt;hei-de esquecer os traços do teu rosto&lt;br /&gt;hei-de esmagar nos dedos o gelo da distância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maiores vão ser os dias onde caiba&lt;br /&gt;teu rosto claro de deus ou de criança.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;eenergia&gt; jogos do idioma - quadros didácticos para pendurar na parede -  fichas de ecologia humana - 877 caracteres -eenergia&gt; grelhas&gt; inventar&gt; ficcoes&gt; texto aberto&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O QUE É QUE ESTÁ ERRADO NESTA LISTA?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arcos, &lt;strong&gt;15/9/1991 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A (velocidade) da luz é energia&lt;br /&gt;A amizade é energia&lt;br /&gt;A arte é energia&lt;br /&gt;A árvore é energia&lt;br /&gt;A entropia é energia&lt;br /&gt;A esperança é energia&lt;br /&gt;A gravidade é energia&lt;br /&gt;A poluição é energia&lt;br /&gt;A rádio é energia&lt;br /&gt;A revolução é energia&lt;br /&gt;A ternura é energia&lt;br /&gt;A via láctea é energia&lt;br /&gt;A vida é energia&lt;br /&gt;A voz é energia&lt;br /&gt;As teorias sobre a energia são energia&lt;br /&gt;Deus é energia&lt;br /&gt;Einstein é energia&lt;br /&gt;Hawking é energia&lt;br /&gt;O biogás é energia&lt;br /&gt;O céu é energia&lt;br /&gt;O entusiasmo é energia&lt;br /&gt;O espaço é energia&lt;br /&gt;O mar é energia&lt;br /&gt;O medo é energia&lt;br /&gt;O nada é energia&lt;br /&gt;O pássaro em cima da árvore é energia&lt;br /&gt;O pensamento é energia&lt;br /&gt;O ruído é energia&lt;br /&gt;O ser humano é energia&lt;br /&gt;O sexo é energia&lt;br /&gt;O sistema solar é energia&lt;br /&gt;O sol é energia&lt;br /&gt;O stress é energia&lt;br /&gt;O tempo é energia&lt;br /&gt;O universo é energia&lt;br /&gt;Os planetas são energia&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;60-09-15-vs&gt; 2432 bytes setº-15&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOLHEANDO OS DIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo/Tavira, &lt;strong&gt;15/9/1960&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não têm peso as palavras&lt;br /&gt;nos teus lábios&lt;br /&gt;não sei onde ouvi a tua voz&lt;br /&gt;talvez dentro de mim&lt;br /&gt;talvez na minha voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são as formas do mundo&lt;br /&gt;ásperas corroídas&lt;br /&gt;nem o seu fundo mais fundo &lt;br /&gt;de tristeza&lt;br /&gt;não são as tuas cores&lt;br /&gt;cores definidas&lt;br /&gt;ou que a natureza reproduz&lt;br /&gt;de deus ou do inferno as inventaste&lt;br /&gt;e são apenas Luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há naves sulcando o intérmino corredor&lt;br /&gt;há aves agoirando o amor&lt;br /&gt;mas permaneces tu dando um sentido&lt;br /&gt;segues contornando as faces&lt;br /&gt;amaciando os ângulos&lt;br /&gt;dando às plantas um perfume menos ácido&lt;br /&gt;apareces ignorante da penumbra&lt;br /&gt;abrindo com gestos o sol&lt;br /&gt;és tu apenas movimento&lt;br /&gt;no teu espaço de luz&lt;br /&gt;no teu chão que se pode beijar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;és tu apenas movimento&lt;br /&gt;a ponte de silêncio&lt;br /&gt;o sal do instinto&lt;br /&gt;o bem e o mal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pétalas líquidas&lt;br /&gt;lágrimas de neve sobre a terra&lt;br /&gt;tão poucas as palavras verdadeiras&lt;br /&gt;tão belos os teus olhos&lt;br /&gt;tão cegas e minazes as toupeiras&lt;br /&gt;Se é certo que partiste&lt;br /&gt;hei-de perder de certo os teus contornos&lt;br /&gt;hei-de esquecer os traços do teu rosto&lt;br /&gt;hei-de esmagar nos dedos o gelo da distância&lt;br /&gt;Maiores vão ser os dias onde caiba&lt;br /&gt;teu rosto claro de deus ou de criança&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;60-09-15-va&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira, &lt;strong&gt;15/Setembro/1960&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são as formas do mundo&lt;br /&gt;ásperas corroídas&lt;br /&gt;nem o seu fundo mais fundo&lt;br /&gt;de tristeza&lt;br /&gt;não são as tuas cores&lt;br /&gt;cores definidas&lt;br /&gt;ou que a natureza reproduz&lt;br /&gt;de deus ou do inferno as inventaste&lt;br /&gt;e são apenas luz&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;60-09-15-vs&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO SEI ONDE OUVI A TUA VOZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, &lt;strong&gt;15/9/1960&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei onde ouvi a tua voz&lt;br /&gt;talvez dentro de mim&lt;br /&gt;talvez na minha voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são as formas do mundo&lt;br /&gt;ásperas corroídas&lt;br /&gt;nem o seu fundo mais fundo&lt;br /&gt;de tristeza&lt;br /&gt;não são as tuas cores&lt;br /&gt;cores definidas&lt;br /&gt;ou que a natureza reproduz&lt;br /&gt;de deus ou do inferno as inventaste&lt;br /&gt;e são apenas luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apareces ignorante na penumbra &lt;br /&gt;abrindo com gestos o sol&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;És movimento&lt;br /&gt;apenas movimento&lt;br /&gt;a ponte do silêncio&lt;br /&gt;o sal do instinto&lt;br /&gt;o bem e o mal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão raras as palavras verdadeiras&lt;br /&gt;tão belos os teus olhos&lt;br /&gt;tão cegas e minazes as toupeiras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é certo que partiste &lt;br /&gt;hei-de perder de certo os teus contornos&lt;br /&gt;esquecer os traços do teu rosto&lt;br /&gt;esmagar nos dedos o gelo da distância&lt;br /&gt;maiores vão ser os dias onde caibam&lt;br /&gt;teus gestos calmos &lt;br /&gt;de deus ou de criança.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;7767 caracteres vozes-13&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;Janeiro de 1957&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DISCURSO DE UM VENCIDO (= DESPEITADO) A TODOS OS VENCEDORES, DE ONTEM, HOJE E AMNHÃ, DE AQUÉM E ALÉM MAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, os argonautas&lt;br /&gt;a vós, os exploradores do Antárctico, da Estratosfera e do Átomo&lt;br /&gt;a vós, os descobridores dos caminhos marítimos&lt;br /&gt;a vós, os donos, os prósperos, salutares donos, do Mundo, donos da Vida, donos das fábricas, de pontes, de hotéis, de esplanadas&lt;br /&gt;a vós, os conquistadores, do México, da Índia, do Peru, da Moçarábia, do Tibete, da Palestina, de Timor Leste&lt;br /&gt;a vós, conquistadores de mulheres, conquistadores do Céu e dos Mares&lt;br /&gt;a vós, os que sois Luz&lt;br /&gt;a vós, os Iluminados&lt;br /&gt;a vós, os Heróis, do Dia, da História, dos Romances, heróis da Rua, do Pedal, do Volante&lt;br /&gt;a vós, heróis do mar&lt;br /&gt;a vós, os possuidores de tantos milhares de quilómetros de propriedade horizontal&lt;br /&gt;a vós, os legisladores, os de cima, os da honra, os do bem, os do uso próprio&lt;br /&gt;a vós, os fornecedores, os úteis, os inspirados, os imprescindíveis, os intocáveis&lt;br /&gt;a vós, os magos&lt;br /&gt;a vós, os santos, os puros, os deuses de aquém e além Olimpo, de «aquém e além Dor» ( Florbela Espanca dixit)&lt;br /&gt;a vós, os precursores reconhecidos como precursores, profetas e premonitórios &lt;br /&gt;a vós, os irmãos dos precursores, os vindos depois dos precursores&lt;br /&gt;a vós, os inventores de cometas, mitos a atrocidades&lt;br /&gt;a vós, os premiados, os eleitos e elegidos, os crentes e poderosos&lt;br /&gt;a vós, os bons, os mansos, os justos, os do Evangelho, os de boa fé, os de boa fama, os de boa honra, os de boa marca&lt;br /&gt;a vós, os domadores de feras, da fúria, dos oceanos, capitães, generais, chefes, chefes de bandos, de bandas, de exércitos, homens de posição&lt;br /&gt;a vós, os delegados e directores gerais dos deuses, os lugares-tenentes dos deuses, os impedidos dos deuses&lt;br /&gt;a vós, os que me não canso de admirar, até ao impudor, até ao êxtase, até ao desvairamento e à cegueira, ao instinto e á raiva&lt;br /&gt;a vós, os descobridores de jazigos, filões, poços&lt;br /&gt;a vós, os senhores do êxito, da Fama, do Sucesso, do Dinheiro, do Amor, do Fausto, das luzes&lt;br /&gt;a vós, senhores de mim, gata borralheira, servo, mendigo, leproso, imundo cão de guarda dos vossos palácios, esterco dos vossos jardins&lt;br /&gt;a vós, os reis, príncipes, duques, barões, os de sangue nobre, os de raça, timbre, estirpe e anel com brazão, elevador, electricidade e gaz canalisado&lt;br /&gt;a vós, os emigradores&lt;br /&gt;a vós, os novelistas, os plásticos, os triunfadores das bienais, da ciência, dos circos de Roma, das Olimpíadas internacionais&lt;br /&gt;a vós, os dos focos em incidência perene, os presidentes, os das aberturas, os das fechaduras, os das inaugurações, os dos iates, os dos camelos no deserto, os dos estupefacientes inimagináveis, os que não sofreis torturando vítimas até à morte&lt;br /&gt;a vós, os depositários do ideal, dos segredos de Estado das religiões de Estado e das religiões de Igreja, das chaves quando quero entrar em casa e me esqueci delas lá dentro&lt;br /&gt;a vós, os intima, orgulhosa, abarcadoramente poderosos, subtis, sem retrocesso e sem erro, a quem só resta apenas engrossar a bola de neve, mais e mais e mais&lt;br /&gt;a vós, os com ascendência e descendência, antepassados, primos Albuquerques, Gamas, Aguiares &amp; Maias e Cabrais&lt;br /&gt;a vós, os de um só rosto e uma só fé&lt;br /&gt;a vós, os que de tão ilustres embaciais a Luz&lt;br /&gt;a vós, os legadores e ususpadores de heranças, competidores sem rival à altura, batoteiros de cada lance a mil contos (em 1957 eu escrevi 100 contos)&lt;br /&gt;a vós, os não ignorantes nem ignorados, com nome, fotografia e discurso nos jornais&lt;br /&gt;a vós, os felizes por constituição, hereditariedade e vício&lt;br /&gt;a vós, os que vos servis de todos os benefícios da civilização deitando os malefícios pela janela da carruagem, sem que pegue fogo ao restolho seco e sem fim e para sempre ceifado&lt;br /&gt;a vós, os titulares, os onorariamente dispendiosos&lt;br /&gt;a vós, os do botão dos cataclismos siderais, os do impossível, os das escaladas, os mortos na honra e na luta e na glória e na celebridade &lt;br /&gt;a vós, os poetas não retóricos, não pletóricos nem platónicos&lt;br /&gt;a vós, os algozes, os capatazes&lt;br /&gt;a vós, os prestidigitadores, de qualquer modo solenes, de qualquer maneira capazes, sensíveis e argutos&lt;br /&gt;a vós, os que gozam, os que exploram, os que produzem, os que consomem, os que não guincham, os que usam, os que abusam, os da caridade de tabernáculo, os que sentem em dia as digestões, a lei da consciência e da coincidência dos astros obtêm frutos sazonados num Verão que prometem, encomendam e recebem a domicílio&lt;br /&gt;a vós, os capazes, os realizadores, os dinâmicos, os de uma compleição hercúlea de ponte entre Nova Iorque e Brooklin&lt;br /&gt;a vós, os náufragos salvos pelo navio de carreira, os calculadores, os calculistas, os mediadores de esperanças a domicílio, os medianeiros do Céu, os dos metropolitanos das grandes capitais do Mundo&lt;br /&gt;a vós, os abnegados, os salva-vidas, os imutáveis, os consoladores dos aflitos porque deles será o reino dos céus, os Lázaros, os do princípio, os de antes de antes de antes do princípio&lt;br /&gt;a vós, os praticantes de ski nas montanhas da Suiça, os sultões, os ditadores de Estado, da Moda, da Lei e de trazer por casa&lt;br /&gt;a vós, os audazes, os Édipo, os Camões, os Marco Polo, os nomes da História, nomes de texto, nomes dos livros, nomes das montras, nomes dos cartazes, nomes, bons nomes, nomes que custam fortunas, nomes das ruas e das praças, nomes de mármore com colunas&lt;br /&gt;a vós, os que sois a explicação plausível do Movimento&lt;br /&gt;a vós, os comandantes de dinastias, os violadores de virgens impunes, os iniciadores de mágicas negras&lt;br /&gt;a vós, os que odiais e porque odiais sois mais que homens, na morte lenta entre as formas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a vós, os que venero sem dissimulação, entre quatro paredes, à espreita, apático, espionando a selva, não sublime, menos que artista e quase tanto como Verme&lt;br /&gt;a vós, os que sois e mais do que sois vos vejo, mitificados no halo da Imortalidade&lt;br /&gt;é a vós que estudo e informo&lt;br /&gt;é por vós que atravesso os meus corredores de insónia, os meus pesadelos&lt;br /&gt;é a vós que endereço os meus mais lúcidos pensamentos, sem absoluto, sem absinto, mas vigorosos como ao começar do princípio&lt;br /&gt;a vós, os de nenhuma anormalidade, os não, nunca, jamais paralíticos, os não, nunca, jamais assimétricos, os não, nunca, jamais artríticos, os não, nunca, jamais perversos e pervertidos, nem segregados, nem assinalados, nem almejados, nem de má-sorte, má-vida, mau-humor, má-fama, má-fortuna&lt;br /&gt;a vós, os mortos com sepultura, os com sepultura arquitectónica bastante acima da média, os mortos imortais, os mortos das academias, os mortos das escolas, os mortos dos cemitérios&lt;br /&gt;a vós, os de farda, os de uniforme, os distintos e distinguidos&lt;br /&gt;a vós, os não torpes, os sempre verticais, os sempre vivos, sempre fixes, sempre em pé&lt;br /&gt;a vós, os audaciosos, os caracteres impolutos, os capitães da raça&lt;br /&gt;a vós, os executores, os juizes, os mártires, os célebres, os críticos de poesia, os industriais, os nunca algemados, os nunca submissos, os nunca altru-ístas, os nunca sacrificados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, o alvoroço das primeiras horas da manhã&lt;br /&gt;a vós, os direitos do cidadão, as faixas de rodagem, a segurança nos caminhoa de ferro, a sinalização aérea&lt;br /&gt;a vós, a morte medicamentada&lt;br /&gt;a vós, os soros, a indústria, os cabeçalhos dos jornais &lt;br /&gt;a vós, as calamidades telúricas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vós, quero prestar tributo do meu desejo: morar sempre por baixo, no rés-do-chão, ser recinto de escarros e ofensas e humilhações, centro de gravidade de todos os pontapés, não claudicar nunca no heroísmo, nem na perfeição, não usar perfumes, nem ideais, nem me distinguir em nada, ser raso, igual, substantivo comum, não ter nome, nem exigências, nem ambições, nem programa, nem responsabilidades, nem diplomas, nem nenhuma espécie de importância, nem dinheiro, nem necessidade de dinheiro, nem nada&lt;br /&gt;Não pertencer nunca à dinastia dos vencedores&lt;br /&gt;+&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115831268340846563?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115831268340846563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115831268340846563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/formas-do-mundo.html' title='FORMAS DO MUNDO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115814529389863896</id><published>2006-09-13T04:00:00.000-07:00</published><updated>2006-09-13T04:01:33.913-07:00</updated><title type='text'>AINDA QUE</title><content type='html'>&lt;em&gt;57-09-13-VA&gt; - versos seleccionados&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TÊM OS OSSOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;13/Setembro/57&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Têm os ossos, os dentes (os que não doem, os outros ficam, a doer), a paciência, a honra, na rua, a fingir dignidade - têm tudo isso. Cilindrem.&lt;br /&gt;Não falo no plural, resigno-me ao singular. Vão. Autoclismem o que resta. Eu fico, nunca viajei por mar e é possível que nauseie e incomode os passageiros. Vão. Vão e boa viagem. Deixem o cilindro. Cilindrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi numa rua onde os carros andam só para cima (ou só para baixo?). 0 carro levou para a oficina uma pequena amolgadura. Muitas pessoas que viram. Um carro, um desastre, uma notícia, um morto. Mais de mil leram a noticia. Uma notícia de jornal é para mais de mil lerem. Um só é que morreu. O carro foi para o hospital-oficina, o morto para o cemitério. Mas muitos leram a notícia. &lt;br /&gt;Como irá isto ser quando houver mais de mil mortos para um só leitor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na diluição das cores, na ausência de verdes, nos plúmbeos esbatidos é que vemos quantos pintores fracassados pelas paredes dessas igrejas: Assim como nós, poetas fracassados, quando um dia amarelecerem as folhas manuscritas...&lt;br /&gt;Ah! Não furem nunca os olhos de uma pintura de autor e século desconhecidos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em S. Pedro de Alcântara - Rémiges comandando o voo, quilha fendendo o ar, ágil planador, um pombo não simboliza nada. Um pombo é um pombo. Se alguém se lembra de trazer-lhe o almoço de milho alvo (um pombo detesta glícidos) quer é comer. Multiplica-se num bando. Enche o jardim. Enchem o papo. Voam direitinhos ao céu, outros bebericam no lago.&lt;br /&gt;Invejo-te, pombo branco que me olhas desse canteiro, o papo que se alimenta conforme Deus quer e as crianças se lembram de trazer um almoço de painço roubado lá da mercearia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta bola de terra com centro de gravidade que um escaravelho transporta, há quem deponha fé como o cigarro semi-ardido no cinzeiro. Pouco falta para chegar ao fim: o cigarro e a fé.&lt;br /&gt;Escaravelho ruge. Escaravelho dorme, cumpre, assina o ponto. Escaravelho sobe, escaravelho tem que descer. Escaravelho copula até idade provecta. Escaravelho morre, enterra-se, apodrece. Escaravelho acabou-se.&lt;br /&gt;E a bola de merda a girar no espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esmoreçam, há o que há. No fundo já mas que não finde: uma réstia de sol, sangue, raiva, esperma ou uma fibra de carne tenra. O que resta deixem-no secar. Respiram o ainda possível. Talvez crie bacilos e amanhã, em vez de um resto, uma sombra, um átomo, sejam milhares.&lt;br /&gt;Mas não o bebam ainda. Ainda que a sede vos doa e endoideça.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115814529389863896?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115814529389863896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115814529389863896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/ainda-que.html' title='AINDA QUE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115805426729148249</id><published>2006-09-12T02:41:00.000-07:00</published><updated>2006-09-12T02:44:27.300-07:00</updated><title type='text'>O VERBO É DEUS</title><content type='html'>&lt;em&gt;55-09-12-vp-em&gt; &lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INDEFINIÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro, &lt;strong&gt;12/9/1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os poetas cantam o mar&lt;br /&gt;cantam o número de ondas que há no mar&lt;br /&gt;perdem-se na conta e voltam atrás&lt;br /&gt;sempre aos primórdios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;porque no princípio era o Verbo&lt;br /&gt;e o Verbo são eles&lt;br /&gt;e o Verbo é Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(In «Espaço Mortal», pg.12)&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115805426729148249?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115805426729148249'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115805426729148249'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/o-verbo-deus.html' title='O VERBO É DEUS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115770890372868548</id><published>2006-09-08T02:35:00.000-07:00</published><updated>2006-09-08T02:49:03.243-07:00</updated><title type='text'>ZUMBIDO DE ASAS</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-13 -oeiras-1 – 2 &gt; 9566 caracteres – 13 páginas - &lt;poesiac&gt;&lt;diario55&gt; - versos inéditos (e alguns, poucos, publicados?)  de afonso cautela por ordem de datas de 1955 a 1970 - selecção muito expurgada provavelmente para concorrer ao prémio Cesário Verde – de onde o título do file &lt;oeiras&gt; - os originais na íntegra poderão ser procurados na sequência de files guardados – revisão em 2001-12-04 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FOLHEANDO OS DIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, 8/Setembro/1955&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um zumbido de asas ou de fera&lt;br /&gt;vai pousar num galho e denuncia&lt;br /&gt;na mudez geométrica das coisas&lt;br /&gt;que o tempo continua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia iluminado como um deus&lt;br /&gt;abrangendo a terra&lt;br /&gt;e dando espaço ao céu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bois na melancolia de pensarem&lt;br /&gt;o mistério de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moura, 21/Novembro/1955&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois rios que confluem para nenhum é fim&lt;br /&gt;ao mesmo braço único vão dar.&lt;br /&gt;Somos nós dois rios desiguais&lt;br /&gt;para o caminho único do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4/Julho/1956&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma gota de água limpa&lt;br /&gt;flores por abrir no vosso coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Évora, 19/Maio/1957&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh companheiro cavador&lt;br /&gt;onde o teu sulco se abre&lt;br /&gt;abrem-se as pétalas negras&lt;br /&gt;da tua e da minha dor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eh companheiro lenhador&lt;br /&gt;corta a árvore que não cresce&lt;br /&gt;cada um para o que nasce&lt;br /&gt;cada um pra sua dor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheira a mortos cavador&lt;br /&gt;cheira a mortos lenhador&lt;br /&gt;Eh companheiros da vida&lt;br /&gt;irmãos do mesmo suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira, 8/Julho/1958&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem sente prender-se&lt;br /&gt;um espinho de roseira&lt;br /&gt;sem olhar&lt;br /&gt;Vai&lt;br /&gt;noivo das espigas e das madrugadas&lt;br /&gt;vai espuma de prata e lume&lt;br /&gt;tens capacidade para alterar a morte&lt;br /&gt;e às lâminas o gume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, 19/Outubro/1959&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fio por fio a teia recompondo&lt;br /&gt;vamos da prisão que somos construindo o muro&lt;br /&gt;o poço onde descemos não tem ar nem fundo&lt;br /&gt;é o retrato em corpo inteiro do medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, 25/Outubro/1959&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[ao DFP]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um bocado de terra desta terra&lt;br /&gt;um bocado de luz da luz do dia&lt;br /&gt;um bocado de silêncio como a água&lt;br /&gt;de tranquilidade como a morte&lt;br /&gt;de cabelos brandos como a chuva&lt;br /&gt;de sol e céu azul como a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o silêncio da noite que vigia&lt;br /&gt;os pequenos rumores da madrugada&lt;br /&gt;é ele que escava lentamente o dia&lt;br /&gt;até ser tudo e nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira, 15/Setembro/1960&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são as formas do mundo&lt;br /&gt;ásperas corroídas&lt;br /&gt;nem o seu fundo mais fundo&lt;br /&gt;de tristeza&lt;br /&gt;não são as tuas cores&lt;br /&gt;cores definidas&lt;br /&gt;ou que a natureza reproduz&lt;br /&gt;de deus ou do inferno as inventaste&lt;br /&gt;e são apenas luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, 11/Julho/1961&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças brincam ao sol&lt;br /&gt;ou brincam com o sol?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que terrível paz&lt;br /&gt;a de uma cadeira dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8/Janeiro/1962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele menino vai atrás da sombra&lt;br /&gt;persegue-a&lt;br /&gt;a sombra vai atrás do menino&lt;br /&gt;persegue-o&lt;br /&gt;agora é ele que foge da sombra&lt;br /&gt;e a sombra corre&lt;br /&gt;e o menino corre&lt;br /&gt;e as casas correm&lt;br /&gt;ao lado do menino&lt;br /&gt;atrás da sombra&lt;br /&gt;atás do menino&lt;br /&gt;as ruas cercam-no&lt;br /&gt;o menino parou&lt;br /&gt;a sombra parou&lt;br /&gt;o tempo parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não admira que já conheça os passos &lt;br /&gt;dos dias que passam&lt;br /&gt;que já os conheça de os ver&lt;br /&gt;com um ar algemado e triste e cansado&lt;br /&gt;de quem trabalha&lt;br /&gt;não admira que saiba de cor&lt;br /&gt;o rosto das casas em frente&lt;br /&gt;e que ao fim da rua&lt;br /&gt;quando o sol se esquece de entrar&lt;br /&gt;haja uma flor cantando em surdina&lt;br /&gt;ou pedindo esmola&lt;br /&gt;é a rua&lt;br /&gt;sempre igual da nossa solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, 17/Janeiro/1962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a terra respira&lt;br /&gt;ouço-a respirar&lt;br /&gt;e quando uma árvore canta&lt;br /&gt;sei que nela podem estar ventos ou aves ou crianças&lt;br /&gt;Do convívio com a terra&lt;br /&gt;nascem lentas&lt;br /&gt;a gota de luz o verme a pedra&lt;br /&gt;a água a erva&lt;br /&gt;a esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, 14/Maio/1962&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vivo e relembro&lt;br /&gt;a vida&lt;br /&gt;as primeiras horas&lt;br /&gt;as manhãs&lt;br /&gt;relembro&lt;br /&gt;as mãos&lt;br /&gt;um harmonium tocando&lt;br /&gt;mãos nervosas&lt;br /&gt;um rosto&lt;br /&gt;um amargurado rosto &lt;br /&gt;de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí onde esperas um dia melhor que nunca vem&lt;br /&gt;onde sofres e cantas&lt;br /&gt;trabalhas e adoeces&lt;br /&gt;aí onde amas&lt;br /&gt;onde firmas no chão&lt;br /&gt;os teus dois pés seguros&lt;br /&gt;e onde as tuas mãos&lt;br /&gt;rasgam as formas duras da matéria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19/Julho/1963&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magoados de tanta angústia&lt;br /&gt;cercados de tanta solidão&lt;br /&gt;mortos por tantas armas e emboscadas&lt;br /&gt;traídos por tanta decepção&lt;br /&gt;vínhamos de lá&lt;br /&gt;da liberdade que nos deu à luz&lt;br /&gt;de lá&lt;br /&gt;da luz que a dor dos homens faz&lt;br /&gt;quando ilumina o mundo.&lt;br /&gt;[Viemos da luz&lt;br /&gt;que a dor dos homens faz&lt;br /&gt;desde que veio ao mundo]&lt;br /&gt;viemos de muito longe&lt;br /&gt;quentes ainda da primeira alvorada&lt;br /&gt;do primeiro beijo&lt;br /&gt;e a noite ou a morte nos encaminhou&lt;br /&gt;como se não soubéssemos de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, 22/Setembro/1963&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com as acções mais simples&lt;br /&gt;com as palavras mais puras&lt;br /&gt;com a dor mais discreta&lt;br /&gt;com as mais humanas hesitações &lt;br /&gt;e dúvidas&lt;br /&gt;a história é dos que a fazem&lt;br /&gt;em silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, 23/Agosto/1964&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distante como um desfiladeiro&lt;br /&gt;e perto como um eco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;breve também como a tipografia&lt;br /&gt;rápida como um curto-circuito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;igual à linguagem das folhas&lt;br /&gt;ou dos animais que apenas murmuram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nas minas ou nos mares &lt;br /&gt;ou nos horizontes curtos das cidades&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;trucidada por viaturas&lt;br /&gt;ou anelante e aérea pelas estradas do vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alheia aos que gozam e atenta aos que sofrem&lt;br /&gt;arrancada à dor como o oiro à terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;necessária e urgente como a vida&lt;br /&gt;inevitável como a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pesada e violenta como a doença&lt;br /&gt;mais veloz que o som e a luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em direcção ao mar&lt;br /&gt;em direcção ao amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;movida por claras forças naturais&lt;br /&gt;ou por forças ocultas mas também naturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;livre mas paciente&lt;br /&gt;livre mas obediente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em qualquer idioma&lt;br /&gt;até onde houver um homem e portanto sofrimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver um rosto e portanto uma ruga&lt;br /&gt;de dúvida ou revolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver sol e doença e remorso&lt;br /&gt;e a solidão fiel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sobre as águas ou entre matas cerradas&lt;br /&gt;em nome de um deus ou em nome dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é necessário que esta voz caminhe&lt;br /&gt;e encontre a tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o timbre ou água ou forja&lt;br /&gt;que a fará falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ser pura&lt;br /&gt;quer a ouçam ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enganar de quimeras tanta fome&lt;br /&gt;ou em vez de quimeras&lt;br /&gt;com algemas&lt;br /&gt;não é ainda crime&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casas de palha e lama&lt;br /&gt;estendidas como vermes&lt;br /&gt;na primeira primavera construídas&lt;br /&gt;no primeiro inverno destruídas&lt;br /&gt;não são ainda crime&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedra na consciência&lt;br /&gt;o medo que nos rói e arruina&lt;br /&gt;o corpo da inocência que se gasta&lt;br /&gt;não é ainda crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;2432 bytes -oeiras-2&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MONÓLOGO DO VAQUEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 23/Agosto/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distante como um desfiladeiro&lt;br /&gt;e perto como um eco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;breve também como a tipografia&lt;br /&gt;rápida como um curto-circuito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;igual à linguagem das folhas&lt;br /&gt;ou dos animais que apenas murmuram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nas minas ou nos mares&lt;br /&gt;ou nos horizontes curtos das cidades&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;trucidada por viaturas&lt;br /&gt;ou anelante e aérea pelas estradas do vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alheia aos que gozam e atenta aos que sofrem&lt;br /&gt;arrancada à dor como o oiro à terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;necessária e urgente como a vida&lt;br /&gt;inevitável como a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pesada e violenta como a doença&lt;br /&gt;mais veloz que o som e a luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em direcção ao mar&lt;br /&gt;em direcção ao amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;movida por claras forças naturais&lt;br /&gt;ou por forças ocultas mas também naturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;livre mas paciente&lt;br /&gt;livre mas obediente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em qualquer idioma&lt;br /&gt;até onde houver um homem e portanto sofrimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver um rosto e portanto uma ruga&lt;br /&gt;de dúvida ou revolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver sol e doença e remorso&lt;br /&gt;e a solidão fiel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sobre as águas ou entre matas cerradas&lt;br /&gt;em nome de um deus ou em nome dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é necessário que esta voz caminhe&lt;br /&gt;e encontre a tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o timbre ou água ou forja&lt;br /&gt;que a fará falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ser pura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quer a ouçam ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;23/Agosto/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longas horas &lt;br /&gt;que o silêncio traça&lt;br /&gt;em seu largo voo&lt;br /&gt;e longínqua voz&lt;br /&gt;Ele sabe de nós &lt;br /&gt;e da tristeza&lt;br /&gt;que cobre como a névoa&lt;br /&gt;que cobre como a chuva&lt;br /&gt;que cobre como a morte&lt;br /&gt;há tantos anos as ruas da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;1/Junho/1965&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas casas&lt;br /&gt;no silêncio das casas&lt;br /&gt;que cegaram com a idade&lt;br /&gt;e que um raio há séculos&lt;br /&gt;abriu de meio a meio&lt;br /&gt;os mortos&lt;br /&gt;ou a lembrança dos mortos&lt;br /&gt;desce pela escada principal&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 2/Dezembro/1966&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a sós no Verão&lt;br /&gt;és tu que dominas&lt;br /&gt;a tua pequena casa&lt;br /&gt;e quando falas&lt;br /&gt;longamente falas (anónimo)&lt;br /&gt;da tua pequena casa&lt;br /&gt;já te conhecem  no poente&lt;br /&gt;de lá passares todos os dias.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;18/Abril/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Água pela água&lt;br /&gt;ninguém viaja nela&lt;br /&gt;e parece que fala&lt;br /&gt;a água&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Do vale chegam &lt;br /&gt;vagas vozes&lt;br /&gt;que parecem velas de mar&lt;br /&gt;a perder de vista&lt;br /&gt;ouvidas de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;2/Setembro/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento&lt;br /&gt;em fogo ou em neve&lt;br /&gt;se transforma&lt;br /&gt;o peso da semente&lt;br /&gt;que fala de um país&lt;br /&gt;continental&lt;br /&gt;de uma fonte seca&lt;br /&gt;que fala a toda a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porto, &lt;strong&gt;18/Junho/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só quando se procura o sol&lt;br /&gt;e seu dialéctico contrário&lt;br /&gt;só quando se sabe quanto a monotonia cresta&lt;br /&gt;só quando ligada a nada&lt;br /&gt;só quando ligada a tudo&lt;br /&gt;a vida presta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paço de Arcos, &lt;strong&gt;12/Agosto/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sol se abriu&lt;br /&gt;a procurar o mundo&lt;br /&gt;encontrou quase a nascer&lt;br /&gt;o homem velho que não envelheceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paço de Arcos, &lt;strong&gt;16/Agosto/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser procurada&lt;br /&gt;nas letras e nas folhas&lt;br /&gt;que sobram da memória&lt;br /&gt;e nas fotografias&lt;br /&gt;que nem solenes nem alegres&lt;br /&gt;deixaram no fundo da gaveta&lt;br /&gt;Pode&lt;br /&gt;se fenecer a tempo&lt;br /&gt;a erva de que se alimenta&lt;br /&gt;arder em altares votivos&lt;br /&gt;ficar esperando deste &lt;br /&gt;ou do outro lado do rio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no intervalo da sesta&lt;br /&gt;quando o corpo ainda julga dormir&lt;br /&gt;quando a tarde aquece o asfalto&lt;br /&gt;e a vida parece existir&lt;br /&gt;sobre almofadas de algodão&lt;br /&gt;quando os ruídos temem despertar&lt;br /&gt;da sua madorra esse corpo feliz que dorme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;ODE A BARCELONA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;25/Outubro/1978&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o galo fresco da madrugada&lt;br /&gt;que acorda e se levanta&lt;br /&gt;e canta&lt;br /&gt;é a rosa agreste do meio-dia&lt;br /&gt;e a bruma do Nordeste&lt;br /&gt;o gosto a rosmaninho&lt;br /&gt;a cor de trevo que anuncia a noite&lt;br /&gt;é a preguiça de um relógio sem horas&lt;br /&gt;é a cama dos deuses&lt;br /&gt;no fundo de uma estrela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é a força protectora dos pinhais gigantes&lt;br /&gt;desafiando o mar defronte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;    &lt;br /&gt;Move-se aflito o sangue&lt;br /&gt;no tempo das colheitas&lt;br /&gt;ignorante aflito&lt;br /&gt;medra&lt;br /&gt;em cada silêncio&lt;br /&gt;em cada pedra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o silêncio começa&lt;br /&gt;a invadir-nos de tristeza&lt;br /&gt;e o bater cardíaco da terra&lt;br /&gt;se confunde no nosso&lt;br /&gt;Pode detectar-se nitidamente&lt;br /&gt;como se fosse um arco de voltagem máxima&lt;br /&gt;e um pórtico de entrada:&lt;br /&gt;a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As tuas mãos seguravam com força&lt;br /&gt;o pão do diabo&lt;br /&gt;como se guardassem os rigores do Inverno&lt;br /&gt;os ventos que fustigaram tantas mães&lt;br /&gt;a metralha que varreu vidas e manhãs&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperava por ti um povo&lt;br /&gt;e tu - sem o saber - eras o povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rio de ternura a tua voz&lt;br /&gt;dentro de mim correndo por correr&lt;br /&gt;és a nascente e corres sem saber&lt;br /&gt;que sou dentro de ti a tua foz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Constróis&lt;br /&gt;destróis&lt;br /&gt;levantas a máquina da esperança&lt;br /&gt;que importa o que vier&lt;br /&gt;e se viver&lt;br /&gt;é um hábito igual&lt;br /&gt;ao de chover&lt;br /&gt;que molha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos &lt;br /&gt;testemunhas vivas&lt;br /&gt;enxadas&lt;br /&gt;lágrimas absurdas&lt;br /&gt;água&lt;br /&gt;invenção sádica da sede&lt;br /&gt;sede&lt;br /&gt;invenção sádica da água&lt;br /&gt;enxada&lt;br /&gt;caravela dos oceanos&lt;br /&gt;pão&lt;br /&gt;antestreia sensacional da fome&lt;br /&gt;luz&lt;br /&gt;a linguagem universal dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite já caiu&lt;br /&gt;se a casa que não temos&lt;br /&gt;fosse o comboio do tempo&lt;br /&gt;que partiu&lt;br /&gt;Mas o sol descobria&lt;br /&gt;e quando há sol&lt;br /&gt;é um erro da natureza&lt;br /&gt;a poesia.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A CASSIANO RICARDO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;15/12/1970&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;está no meio do inverno e canta &lt;br /&gt;está no meio do mato &lt;br /&gt;como um grande senhor&lt;br /&gt;esse criminoso nato&lt;br /&gt;o beija-flor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela manhã os outros planetas&lt;br /&gt;olhavam a terra&lt;br /&gt;assustados de a ver florir&lt;br /&gt;assim em Janeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde não medra balido de animal&lt;br /&gt;onde não soa o viço de uma erva&lt;br /&gt;crescem estes braços de ramos e raízes&lt;br /&gt;cresce a memória amada dos que fui&lt;br /&gt;e em mim confundidos pereceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[glosa a walt whitman]&lt;br /&gt;é pelo alfabeto universal&lt;br /&gt;da universal humilhação&lt;br /&gt;que os homens comunicam&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;os rios correm para o mar&lt;br /&gt;e os homens para a liberdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Longo é o dorso do animal que dorme&lt;br /&gt;esse animal que dorme nos teus olhos.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115770890372868548?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115770890372868548/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115770890372868548' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115770890372868548'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115770890372868548'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/zumbido-de-asas.html' title='ZUMBIDO DE ASAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115727450709993554</id><published>2006-09-03T02:07:00.000-07:00</published><updated>2006-09-03T02:08:27.106-07:00</updated><title type='text'>REPÓRTER DE RUA</title><content type='html'>&lt;em&gt;68-09-05-VI-RR&gt;- repórter de rua&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A FURGONETA DO PATRÃO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 5/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Presos estão três rapazes&lt;br /&gt;por abuso à propriedade alheia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roubaram sem saber&lt;br /&gt;que fazer da furgoneta cheia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora no calabouço&lt;br /&gt;esperam as horas do dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três rapazes pouco espertos&lt;br /&gt;que abusaram da coisa alheia.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115727450709993554?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115727450709993554'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115727450709993554'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/reprter-de-rua.html' title='REPÓRTER DE RUA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115718549827170014</id><published>2006-09-02T01:20:00.000-07:00</published><updated>2006-09-02T01:24:58.283-07:00</updated><title type='text'>PESO NA CASA</title><content type='html'>&lt;em&gt;68-09-04-vi-pp&gt; poemas políticos &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FAZEM PESO NA CASA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 4/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazem peso na casa&lt;br /&gt;os mortos de Ankara&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estão dentro de nós&lt;br /&gt;os mortos sem casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não podem fugir-nos&lt;br /&gt;os milhões de mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estão dentro uns dos outros&lt;br /&gt;os montes de mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os mortos estão mortos&lt;br /&gt;e dentro de nós. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;68-09-04-vi-pp&gt; poemas políticos &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SETE VÍTIMAS DA FOME NA NIGÉRIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;4/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete vítimas da fome na Nigéria&lt;br /&gt;e nenhuma era o alvo da miséria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete rosários de manhã que vão à missa&lt;br /&gt;e nenhum ninguém se confessa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete pulgas  saltarem da cama &lt;br /&gt;e nenhuma é da nossa confiança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete aves com bico de avestruz&lt;br /&gt;e nenhuma das sete eras tu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete barcos de pesca no Tejo&lt;br /&gt;e só um dos sete trouxe peixe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sete novos rins em bom estado&lt;br /&gt;e nenhum funcionou depois de mudado.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115718549827170014?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115718549827170014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115718549827170014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/peso-na-casa.html' title='PESO NA CASA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115710784590317168</id><published>2006-09-01T03:46:00.000-07:00</published><updated>2006-09-01T03:50:45.913-07:00</updated><title type='text'>JURO 1968</title><content type='html'>&lt;em&gt;68-09-03-vi-cd&gt; = cópia dos dias&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JURO PELA VERDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;3/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro pela verdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vou ao encontro do amor&lt;br /&gt;não é por amor&lt;br /&gt;à imortalidade &lt;br /&gt;mas por egoísmo e vaidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é no comboio&lt;br /&gt;que partiu agora mesmo &lt;br /&gt;da estação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro por satanás&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o mundo se viu sacudido&lt;br /&gt;por sismos à razão &lt;br /&gt;de trinta por segundo&lt;br /&gt;não tive a culpa &lt;br /&gt;e lavo como pilatos daí a minha mão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sabe Deus quanto em silêncio&lt;br /&gt;me ri das mortes &lt;br /&gt;dos cadáveres agitantes&lt;br /&gt;dos gritos abafados&lt;br /&gt;das crianças entaladas nos escombros&lt;br /&gt;que jamais vou esquecer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro que nesse dia&lt;br /&gt;trazia a morte aos ombros.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;68-09-03-vi-pp&gt; = poemas políticos - 1968-IV&gt; wri&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FALA DE UM BURGUÊS ABASTADO (ASSUSTADO)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;3/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolta &lt;br /&gt;já chegou à porta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-se dez tostões a um mendigo&lt;br /&gt;e ele protesta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolta &lt;br /&gt;vai de vento em popa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-se de gorjeta dez tostões&lt;br /&gt;e ainda nos insultam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolta &lt;br /&gt;está cada vez pior&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se não sai de casa&lt;br /&gt;sem saber se volta&lt;br /&gt;a entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a revolta&lt;br /&gt;já mata. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;68-09-03-vi-fp&gt; = fado português &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A MORTE A CRÉDITO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;3/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi costume há tempo&lt;br /&gt;entre os poetas políticos&lt;br /&gt;navios nos olhos&lt;br /&gt;da amante e amar&lt;br /&gt;com forquilhas ardentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o tempo de úberes vacas &lt;br /&gt;inocentes logo a seguir à guerra&lt;br /&gt;ao vitríolo nos olhos&lt;br /&gt;ao tiro na nuca nas esquinas&lt;br /&gt;e nas boas prisões dos crematórios &lt;br /&gt;nazis depois esquecidas&lt;br /&gt;dos pontapés nos tomates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era e foi costume do tempo&lt;br /&gt;irradiar de magnetismo animal&lt;br /&gt;os novos caminhos da música &lt;br /&gt;e da arte não deixar fugir&lt;br /&gt;o mais pequeno rato grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro pela verdade:&lt;br /&gt;se vou ao encontro do amor&lt;br /&gt;não é por amor da imortalidade&lt;br /&gt;não é no comboio que partiu agora mesmo &lt;br /&gt;da estação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro por Satanás:&lt;br /&gt;se o mundo se viu sacudido&lt;br /&gt;por sismos à razão &lt;br /&gt;de trinta por segundo&lt;br /&gt;não tive a culpa&lt;br /&gt;e Deus sabe quanto em silêncio&lt;br /&gt;me ri das mortes&lt;br /&gt;dos cadáveres agitantes&lt;br /&gt;dos gritos humilhados rastejantes&lt;br /&gt;das crianças entaladas nos escombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nesse dia trazia a morte aos ombros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso juro:&lt;br /&gt;foi coetânea &lt;br /&gt;dos navios nos olhos&lt;br /&gt;dos peixes em surdina&lt;br /&gt;das odes de Aragon e Éluard&lt;br /&gt;após Claudel após &lt;br /&gt;Céline a Anatole France:&lt;br /&gt;a boa sorte destes outros defuntos&lt;br /&gt;da imortalidade a crédito:&lt;br /&gt;vos juro e vos garanto.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115710784590317168?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115710784590317168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115710784590317168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/09/juro-1968.html' title='JURO 1968'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115701449604882175</id><published>2006-08-31T01:51:00.000-07:00</published><updated>2006-08-31T01:54:56.056-07:00</updated><title type='text'>CONFORME O VENTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;68-09-02-vi-rr&gt; = repórter de rua&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ERAM NOVE CRIANÇAS NA LADEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;2/9/1968 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram nove crianças na ladeira&lt;br /&gt;e um carro de bois a vigiar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dura eternidade&lt;br /&gt;o tempo as transformava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram nove crianças na ladeira&lt;br /&gt;que vem pelo lado Norte do Marão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desci à pressa até chaves&lt;br /&gt;onde comi porco fumado&lt;br /&gt;mas logo espirrei fundo&lt;br /&gt;porque sou alérgico ao presunto.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Lisboa&lt;strong&gt;, 2/Setembro/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento&lt;br /&gt;em fogo ou em neve&lt;br /&gt;se transforma&lt;br /&gt;o peso da semente&lt;br /&gt;que fala de um país&lt;br /&gt;continental&lt;br /&gt;de uma fonte seca&lt;br /&gt;que fala a toda a gente&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;68-09-02-VI-FP&gt; fado português&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NA RAIA DE ESPANHA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 2/9/1968&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento &lt;br /&gt;em fogo ou em neve &lt;br /&gt;se transforma&lt;br /&gt;o peso da semente:&lt;br /&gt;que fala de um país continental&lt;br /&gt;de uma fonte seca&lt;br /&gt;que fala a toda a gente&lt;br /&gt;(fala enquanto me não calo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento&lt;br /&gt;o caminho de cabras nos conduz&lt;br /&gt;à serra ardente onde os altares são pedras&lt;br /&gt;e os planaltos aras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento&lt;br /&gt;em cova ou som ou casa&lt;br /&gt;se muda&lt;br /&gt;o que foi juventude dos deuses&lt;br /&gt;a fortuna de Judas&lt;br /&gt;e a miséria do rei Artur&lt;br /&gt;meu velho companheiro de escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme o vento&lt;br /&gt;em esperança ou cálice ou asa&lt;br /&gt;se recria&lt;br /&gt;o que nasceu de um signo&lt;br /&gt;tão popular&lt;br /&gt;como o vinho e a amêndoa.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115701449604882175?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115701449604882175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115701449604882175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/conforme-o-vento.html' title='CONFORME O VENTO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115658230796889005</id><published>2006-08-26T01:38:00.000-07:00</published><updated>2006-08-26T01:51:47.993-07:00</updated><title type='text'>PÓRTICO DE AGOSTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;AGOSTO - 1964-II&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABRIL EM LISBOA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 16/8/1964 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parti-las e depois bebê-las as palavras&lt;br /&gt;à saúde das inúteis violetas&lt;br /&gt;quando se despe um corpo ou um poema&lt;br /&gt;desaparece o corpo ou o poema&lt;br /&gt;e aparece num poço entre as estrelas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para tapar o corpo para tapar a boca&lt;br /&gt;não há como as palavras miudinhas&lt;br /&gt;com formas de cobrir o abandono&lt;br /&gt;com a respiração quente de um recente sono&lt;br /&gt;vergonha sem algemas sono apenas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Agora é que isto vai civilizar-se&lt;br /&gt;outros ares outros bares outros turistas&lt;br /&gt;não digam que não há greves - há papagaios breves&lt;br /&gt;há mortos de sacola e amarelos&lt;br /&gt;loucos no seu murro e no seu grito)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Loucos ainda os braços sem casaco&lt;br /&gt;capazes até de uma atitude rara&lt;br /&gt;paisagem isso há sempre e a seu tempo&lt;br /&gt;para dispor com tempo no jardim&lt;br /&gt;da encosta da Ajuda de onde se vê Lisboa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encostam-se uns aos outros para isso&lt;br /&gt;se fizeram as tristes plataformas&lt;br /&gt;e de repente as âncoras poisaram&lt;br /&gt;e de repente as âncoras voaram&lt;br /&gt;tão leves perfumadas como aves&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na linha de horizontes movediços&lt;br /&gt;já ao crepúsculo remam os primeiros&lt;br /&gt;indistintos na névoa verdadeiros&lt;br /&gt;soldados da aurora e pioneiros do sol&lt;br /&gt;colados à paisagem que ainda existe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É deles só a única voz humana&lt;br /&gt;mas não se sabe a língua que hoje falam&lt;br /&gt;nostálgica e ausente é a voz que rima sempre&lt;br /&gt;com qualquer coisa ou fé que de repente&lt;br /&gt;nos dá uma luz diferente e uma outra calma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vendem-se rápidos poucos inimigos&lt;br /&gt;digam enfim ao mundo que é o país do amor&lt;br /&gt;deslizando em nós como flores de Abril&lt;br /&gt;chapéus à banda petiscos em Alfama&lt;br /&gt;abrindo mundo fora e vinho novo.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Lisboa, 16/8/1964&lt;br /&gt;Olhou para os lados e não sabia&lt;br /&gt;que sentido tinha a dor&lt;br /&gt;a fome e a doença&lt;br /&gt;que sentido tinha a corrosão da alegria&lt;br /&gt;pela dor e pela comum fragilidade de tudo&lt;br /&gt;nem porque tinha sido assim a (sua) vida&lt;br /&gt;ou porque não tinha sido&lt;br /&gt;e porque estava ali afinal a fazer perguntas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A 3 minutos do fim&lt;br /&gt;pode parar-se à beira e sem enganos já &lt;br /&gt;fazer uma lenta almofada de lembranças&lt;br /&gt;atá-las depois com cuidado ao primeiro ramo&lt;br /&gt;e dos bolsos e do cotão dos bolsos &lt;br /&gt;fazer o papel com que se escreve uma (última) carta&lt;br /&gt;e dos minutos de revolta fazer surgir a tempo&lt;br /&gt;o que teria sido e nunca foi uma alegria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amargurado esse homem que precisa de andar para esquecer&lt;br /&gt;triste o que se entristece dos outros e não de si&lt;br /&gt;infeliz o que pensou toda a vida na infelicidade&lt;br /&gt;tão injustamente partilhada (só) por alguns&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leu livros&lt;br /&gt;trabalhou até ficar zaranza de fadiga&lt;br /&gt;esgotado ao ponto de não olhar o céu sem gritar&lt;br /&gt;parado por dentro&lt;br /&gt;no limite onde o sono se encontra com o sonho&lt;br /&gt;(um ponto-limite a que se chama alma)&lt;br /&gt;e se cola com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostava de ver de Verão a água nos jardins&lt;br /&gt;os pássaros que por ali vagueavam&lt;br /&gt;gostava de sentir o vento fresco no rosto&lt;br /&gt;e sabia que alguma coisa dentro dele&lt;br /&gt;trabalhava para a morte&lt;br /&gt;mais horas por dia do que para a vida&lt;br /&gt;sem local definido mas rigorosamente implantada&lt;br /&gt;no coração&lt;br /&gt;alguma coisa que não eram as gaivotas no rio&lt;br /&gt;pousadas na lama recente da ressaca&lt;br /&gt;nem a nesga azul do céu&lt;br /&gt;entre as casas velhas daquele bairro&lt;br /&gt;gostava enfim de ouvir sempre à mesma hora&lt;br /&gt;o carpinteiro da esquina serrar a madeira&lt;br /&gt;e passar por ela as mãos como &lt;br /&gt;as de um amante sobre o corpo amado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele podia olhar sem penar em nada&lt;br /&gt;as manhãs de nevoeiro para as bandas do rio&lt;br /&gt;e saber que já nada lhe trariam de novo&lt;br /&gt;porque já nada esperava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto falava da cidade&lt;br /&gt;que lhe aparecia de cores claras&lt;br /&gt;de sorriso franco e as pessoas correndo&lt;br /&gt;sem finalidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre as quatro paredes do quarto húmido&lt;br /&gt;e mal iluminado&lt;br /&gt;pensava no dia do mês e no fim do mês&lt;br /&gt;e assustavam-no palavras terríveis como «cisne»&lt;br /&gt;«alma» «parto» «amigo» «solidão» «tempo»&lt;br /&gt;palavras terríveis que ele omitia&lt;br /&gt;de cada dia mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vu passar lá em baixo um automóvel em movimento lento&lt;br /&gt;mas outro era o tempo em que tinha cartas a escrever&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia procurou  na agenda &lt;br /&gt;um endereço &lt;br /&gt;mas todos tinham mudado para outra casa&lt;br /&gt;(uma casa comum de ninguém)&lt;br /&gt;teimou em perguntar se estava alguém&lt;br /&gt;mas ninguém respondeu do outro lado&lt;br /&gt;e tentou dormir tentou talvez esquecer&lt;br /&gt;(não ouvir) a solidão da casa&lt;br /&gt;daquela casa&lt;br /&gt;daquela rua&lt;br /&gt;daquele país&lt;br /&gt;daquele universo&lt;br /&gt;mas estava só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi um pouco pior de Inverno&lt;br /&gt;porque o remendo que o tapava por último&lt;br /&gt;já não era bastante&lt;br /&gt;e abandonou a casa.&lt;br /&gt;Ao terceiro dia estava esgotado &lt;br /&gt;porque ma vida irregular cansa&lt;br /&gt;embora (a vida) canse de todas as maneiras&lt;br /&gt;mas de boa constituição física ele admirava-se&lt;br /&gt;de não poder gramar tudo aquilo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto descansava dos trinta e seis anos de chatice&lt;br /&gt;lia livros num banco do jardim&lt;br /&gt;(pensava entretanto que almoçava)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que há-de o pobre fazer - dizia a vizinha -&lt;br /&gt;- que há-de ele fazer se já perdeu a esperança&lt;br /&gt;ficou-lhe da mulher um filho&lt;br /&gt;mas que pode fazer um viúvo quando o filho é de mama?&lt;br /&gt;Que há-de fazer um homem assim cansado e desfeito&lt;br /&gt;tão precocemente envelhecido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para onde há-de ir se não tem onde&lt;br /&gt;o que há-de fazer se não tem para quem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doem-lhe os olhos de não poder dormir&lt;br /&gt;doem-lhe as mãos de as crispar em vão&lt;br /&gt;doem-lhe os ossos porque perdeu há muito&lt;br /&gt;o hábito libertador das lágrimas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e são piores as horas do crepúsculo&lt;br /&gt;quando a sombra enche de sombra &lt;br /&gt;a casa. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-4 - 7424 bytes whitman&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS TELECOMUNICAÇÕES &lt;br /&gt;GLOSA DE WALT WHITMAN&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--., &lt;strong&gt;16/8/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É pelo alfabeto universal&lt;br /&gt;da universal humilhação que os homens comunicam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto exangue os músculos contraídos&lt;br /&gt;e arquejante o tronco&lt;br /&gt;os olhos distantes e sem brilho&lt;br /&gt;é assim que os homens comunicam&lt;br /&gt;os homens da Fúria e das algemas&lt;br /&gt;com o instinto ou a Inteligência&lt;br /&gt;com o sangue ou com a Voz&lt;br /&gt;pelo silêncio e no silêncio&lt;br /&gt;no fundo da Terra e do fundo da Terra&lt;br /&gt;inevitavelmente é pela Dor Universal&lt;br /&gt;que os homens comunicam&lt;br /&gt;os homens que desenham o futuro sem serem designers&lt;br /&gt;e abrem crateras extintas de lava sem serem bazukas&lt;br /&gt;a céu aberto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os homens comunicam para o mundo&lt;br /&gt;de Oceano a Oceano e de pólo a pólo&lt;br /&gt;de continente a continente&lt;br /&gt;de mar a mar e de beijo a beijo&lt;br /&gt;de céu a céu&lt;br /&gt;na linha fina e bem demarcada do horizonte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada importa saber&lt;br /&gt;além de que os rios correm para o mar&lt;br /&gt;e os homens para a Liberdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os homens que hão-de nascer outra vez&lt;br /&gt;para nascerem finalmente&lt;br /&gt;e refazer a soma errada&lt;br /&gt;e acertar contas e pedir contas&lt;br /&gt;ao deus intriguista e burguês&lt;br /&gt;ao deus-mãozinhas de Fome&lt;br /&gt;ao deus-fingimento&lt;br /&gt;ao deus-aldrabão&lt;br /&gt;ao deus-egoísta e mole e vero filho da Puta (*)&lt;br /&gt;ao deus-bacalhau de azeite e vinagre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os homens hão-de nascer outra vez&lt;br /&gt;para nascerem finalmente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É urgente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens das pontes e das avenidas suburbanas&lt;br /&gt;homens da construção civil e naval&lt;br /&gt;homens dos poemas de-pedra-e-cal&lt;br /&gt;de cimento e aço e vidro e telha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens das orações que são guindastes&lt;br /&gt;homens que do amor são enxadas puras e naturais&lt;br /&gt;homens mendigos de ternura&lt;br /&gt;e que molestam o automóvel de luxo &lt;br /&gt;no cruzamento das grandes artérias&lt;br /&gt;homens do outro bairro&lt;br /&gt;homens dos altos fornos do Aço e do Carvão&lt;br /&gt;tão necessários&lt;br /&gt;homens de pulsos e olhar firme&lt;br /&gt;de reflexos rápidos ao desandar de uma viga&lt;br /&gt;homens mais perfeitos do que máquinas&lt;br /&gt;homens que sonham alto a Revolução mas que nunca a farão&lt;br /&gt;e falam baixo nas tipografias sem ventilação&lt;br /&gt;homens do sangue que são barcos no meio da noite&lt;br /&gt;no meio da eternidade&lt;br /&gt;apitando no imenso nevoeiro que entretanto se formou &lt;br /&gt;homens irmãos por tanta ternura que não foi gasta&lt;br /&gt;por tanto beijo que não foi dado&lt;br /&gt;por tanto abraço que a alienação frustrou&lt;br /&gt;homens do nosso desespero e portanto da Esperança&lt;br /&gt;que o nosso rosto acarinha&lt;br /&gt;homens que vão nos meu ouvidos e me escutam&lt;br /&gt;na minha boca que em silêncio fala&lt;br /&gt;nas minhas mãos&lt;br /&gt;homens de uma tristeza violenta e vulnerável&lt;br /&gt;homens dos grandes camiões nocturnos&lt;br /&gt;dos autocarros fatídicos da cidade fatídica&lt;br /&gt;na rotina inquebrável na rotina estéril&lt;br /&gt;homens das oficinas rudimentares&lt;br /&gt;homens do pão e dos sapatos&lt;br /&gt;das pequenas alegrias diárias de toda a gente&lt;br /&gt;homens servos e fidalgos na servidão&lt;br /&gt;homens livres e libérrimos na servidão&lt;br /&gt;homens de Castro e Grimau, de Lorca e Martin du Gard&lt;br /&gt;do Porto Rico e da Colômbia&lt;br /&gt;da Argentina e do Sara&lt;br /&gt;homens das caves das casas onde se come à semana&lt;br /&gt;homens que dão de comer ao gordo e ao magro&lt;br /&gt;por salários de Fome&lt;br /&gt;Homens dos estaleiros que são gigantes de aço&lt;br /&gt;homens dos calcetamentos nocturnos&lt;br /&gt;até às cinco da madrugada&lt;br /&gt;quando o último eléctrico se tresmalha na cidade&lt;br /&gt;homens dos ferry boats e dos transatlânticos&lt;br /&gt;mas na casa das máquinas&lt;br /&gt;movendo volantes maravilhosos como poetas&lt;br /&gt;rodas dentadas que são a fraternidade horária &lt;br /&gt;e heróica movendo-se já nas suas mãos&lt;br /&gt;em todos os fusos do mapa&lt;br /&gt;e puxando âncoras de ferro junto ao coração&lt;br /&gt;Homens que transformam como deus&lt;br /&gt;a flor em pão &lt;br /&gt;a uva em vinho&lt;br /&gt;e a flor e o pão e a uva e o vinho em Alma&lt;br /&gt;dos operários em construção (Vinícius)&lt;br /&gt;homens dóceis que passeiam à noite a sua ganga encardida&lt;br /&gt;a sua solidão de Luz e Oiro escondida&lt;br /&gt;vigias intermináveis da Paz&lt;br /&gt;do Amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens das guerras imbecis&lt;br /&gt;soldados absurdos das guerras absurdas&lt;br /&gt;das guerras sempre civis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens tecelões de sonhos e Algodão em rama&lt;br /&gt;e Linho e Cânhamo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens atrás dos balcões do berço à morte&lt;br /&gt;dia-e-noite dia-e-noite dia-e-noite&lt;br /&gt;homens ínfimos das latrinas e urinóis&lt;br /&gt;onde comem e dormitam&lt;br /&gt;onde sonham a vida e a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;homens das caves suburbanas da história&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Heróis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens emigrantes para onde houver quem os compre &lt;br /&gt;em saldo&lt;br /&gt;homens de lancheira breve&lt;br /&gt;das refeições frias na taberna&lt;br /&gt;homens jovens sem idade&lt;br /&gt;que transportam pesos superiores ao seu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homens sem escola nem universidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;homens sem domingo ou que têm o domingo&lt;br /&gt;mais melancólico e mais amargo da cidade&lt;br /&gt;homens que hão-de nascer outra vez&lt;br /&gt;e voltar à terra que arrotearam&lt;br /&gt;para repor no lugar um mundo errado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo analfabeto universal da universal humilhação&lt;br /&gt;é que os homens comunicam &lt;br /&gt;e sofrem&lt;br /&gt;porque o sofrimento são os homens espiando&lt;br /&gt;as asneiras de deus&lt;br /&gt;sofrimento é pôr outra vez o andaime e construir &lt;br /&gt;pedra a pedra a Casa derrubada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um poema é a história escrita&lt;br /&gt;com os olhos da Ternura e as mãos da Violência&lt;br /&gt;num pano roxo de sofrimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comunicação dos Santos&lt;br /&gt;ou Comunicação dos homens?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;----&lt;br /&gt;(*) Você me desculpe, Murilo (*), mas o deus de você para não ser pura bobagem é uma merda e apesar dele eu gosto de você e o amo como irmão dos irmãos operários deste Mundo&lt;br /&gt;---&lt;br /&gt;(*) Murilo Mendes, claro&lt;br /&gt;-., &lt;strong&gt;16/Agosto/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-2 - 1969-VII&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PÓRTICO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;16/8/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser procurada &lt;br /&gt;nas letras de forma&lt;br /&gt;e nas folhas&lt;br /&gt;que sobram da memória&lt;br /&gt;e nas águas &lt;br /&gt;furtadas de um livro antigo&lt;br /&gt;a nas fotografias que&lt;br /&gt;nem solenes nem alegres&lt;br /&gt;deixaram no fundo da gaveta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser procurada&lt;br /&gt;e consumida em doses fracas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser procurada no marfim das ondas&lt;br /&gt;ou nos dentes dos animais ferozes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua aos solavancos &lt;br /&gt;pode ser intuída ou cheirada&lt;br /&gt;se de noite se trata&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode captar-se em voz off&lt;br /&gt;de bronze ou &lt;br /&gt;se em rusgas da madrugada &lt;br /&gt;nas ondas curtas de alguns transistors&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode - se fenecer a tempo a erva de que se alimenta -&lt;br /&gt;arder em altares votivos &lt;br /&gt;e quando a festa vem do Oriente &lt;br /&gt;arder &lt;br /&gt;ou alugar um porta-bagagens vazio&lt;br /&gt;para se esconder&lt;br /&gt;mas dos mais antigos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ficar esperando deste &lt;br /&gt;ou do outro lado do rio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode - silenciosa dor que&lt;br /&gt;só nos ossos ligeiramente deformados se revela - &lt;br /&gt;escutar-se a meio da tarde&lt;br /&gt;e da melancolia do nosso coração&lt;br /&gt;encher-se como quem arde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o silêncio começa&lt;br /&gt;a invadir-nos de tristeza&lt;br /&gt;e o bater cardíaco da Terra&lt;br /&gt;se confunde no nosso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode detectar-se nitidamente &lt;br /&gt;em frequência modulada&lt;br /&gt;como se fosse um arco de voltagem máxima&lt;br /&gt;e um pórtico de entrada&lt;br /&gt;a Morte.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-2 - 1969-IX&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PROGRAMA DE FÉRIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;16/8/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Defino assim as férias&lt;br /&gt;ou o intervalo de ócios&lt;br /&gt;na roda que trucida&lt;br /&gt;e desfigura a figura humana:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o espaço &lt;br /&gt;onde podemos esperar&lt;br /&gt;que uma gota caia da árvore&lt;br /&gt;ainda agora molhada do orvalho nocturno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E olhar os olhos de luz como as estrelas &lt;br /&gt;por entre o verde do Jardim da Estrela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou o dizer-te numa longa e curta carta&lt;br /&gt;que ainda te amo&lt;br /&gt;embora o tempo&lt;br /&gt;apagasse da memória&lt;br /&gt;qualquer rastro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhar o mar e ver que &lt;br /&gt;ele é entre o verde e o azul&lt;br /&gt;porque há - como os senhores sabem - &lt;br /&gt;um verde que quando se destinge &lt;br /&gt;parece de azulmetista&lt;br /&gt;ou de um meio e claro azul quase celeste&lt;br /&gt;nunca fiando&lt;br /&gt;são férias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheirar a fruta&lt;br /&gt;antes de amadurecer&lt;br /&gt;e da música fazer o solene ritual&lt;br /&gt;que a música deve ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormir&lt;br /&gt;comer&lt;br /&gt;esperar&lt;br /&gt;três coisas que raramente fazemos&lt;br /&gt;porque as fazemos todos os dias&lt;br /&gt;são ainda férias porque &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quando o coração &lt;br /&gt;se alegra por ser ele a trabalhar&lt;br /&gt;enquanto o corpo em paz repousa &lt;br /&gt;de se cansar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer o elogio da humanidade&lt;br /&gt;encará-la de maneira cordial&lt;br /&gt;é também uma tarefa de férias&lt;br /&gt;um modo juvenil de afectar o mundo&lt;br /&gt;e trazê-lo no bolso&lt;br /&gt;bem perto&lt;br /&gt;das frescas madrugadas &lt;br /&gt;ou das lentas tardes de Outono&lt;br /&gt;que pacificamente nos convidam &lt;br /&gt;para nenhuma obrigação inadiável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não adiar a vida&lt;br /&gt;e olhá-la nos olhos&lt;br /&gt;não ler nem pensar nem escrever  &lt;br /&gt;mas olhar apenas &lt;br /&gt;com a solenidade dos grandes dias&lt;br /&gt;é também uma tarefa de férias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E  no intervalo da sesta&lt;br /&gt;quando o corpo ainda julga dormir&lt;br /&gt;quando a tarde aquece o asfalto&lt;br /&gt;e a vida parece existir &lt;br /&gt;sobre almofadas de algodão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os ruídos temem despertar&lt;br /&gt;da sua modorra&lt;br /&gt;esse corpo que dorme&lt;br /&gt;são também férias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saber que se está vivo&lt;br /&gt;tem então um sabor especial&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São férias aquele intervalo&lt;br /&gt;em que por um puro esforço de amor&lt;br /&gt;não de vontade&lt;br /&gt;nada temos nem fazemos apenas existimos&lt;br /&gt;e por isso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é como se nascêssemos outra vez &lt;br /&gt;homens humanos.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;64-08-16-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INQUISIÇÃO I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;16/8/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta incomoda&lt;br /&gt;a pergunta ofende&lt;br /&gt;o sono cor-de-rosa&lt;br /&gt;(quem sonha não aprende)&lt;br /&gt;de quem sonha e aprende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntar irrita&lt;br /&gt;perguntar incomoda &lt;br /&gt;a fome cor-de-cinza&lt;br /&gt;(quem não como é que sabe) &lt;br /&gt;de quem dorme e não sente &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntar faz alarme&lt;br /&gt;perguntar é enigma&lt;br /&gt;na hora da sesta&lt;br /&gt;na boca dos outros&lt;br /&gt;vem tudo ao de cima &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntar se os aflitos &lt;br /&gt;perguntar se já foram&lt;br /&gt;preventivas maneiras&lt;br /&gt;de tapar as verdades &lt;br /&gt;destapando mentiras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cãezinhos de casa&lt;br /&gt;sem filhos sem ama&lt;br /&gt;perguntar aflige&lt;br /&gt;capazes são eles &lt;br /&gt;de empenhar a cama&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem passa não vê&lt;br /&gt;cortinas corridas&lt;br /&gt;touradas à solta &lt;br /&gt;comédias de volta&lt;br /&gt;sardinhas assadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copia na areia &lt;br /&gt;as letras de um nome&lt;br /&gt;formas de não querer&lt;br /&gt;formas de não se ir&lt;br /&gt;dizer que tem fome&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telégrafo à vista&lt;br /&gt;que fala dos outros&lt;br /&gt;idiomas novos&lt;br /&gt;dos novos encontros &lt;br /&gt;dos veleiros novos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunta se há gente &lt;br /&gt;noutros universos&lt;br /&gt;tão frios tão sós&lt;br /&gt;no tempo submersos&lt;br /&gt;à espera de nós&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mundo outro mundo&lt;br /&gt;pelos dedos contados&lt;br /&gt;cartões de visita&lt;br /&gt;bonecos de tinta &lt;br /&gt;delírios secretos &lt;br /&gt;na mesa pintados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor devagar&lt;br /&gt;caminha no abismo&lt;br /&gt;está longe a fronteira&lt;br /&gt;recolhe ao princípio&lt;br /&gt;pergunta o que é isto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntar chateia&lt;br /&gt;perguntar irrita&lt;br /&gt;se beijas não olhes&lt;br /&gt;se olhes não beijes&lt;br /&gt;qualquer cara aflita.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-08-16-em&gt; = versos publicados em «espaço mortal», pgs 24 e 25 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INDICATIVO PRESENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís de Odemira, &lt;strong&gt;1/12/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá vamos no funeral,&lt;br /&gt;lentamente apodrecendo, &lt;br /&gt;nos nossos túmulos de cal, &lt;br /&gt;com dois olhos por janelas, &lt;br /&gt;servem-se os ossos em pratos, &lt;br /&gt;coze-se a carne em panelas &lt;br /&gt;e se alguém não for feliz &lt;br /&gt;aumentam-se-lhe os impostos. &lt;br /&gt;Os santos com cara de homens &lt;br /&gt;e os homens com ar de santos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá vamos no funeral, &lt;br /&gt;é preciso não ter alma, &lt;br /&gt;é preciso não ter vícios, &lt;br /&gt;é preciso ser normal &lt;br /&gt;e tapar os orifícios. &lt;br /&gt;Pode morrer-se de tédio, &lt;br /&gt;com cheiro a mofo e a esturro, &lt;br /&gt;não é tarde nem é cedo, &lt;br /&gt;é preciso é não ter medo e abrir o caminho a murro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixou de haver gravidade &lt;br /&gt;por decreto siamês, &lt;br /&gt;os escarros já não descem &lt;br /&gt;à cara dos que os merecem, &lt;br /&gt;as mulheres já não menstruam&lt;br /&gt;regularmente por mês, &lt;br /&gt;os escritores já não escrevem &lt;br /&gt;ou escrevem para a gaveta &lt;br /&gt;onde a censura não meta &lt;br /&gt;o bedelho e a gazua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funeral continua, &lt;br /&gt;lentamente apodrecendo &lt;br /&gt;cá vamos no funeral &lt;br /&gt;do cemitério siamês. &lt;br /&gt;Levem-me, levem-me o resto &lt;br /&gt;mas levem-me, vivo ou morto, &lt;br /&gt;e matem-me de uma vez. &lt;br /&gt;Lentamente apodrecendo, &lt;br /&gt;cá vamos no funeral &lt;br /&gt;do cemitério siamês.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Paço de Arcos, &lt;strong&gt;16/Agosto/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser procurada&lt;br /&gt;nas letras e nas folhas&lt;br /&gt;que sobram da memória&lt;br /&gt;e nas fotografias&lt;br /&gt;que nem solenes nem alegres&lt;br /&gt;deixaram no fundo da gaveta&lt;br /&gt;Pode&lt;br /&gt;se fenecer a tempo&lt;br /&gt;a erva de que se alimenta&lt;br /&gt;arder em altares votivos&lt;br /&gt;ficar esperando deste &lt;br /&gt;ou do outro lado do rio&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;E no intervalo da sesta&lt;br /&gt;quando o corpo ainda julga dormir&lt;br /&gt;quando a tarde aquece o asfalto&lt;br /&gt;e a vida parece existir&lt;br /&gt;sobre almofadas de algodão&lt;br /&gt;quando os ruídos temem despertar&lt;br /&gt;da sua madorra esse corpo feliz que dorme&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;SEM DATA&lt;br /&gt;Move-se aflito o sangue&lt;br /&gt;no tempo das colheitas&lt;br /&gt;ignorante aflito&lt;br /&gt;medra&lt;br /&gt;em cada silêncio&lt;br /&gt;em cada pedra&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quando o silêncio começa&lt;br /&gt;a invadir-nos de tristeza&lt;br /&gt;e o bater cardíaco da terra&lt;br /&gt;se confunde no nosso&lt;br /&gt;Pode detectar-se nitidamente&lt;br /&gt;como se fosse um arco de voltagem máxima&lt;br /&gt;e um pórtico de entrada:&lt;br /&gt;a morte&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;As tuas mãos seguravam com força&lt;br /&gt;o pão do diabo&lt;br /&gt;como se guardassem os rigores do Inverno&lt;br /&gt;os ventos que fustigaram tantas mães&lt;br /&gt;a metralha que varreu vidas e manhãs&lt;br /&gt;Esperava por ti um povo&lt;br /&gt;e tu - sem o saber - eras o povo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Um rio de ternura a tua voz&lt;br /&gt;dentro de mim correndo por correr&lt;br /&gt;és a nascente e corres sem saber&lt;br /&gt;que sou dentro de ti a tua foz&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Constrois&lt;br /&gt;destrois&lt;br /&gt;levantas a máquina da esperança&lt;br /&gt;que importa o que vier&lt;br /&gt;e se viver&lt;br /&gt;é um hábito igual&lt;br /&gt;ao de chover&lt;br /&gt;que molha.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;mãos &lt;br /&gt;testemunhas vivas&lt;br /&gt;enxadas&lt;br /&gt;lágrimas absurdas&lt;br /&gt;água&lt;br /&gt;invenão sádica da sede&lt;br /&gt;sede&lt;br /&gt;invenção sádica da água&lt;br /&gt;enxada&lt;br /&gt;caravela dos oceanos&lt;br /&gt;pão&lt;br /&gt;antestreia sensacional da fome&lt;br /&gt;luz&lt;br /&gt;a linguagem universal dos homens&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A noite já caiu&lt;br /&gt;se a casa que não temos&lt;br /&gt;fosse o comboio do tempo&lt;br /&gt;que partiu&lt;br /&gt;Mas o sol descobria&lt;br /&gt;e quando há sol&lt;br /&gt;é um erro da natureza&lt;br /&gt;a poesia.&lt;br /&gt;[ a cassiano ricardo]&lt;br /&gt;está no meio do inverno e canta &lt;br /&gt;está no meio do mato &lt;br /&gt;como um grande senhor&lt;br /&gt;esse criminoso nato&lt;br /&gt;o beija-flor&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Naquela manhã os outros planetas&lt;br /&gt;olhavam a terra&lt;br /&gt;assustados de a ver florir&lt;br /&gt;assim em Janeiro.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Onde não medra balido de animal&lt;br /&gt;onde não soa o viço de uma erva&lt;br /&gt;crescem estes braços de ramos e raízes&lt;br /&gt;cresce a memória amada dos que fui&lt;br /&gt;e em mim confundidos pereceram&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;[glosa a walt whitman]&lt;br /&gt;é pelo alfabeto universal&lt;br /&gt;da universal humilhação&lt;br /&gt;que os homens comunicam&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;os rios correm para o mar&lt;br /&gt;e os homens para a liberdade&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Longo é o dorso do animal que dorme&lt;br /&gt;esse animal que dorme nos teus olhos&lt;br /&gt;+&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115658230796889005?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115658230796889005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115658230796889005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/prtico-de-agosto.html' title='PÓRTICO DE AGOSTO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115650196835746506</id><published>2006-08-25T03:29:00.000-07:00</published><updated>2006-08-25T03:33:24.083-07:00</updated><title type='text'>MORTO EM COMBATE</title><content type='html'>&lt;em&gt;68-08-31-vs-dh &gt; descrição de um homem – personagens -  domingo, 12 de Janeiro de 2003&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GUERRA COLONIAL &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, 31/8/1968 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele casara antes de ir.&lt;br /&gt;O morto em combate, era casado.&lt;br /&gt;Foi, fora, foi-se.&lt;br /&gt;Acabou-se.&lt;br /&gt;Mais uma alegre viuvinha&lt;br /&gt;talvez com meninos órfãos.&lt;br /&gt;Foi fazer companhia a Pedro&lt;br /&gt;o que sobre uma pedra edificou igrejas &lt;br /&gt;montou ascensores&lt;br /&gt;colheu cerejas&lt;br /&gt;exibiu interiores ricamente decorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes mal acompanhado que só&lt;br /&gt;- dizia ele e casou-se.&lt;br /&gt;Porque «antes casar-se que abrasar-se» &lt;br /&gt;- dizia S. Paulo, primo de Pedro&lt;br /&gt;edificador de igrejas sobre a pedra&lt;br /&gt;em pedra nos túmulos encravados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele casara antes de ir.&lt;br /&gt;Morto em combate foi, fora, foi-se. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;O ESCRIBA ACOCORADO DE COSTAS APODRECE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;31/8/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem o visse &lt;br /&gt;abrir o dicionário&lt;br /&gt;com gesto de acrobata&lt;br /&gt;e já sem compromissos&lt;br /&gt;do seu antigo companheiro&lt;br /&gt;na cama&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem o visse afastar-se do mundo&lt;br /&gt;descer as cortinas&lt;br /&gt;pôr mostarda num olho (o direito)&lt;br /&gt;com um dedo (o esquerdo)&lt;br /&gt;e adormecer&lt;br /&gt;naquela postura núbil&lt;br /&gt;nem sonhava que estava ali&lt;br /&gt;um lobo&lt;br /&gt;outras vezes Napoleão&lt;br /&gt;e tantos cães de guerra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quase sempre o número treze&lt;br /&gt;raramente o trinta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem acreditava que sonhasse&lt;br /&gt;com berlindes que amainavam ventos&lt;br /&gt;e navios &lt;br /&gt;regulavam distâncias e relâmpagos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém que o visse&lt;br /&gt;de costas&lt;br /&gt;sentado&lt;br /&gt;como quem sonha&lt;br /&gt;e apodrece&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube-se depois&lt;br /&gt;o que até então fora secreto&lt;br /&gt;soube-se-lhe das manhas e fraquezas&lt;br /&gt;e soube-se - porque a porteira  o disse - &lt;br /&gt;que entrava e saía de casa&lt;br /&gt;pela porta&lt;br /&gt;o que além de suspeito&lt;br /&gt;era evidentemente doentio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Parque de Monsanto&lt;br /&gt;também o viram por duas ou três vezes&lt;br /&gt;e na Outra Banda quase que o matavam&lt;br /&gt;com uma grande carga &lt;br /&gt;de porrada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Museu Etnográfico&lt;br /&gt;quando lá esteve&lt;br /&gt;roubou um canivete&lt;br /&gt;e um espelhinho que (embora barato)&lt;br /&gt;lhe saíra caro&lt;br /&gt;com que olhava os compatriotas&lt;br /&gt;e evitava o mau hálito&lt;br /&gt;do cozido tanto à portuguesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo regulava pelos 15$00&lt;br /&gt;e (vamos lá) já não era mau&lt;br /&gt;atendendo aos empreendimentos imobiliários&lt;br /&gt;em curso&lt;br /&gt;ao fisco&lt;br /&gt;ao fato já no fio&lt;br /&gt;aos suicidas&lt;br /&gt;às prestações&lt;br /&gt;aos chantagistas por desporto&lt;br /&gt;ao António Nobre das boas maneiras&lt;br /&gt;mais ou menos pálido e de olheiras&lt;br /&gt;(da tísica é claro)&lt;br /&gt;a chamar o Jorge para as romarias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aquilo por nada &lt;br /&gt;e a verdade é que um bem mandado &lt;br /&gt;nos tomates&lt;br /&gt;resolvia o assunto&lt;br /&gt;( abriu um olho&lt;br /&gt;pousou o pé&lt;br /&gt;depois o outro&lt;br /&gt;afastou um molho de miúdas&lt;br /&gt;e deu o seu último &lt;br /&gt;ou (não garanto) &lt;br /&gt;antepenúltimo&lt;br /&gt;arroto)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele não foi nisso&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;como quem brinca&lt;br /&gt;como qem sofre e por isso Sabe&lt;br /&gt;como quem estuda ou imagina&lt;br /&gt;talvez como quem dorme&lt;br /&gt;a doer-lhe do lado esquerdo um rim&lt;br /&gt;à espera e de costas&lt;br /&gt;apodrece.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115650196835746506?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115650196835746506/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115650196835746506' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115650196835746506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115650196835746506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/morto-em-combate.html' title='MORTO EM COMBATE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115632567469046928</id><published>2006-08-23T02:32:00.000-07:00</published><updated>2006-08-23T02:34:34.700-07:00</updated><title type='text'>UM ROSTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;anos60&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VERSOS AVULSOS COM DATA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, &lt;strong&gt;29/8/1960&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu horizonte de trabalho&lt;br /&gt;há hoje um rosto à altura do meu&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115632567469046928?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115632567469046928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115632567469046928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/um-rosto.html' title='UM ROSTO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115623576432109821</id><published>2006-08-22T01:35:00.000-07:00</published><updated>2006-08-22T01:36:04.330-07:00</updated><title type='text'>MAIS MAIS</title><content type='html'>&lt;em&gt;verso&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;27-8-1999&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEMA-INVENTÁRIO DO PROGRESSO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mais produção&lt;br /&gt;mais desertos&lt;br /&gt;mais veneno e poluição&lt;br /&gt;mais parafusos &lt;br /&gt;mais automóveis &lt;br /&gt;mais desastres de automóvel &lt;br /&gt;mais auto-estradas mais betão asfaltado&lt;br /&gt;mais falta de água&lt;br /&gt;mais auto-tanques voltados com matérias perigosas&lt;br /&gt;mais cancro&lt;br /&gt;mais produtos químicos no ambiente e nos alimentos&lt;br /&gt;mais gasto de água &lt;br /&gt;mais falta de água &lt;br /&gt;mais gasolina mais cara&lt;br /&gt;mais inflação&lt;br /&gt;mais desemprego&lt;br /&gt;mais inflação&lt;br /&gt;mais portas fechadas de alternativa à inflação&lt;br /&gt;mais petróleo derramado&lt;br /&gt;mais desastres climáticos&lt;br /&gt;mais cargueiros com cargas venenosas e explosivas&lt;br /&gt;mais cargueiras voltados com passageiros enterrados vivos&lt;br /&gt;mais contentores nos estuários&lt;br /&gt;mais estuários mais podres&lt;br /&gt;mais lagos eutrofizados e mais rias mortos&lt;br /&gt;mais ruído&lt;br /&gt;mais surdos mais doentes mentais&lt;br /&gt;mais motoretas &lt;br /&gt;mais chumba na gasolina&lt;br /&gt;mais toxicomanias mais revolta&lt;br /&gt;mais chatice mais burocracia mais suicídios&lt;br /&gt;mais mais&lt;br /&gt;mais&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115623576432109821?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115623576432109821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115623576432109821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/mais-mais.html' title='MAIS MAIS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115606861968037263</id><published>2006-08-20T02:57:00.000-07:00</published><updated>2006-08-20T03:10:19.726-07:00</updated><title type='text'>LONGAS HORAS</title><content type='html'>&lt;em&gt;64-08-23-vi&gt; = versos inéditos de afonso cautela – 1964  &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ENGANAR DE QUIMERAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 23/Agosto/64&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enganar de quimeras tanta fome &lt;br /&gt;ou em vez de quimeras &lt;br /&gt;com algemas &lt;br /&gt;não é ainda crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casas de palha e lama &lt;br /&gt;estendidas como vermes &lt;br /&gt;na primeira primavera construídas &lt;br /&gt;no primeiro inverno destruídas &lt;br /&gt;não são ainda crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pedra na consciência&lt;br /&gt;o medo que nós rói e arruina&lt;br /&gt;o corpo da inocência que se gasta&lt;br /&gt;não é ainda crime&lt;br /&gt;é ignorância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantar pirâmides de gelo &lt;br /&gt;e chamar-lhes altar &lt;br /&gt;alimentar de fogo e gasolina &lt;br /&gt;o motor da angústia &lt;br /&gt;no coração dos homens &lt;br /&gt;não é crime ainda&lt;br /&gt;mas insulto &lt;br /&gt;mas  miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter feito aqui&lt;br /&gt;um deserto sem pontos cardiais&lt;br /&gt;não é ainda crime &lt;br /&gt;é solidão apenas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crime não é o tempo &lt;br /&gt;que sobra &lt;br /&gt;se queima e envenena &lt;br /&gt;entre um sono e outro sono &lt;br /&gt;crime não é a fera&lt;br /&gt;sem rosto e sem idade&lt;br /&gt;crime não é ainda o crime &lt;br /&gt;de aqui estarmos&lt;br /&gt;de ser e querer ser homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crime é a tristeza que nos cobre&lt;br /&gt;o céu de chumbo que na cidade cai&lt;br /&gt;crime é ter perdido &lt;br /&gt;a esperança &lt;br /&gt;os olhos &lt;br /&gt;a memória &lt;br /&gt;crime é não falar.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 23/Agosto/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longas horas &lt;br /&gt;que o silêncio traça&lt;br /&gt;em seu largo voo&lt;br /&gt;e longínqua voz&lt;br /&gt;Ele sabe de nós &lt;br /&gt;e da tristeza&lt;br /&gt;que cobre como a névoa&lt;br /&gt;que cobre como a chuva&lt;br /&gt;que cobre como a morte&lt;br /&gt;há tantos anos as ruas da cidade&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 1964-III&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOLHA-TOLOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;23/8/1964 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chove há tanto tempo sobre nós&lt;br /&gt;chove há tantos dias na cidade&lt;br /&gt;que os olhos não de olhar e nem de sono&lt;br /&gt;estão exaustos e molhados&lt;br /&gt;de chorar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longas horas &lt;br /&gt;que o silêncio traça&lt;br /&gt;em seu largo voo&lt;br /&gt;e longínqua voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada sabem de nós&lt;br /&gt;e da tristeza&lt;br /&gt;que cobre como a névoa&lt;br /&gt;que cobre como a chuva&lt;br /&gt;que cobre como a morte&lt;br /&gt;há tantos anos as ruas da cidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chove há tanto tempo sobre nós&lt;br /&gt;a tristeza que chove na cidade.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;23/Agosto/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distante como um desfiladeiro&lt;br /&gt;e perto como um eco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;breve também como a tipografia&lt;br /&gt;rápida como um curto-circuito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;igual à linguagem das folhas&lt;br /&gt;ou dos animais que apenas murmuram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nas minas ou nos mares&lt;br /&gt;ou nos horizontes curtos das cidades&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;trucidada por viaturas&lt;br /&gt;ou anelante e aérea pelas estradas do vento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alheia aos que gozam e atenta aos que sofrem&lt;br /&gt;arrancada à dor como o oiro à terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;necessária e urgente como a vida&lt;br /&gt;inevitável como a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pesada e violenta como a doença&lt;br /&gt;mais veloz que o som e a luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em direcção ao mar&lt;br /&gt;em direcção ao amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;movida por claras forças naturais&lt;br /&gt;ou por forças ocultas mas também naturais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;livre mas paciente&lt;br /&gt;livre mas obediente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em qualquer idioma&lt;br /&gt;até onde houver um homem e portanto sofrimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver um rosto e portanto uma ruga&lt;br /&gt;de dúvida ou revolta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;até onde houver sol e doença e remorso&lt;br /&gt;e a solidão fiel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sobre as águas ou entre matas cerradas&lt;br /&gt;em nome de um deus ou em nome dos homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é necessário que esta voz caminhe&lt;br /&gt;e encontre a tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o timbre ou água ou forja&lt;br /&gt;que a fará falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ser pura&lt;br /&gt;quer a ouçam ou não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115606861968037263?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115606861968037263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115606861968037263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/longas-horas.html' title='LONGAS HORAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115554361252894123</id><published>2006-08-14T01:17:00.000-07:00</published><updated>2006-08-14T01:20:12.543-07:00</updated><title type='text'>SE O SILÊNCIO</title><content type='html'>&lt;em&gt;64-08-15-VS&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INQUISIÇÃO II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;15/8/1964&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Perguntaram se o silêncio não servia&lt;br /&gt;e se era preciso sonhar alto dia e noite&lt;br /&gt;e se a voz dos avós se não ouvia&lt;br /&gt;afinal para que era estar assim de noite&lt;br /&gt;a fazer de soldado e de vigia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram outra vez se havia magiares&lt;br /&gt;com canções sonolentas de embalar crianças&lt;br /&gt;e ciganos e ninhos e estupendas foices&lt;br /&gt;para arrancar à força de alguns coices&lt;br /&gt;o que nunca mais vinha por herança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram ao rosto de rugas verticais &lt;br /&gt;habituado a lidar na fábrica com operários&lt;br /&gt;se podiam comprar um carro utilitário&lt;br /&gt;e um outro casaco porque aquele além&lt;br /&gt;de já não estar na moda estava no fio também &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram se o pão se transformava&lt;br /&gt;em ofensivas maneiras de apagar o lume&lt;br /&gt;se o castigo de querer a eternidade&lt;br /&gt;não era já muito para quem da lava&lt;br /&gt;de um vulcão apenas conhecia o lume&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram como quem lava um vestido&lt;br /&gt;se estava já cheio e se podia entrar&lt;br /&gt;ou se revolucionário era só lá quem era&lt;br /&gt;com nenhuns pontos de comum acordo&lt;br /&gt;e passaporte em dia e ficha e confiança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram quem ressonava à noite &lt;br /&gt;se eram no infinito ocultos os chacais&lt;br /&gt;ou se haveria animal mais feroz que a solidão&lt;br /&gt;e ninguém respondeu porque ninguém sabia&lt;br /&gt;se há para lá da noite e da morte alguma coisa mais &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram aos cultores eventuais da pólvora&lt;br /&gt;anichados em curvas do caminho&lt;br /&gt;se o cheiro natural dos urinóis &lt;br /&gt;assim acre assim sensível assim potente&lt;br /&gt;era o cheiro português das coisas habituais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram se havia almas às tantas&lt;br /&gt;um tanto azoadas dos brinquedos&lt;br /&gt;se o sacerdote ou chulo protector &lt;br /&gt;monopolizava o respirador&lt;br /&gt;íamos morrer todos com certeza asfixiados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntavam se estavam madurinhas&lt;br /&gt;pequenas alvacentas de luar&lt;br /&gt;eram românticas as pulgas pobrezinhas&lt;br /&gt;eram luas em círculo polar&lt;br /&gt;e nem sequer posso garantir que fossem minhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram se reforma ou se pró-forma&lt;br /&gt;se vício se calão se identidade&lt;br /&gt;se campos se navios se coragam&lt;br /&gt;se de concentração se de aterragem&lt;br /&gt;se asas para aterrar a eternidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram quem era o pobrezinho&lt;br /&gt;que saíra dali tão feliz com a esmola&lt;br /&gt;e se a viola ali no saco não tocava&lt;br /&gt;porque era céguinho ou se o céguinho &lt;br /&gt;ali da esquina é que desafinara&lt;br /&gt;quando o polícia lhe pediu esmola&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram se atiravam a matar&lt;br /&gt;e se bater à porta é um sinal de alarme&lt;br /&gt;e se a gorjeta além disso era precisa&lt;br /&gt;ou se alguém gritou mesmo que não gostasse&lt;br /&gt;ou se alguém gostou mesmo que não gritasse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram também se havia abelhas&lt;br /&gt;pesadas na prisão e nas paredes&lt;br /&gt;ou se o dilúvio entrava e não saía&lt;br /&gt;e se a cama que lhe deram era assim&lt;br /&gt;por natureza feitio defeito ou profissão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos que vinham do trabalho suados é claro&lt;br /&gt;perguntaram se a vida estava cara&lt;br /&gt;e a uma destas mesmo assim de caras&lt;br /&gt;logo a seguir sem tempo de passar&lt;br /&gt;é claro que não responderam nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntaram se havia mais baratas&lt;br /&gt;para aproveitar no meio da solidão&lt;br /&gt;e rendas mais baixas que as da Baixa&lt;br /&gt;lá haver havia para os que trabalham &lt;br /&gt;belas e boas e gordas na prisão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos lapuzes habitantes do imaginário&lt;br /&gt;perguntaram se as neves eram imortais &lt;br /&gt;e se viajar a pé por lá tinha algum perigo&lt;br /&gt;e se viajar a pé por lá dava algum gozo&lt;br /&gt;visto que os passaportes agora eram mais fáceis&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;64-08-15-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESGOSTO EM AGOSTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;15/8/1964 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei se estava aberto toda a noite&lt;br /&gt;era um jovem gentil mais que o comum&lt;br /&gt;perguntei se era do campo ou se era lá do Norte&lt;br /&gt;nada mais soube porque o comum&lt;br /&gt;é cada um seguir a sua sorte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntei-lhe se ia por prazer&lt;br /&gt;por gozo ou gosto ou fito inquisidor&lt;br /&gt;perguntas mais perguntas (a noite estava linda&lt;br /&gt;para quem quisesse passear&lt;br /&gt;e não fosse exigente no amor)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não respondeu e com ar de quem emigra&lt;br /&gt;nunca mais ninguém lhe pôde ouvir a voz&lt;br /&gt;nunca ninguém mais lhe pôs a vista em cima&lt;br /&gt;não respondeu e lá ficou na cama &lt;br /&gt;mais pequenino que a mina de água ao lume.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115554361252894123?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115554361252894123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115554361252894123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/se-o-silncio.html' title='SE O SILÊNCIO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115537275570751095</id><published>2006-08-12T01:49:00.000-07:00</published><updated>2006-08-12T01:52:35.716-07:00</updated><title type='text'>À MOEDA DO ESPANTO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-3 - 1969-VIII&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O TELEJORNAL [DISCURSO AO HOMEM NOVO] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;12/8/1969 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À moeda falsa do espanto&lt;br /&gt;já todos se venderam&lt;br /&gt;e (por isso) nada acontece&lt;br /&gt;que mereça relato&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem a morte ao jantar&lt;br /&gt;(suspeita)&lt;br /&gt;ou o fio de gás aceso&lt;br /&gt;que provocou a destruidora explosão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já ninguém se espanta &lt;br /&gt;de tão certo o crime&lt;br /&gt;dois crimes mesmo&lt;br /&gt; um em cada mão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez do sol vemos o mar&lt;br /&gt;daquele lugar ao mesmo tempo&lt;br /&gt;tão perto e tão distante&lt;br /&gt;mas não obstante sombrio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daquele lugar &lt;br /&gt;lançamos em espada de fogo&lt;br /&gt;o desafio ao Arcanjo&lt;br /&gt;o lança-chamas que usamos&lt;br /&gt;quando por barbeiro fomos escolher&lt;br /&gt;um célebre espião&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que dentro de um homem&lt;br /&gt;tudo pode caber&lt;br /&gt;mesmo o espanto&lt;br /&gt;mesmo a sabedoria&lt;br /&gt;mesmo a venalidade e a preguiça&lt;br /&gt;mesmo a esperança e a mentira&lt;br /&gt;- necessária armadura de guerra &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É certo que a vergonha&lt;br /&gt;possui a rara geografia&lt;br /&gt;dos países que não tiveram história&lt;br /&gt;e que os roteiros ainda não registam&lt;br /&gt;por não haver montanhas onde passar as férias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se as lágrimas ou um gemido&lt;br /&gt;(mal ouvido aqui onde faz tanto ruído)&lt;br /&gt;a boiar no mar  sereno do nada&lt;br /&gt;sinalizava o absoluto da  Totalidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros (poucos) e nós (Nenhum) &lt;br /&gt;fomos um ser chamado destino&lt;br /&gt;a palavra mais metafísica que há&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fomos os mortos aparentes&lt;br /&gt;em que nos vimos de repente &lt;br /&gt;e por contraste transfigurados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por pássaro azul de Ticiano&lt;br /&gt;entendemos nós a velocidade transparente&lt;br /&gt;deste vento que nos tira &lt;br /&gt;por dentro&lt;br /&gt;a violenta radiografia&lt;br /&gt;de uma alegria arrancada a ferros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por virtuoses de Vivaldi subentendemos &lt;br /&gt;a possível maior graça de nos reconhecermos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem podem as bestas do obscurantismo&lt;br /&gt;mesmo as do Apocalipse&lt;br /&gt;sob a forma de agudos ensaísmos&lt;br /&gt;blazonar contra as vagas&lt;br /&gt;a montanha de alegrias povoada&lt;br /&gt;clamar o seu hálito dúbio e contundente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada do que é nada tem vida&lt;br /&gt;quando o homem (onde tudo cabe) &lt;br /&gt;ganhou o direito a nascer de si mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No princípio era &lt;br /&gt;a arte difícil e nobre &lt;br /&gt;de cavalgar toda a sela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e por isso não desesperámos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na solidão &lt;br /&gt;entregues a si próprios&lt;br /&gt;foram poucos e sós&lt;br /&gt;os que trabalharam &lt;br /&gt;para reconquistar &lt;br /&gt;a fraternidade assassinada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o medo &lt;br /&gt;a pouco e pouco&lt;br /&gt;se lhe moldou aos dedos&lt;br /&gt;e do sono em que já nem as flores se mexiam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;saltaram eles &lt;br /&gt;os profetas banidos&lt;br /&gt;retiraram o fogo da grande forja&lt;br /&gt;dias ou séculos depois&lt;br /&gt;que importa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a grande fábrica da alegria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o indefinido desejo &lt;br /&gt;do convívio entre os homens&lt;br /&gt;por alguns homens assassinado (s)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando o novo parto antecedeu de alguns dias &lt;br /&gt;o mundo e sua alvorada&lt;br /&gt;deixou de ser um lixo exótico&lt;br /&gt;uma lâmina de agonia&lt;br /&gt;o bronze com que refazer&lt;br /&gt;a humanidade &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sol se abriu&lt;br /&gt;a procurar o resto do mundo&lt;br /&gt;que faltava percorrer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;encontrou quase a nascer&lt;br /&gt;numa alvorada de lágrimas acesa &lt;br /&gt;o homem novo&lt;br /&gt;que ainda não nasceu.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;Paço de Arcos, &lt;strong&gt;12/Agosto/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o sol se abriu&lt;br /&gt;a procurar o mundo&lt;br /&gt;encontrou quase a nascer&lt;br /&gt;o homem velho que não envelheceu&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115537275570751095?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115537275570751095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115537275570751095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/moeda-do-espanto.html' title='À MOEDA DO ESPANTO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115476577519546886</id><published>2006-08-05T01:14:00.000-07:00</published><updated>2006-08-05T01:16:15.216-07:00</updated><title type='text'>CARTA A IEVTUCHENKO</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-7 - ievtuch-va-fa&gt; = versos ac = forum dos aflitos – versos longos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA A IEVTUCHENKO DE UM SEU COMPANHEIRO DE ESCOLA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;6/8/1965&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui onde o meridiano é por sinal o de Greenwich&lt;br /&gt;e faz o sinal da cruz (exacto) com o paralelo 38&lt;br /&gt;antípoda (por acaso) de Hiroxima e Nagasaqui &lt;br /&gt;aqui onde a solidão e os ratos&lt;br /&gt;fazem um barulho incómodo no sótão mais alto&lt;br /&gt;do solar velho (a cair de velho e podre)&lt;br /&gt;aqui onde não temos ponta ( de lança, de cigarro, de agulha hipodérmica) por onde se pegue&lt;br /&gt;e os beijos se entremeiam de zorragues&lt;br /&gt;onde a completa alienação vai de par com o ódio&lt;br /&gt;amarelo e também completo&lt;br /&gt;onde o sol nos insulta e a chuva nos molha&lt;br /&gt;as calças precisamente no sítio mais suspeito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lembrei-me de ti, meu caro Evtuchenko, para um cavaco&lt;br /&gt;escrevo-te ainda em pijama, meio ensonado&lt;br /&gt;e não vou falar-te do meu desemprego profissional&lt;br /&gt;nem dos meus 32 anos à cabeceira da morte&lt;br /&gt;Juro-te que sou o mesmo de quando há séculos nos conhecemos&lt;br /&gt;eras tu um aluno ainda bem comportado da escola oficial.&lt;br /&gt;Não mudei. Não mudámos. Por isso te falo&lt;br /&gt;certo de que nos ouviremos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu hoje sabes muita coisa, meu caro Evtuchenko: &lt;br /&gt;não daquelas coisas que se aprendem &lt;br /&gt;mas que se vivem&lt;br /&gt;neo-romântico, fanático da velha ternura das primitivas comunidades&lt;br /&gt;de que os lunáticos e loucos sempre falaram&lt;br /&gt;e pelas quais alguns cristos foram prégados a um madeiro&lt;br /&gt;tu que falaste com encarcerados e suicidas&lt;br /&gt;eternos utopistas da condição humana&lt;br /&gt;tu que tens a raiva ou a lepra&lt;br /&gt;dos mortos incorrigíveis que continuam vivos na morte&lt;br /&gt;tu que vens seguindo a lição dos eternos revoltados&lt;br /&gt;ou revolucionários sem bombas&lt;br /&gt;tu que tratas por tu todos os homens, a Leste e a Oeste, &lt;br /&gt;tu que falas dos condenados à Esperança&lt;br /&gt;e dos condenados à Vida&lt;br /&gt;portas abertas de todas as celas&lt;br /&gt;bíblicos profetas do Fim e da Origem&lt;br /&gt;escalando o Impossível&lt;br /&gt;tu que és talvez o último descendente das estrelas diurnas&lt;br /&gt;o último corruptor de bispos ou incendiários da Renascença&lt;br /&gt;o último dos Incas poderosos&lt;br /&gt;o mais generoso discípulo de Hermes&lt;br /&gt;tu que desafias com o teu verbo em fogo&lt;br /&gt;e a tua força cósmica uma civilização esclerótica&lt;br /&gt;pudica, puritana e maldita&lt;br /&gt;tu companheiro dos por isso malditos&lt;br /&gt;companheiros de cave e de caserna&lt;br /&gt;dos lúcidos encarcerados da vida&lt;br /&gt;andróginos apaixonados destilando a Lua&lt;br /&gt;num travesseiro sujo&lt;br /&gt;camaradas na Ignorância e nossos camaradas na Fome&lt;br /&gt;os da fraternidade fratricida&lt;br /&gt;tu, meu caro Ev, sabes ainda as palavras&lt;br /&gt;com que se pode (ou deve) falar de amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem te importares com tanta coisa importante&lt;br /&gt;e tanta gente inteligente que há&lt;br /&gt;falas de amor sem olhar ao escândalo&lt;br /&gt;sem receio sequer do insecticida que mata&lt;br /&gt;indiscriminadamente&lt;br /&gt;sem temor das chuvas negras e ácidas que vão caindo&lt;br /&gt;no Algarve ou no Sara por esse mundo fora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque embora eles digam que o ar é higiénico&lt;br /&gt;meu caro Tuchenko, hão-de jurar primeiro&lt;br /&gt;que se acabaram os cogumelos na horta&lt;br /&gt;Se querem poesia que fiquem com as couves&lt;br /&gt;e as bombas podem levá-las até ao meio-dia&lt;br /&gt;antes das pontes&lt;br /&gt;Se a ciência trabalha como eles dizem para o bem-estar da espécie&lt;br /&gt;diremos que a espécie vai muito bem obrigado&lt;br /&gt;e que ainda respira (ou é apenas estertor?)&lt;br /&gt;diremos que sim senhor o progresso&lt;br /&gt;e viva o homem que se aclimata a tudo às bombas inclusive&lt;br /&gt;conforme a bomba que mata e se for esse o clima&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se eles percebem de cogumelos mais do que nós&lt;br /&gt;não é verdade que nos podem bem envenenar o almoço?&lt;br /&gt;E aqui, meu caro Ev, é que está o Busílis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eles mandem até compreendo&lt;br /&gt;pois mais ninguém quereria tal fardo de trampa&lt;br /&gt;e porque por isso para isso os fizeram para isso nasceram&lt;br /&gt;Mas se progresso é progresso e nós temos 32 anos &lt;br /&gt;20 depois de Hiroxima&lt;br /&gt;a comer progresso ao pequeno almoço, almoço e jantar&lt;br /&gt;se progresso é progresso&lt;br /&gt;muito obrigado outra vez mas não queremos&lt;br /&gt;vamos antes falar do vento e dos vinte anos&lt;br /&gt;em que o vento tem soprado &lt;br /&gt;por cima das praias japonesas&lt;br /&gt;os efeitos radiosos da última descoberta termonuclear&lt;br /&gt;e depois a paz - claro, a paz - a excelentíssima paz&lt;br /&gt;que foi esta guerra de vinte anos&lt;br /&gt;em que as excelentíssimas pessoas falam &lt;br /&gt;de coisas importantes, progresso &amp; civilização Lda&lt;br /&gt;É isto o que ouvimos e é disto que, dia e noite, falamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos assentar nisto por uma vez&lt;br /&gt;Nenhuma tenda política nenhum hospício religioso&lt;br /&gt;nenhum bazar económico nenhum asilo ideológico&lt;br /&gt;nenhuma cela mística&lt;br /&gt;nenhuma cabala nenhuma ciência oculta ou revelada&lt;br /&gt;nos obriga a não matar mas a morrer de morte natural&lt;br /&gt;Apenas a verdade apenas nós &lt;br /&gt;(mediuns efémeros que só aqui viemos para crer&lt;br /&gt;na verdade oficial em que nos mandam crer)&lt;br /&gt;nos obriga a não matar mas a morrer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se o negócio é trocar por lentilhas a Civilização&lt;br /&gt;pela última vez diremos não:&lt;br /&gt;o ascensor que poupa passos e rins&lt;br /&gt;o telefone que evita a lenta comunicação escrita&lt;br /&gt;e faz do homem Objecto&lt;br /&gt;o lindo objecto que sempre foi&lt;br /&gt;a cirurgia às amígdalas e a droga des-sensibilizante&lt;br /&gt;(para nós cuja doença é sentir demais)&lt;br /&gt;as distracções interplanetárias&lt;br /&gt;que evitam ver as planetárias urgências, carências e necessidades &lt;br /&gt;e tantas energias, tantas, meu irmão Tuchenko&lt;br /&gt;tantas barragens e silicóticos das barragens&lt;br /&gt;e pontes - tantas pontes - jardins suspensos desta Babilónia&lt;br /&gt;e o seguro de vida&lt;br /&gt;para vidas tão inseguras como estas nossas&lt;br /&gt;e (senhores!) o imposto pois claro profissional&lt;br /&gt;além do de sangue&lt;br /&gt;a campainha de porta, esse dispositivo mágico&lt;br /&gt;que evita, por simples compressão digital,&lt;br /&gt;o esforço vibratório da Aldraba&lt;br /&gt;e a rádio - remédio para as nossas terríveis insónias - &lt;br /&gt;e a televisão e o olho electrónico&lt;br /&gt;e os antibióticos e tudo, tudo, meu caro Ev,&lt;br /&gt;o que facilitou a vida&lt;br /&gt;fechando as portas possíveis da liberdade&lt;br /&gt;tudo o que manieta, ensurdece, cala, paralisa e atrofia&lt;br /&gt;a nossa fome, a nossa sede, a nossa raiva&lt;br /&gt;tudo isso agradecemos mas de vez e acabou-se&lt;br /&gt;Quer eles, os engenheiros da bomba universal&lt;br /&gt;e da universal gargalhada, gostem ou não&lt;br /&gt;queiram ou não queiram&lt;br /&gt;Eles, os que temem os poetas mais do que uma blenorragia&lt;br /&gt;(não é, amigo Ev?), &lt;br /&gt;eles os que não estão nada satisfeitos contigo&lt;br /&gt;e connosco, eles os do genocídio&lt;br /&gt;que não gostam de quem goste de se matar&lt;br /&gt;por conta própria, por única conta própria&lt;br /&gt;Mas queiram ou não queiram, gostem ou não gostem&lt;br /&gt;a evidência com que falamos disse tudo&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Meu Caro Evtuchenko&lt;br /&gt;Da tua bola que comparas à poesia&lt;br /&gt;eu também podia falar e no entanto&lt;br /&gt;aqui, neste lugar da terra, &lt;br /&gt;neste lugar de um mundo ainda com fronteiras&lt;br /&gt;e alguns (poucos) enigmas&lt;br /&gt;à tua bola com metáforas&lt;br /&gt;prefiro esta carta sem elas:&lt;br /&gt;a doutrina, meu caro, a doutrina é sempre pura&lt;br /&gt;e eu tenho a tua idade: 31 anos&lt;br /&gt;sem autobiografia precoce porque a felicidade não tem história&lt;br /&gt;e apesar do tédio, do futebol e do resto&lt;br /&gt;sou feliz&lt;br /&gt;A tua bola de futebol tão parecida à poesia&lt;br /&gt;porque tu as comparas&lt;br /&gt;continua a girar-me nos dedos&lt;br /&gt;e obriga-me a pensar: &lt;br /&gt;é preciso não ter país&lt;br /&gt;ou ser de um país mais violento de um país jovem&lt;br /&gt;de um país por nascer&lt;br /&gt;As dúvidas acumulam-se e não sei nada&lt;br /&gt;absolutamente nada das tuas certezas&lt;br /&gt;nem dos teus 31 anos sem nada de comum comigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admiro a tua linguagem e admiro-me&lt;br /&gt;que acredites na ternura&lt;br /&gt;«o único capital que vale a pena acumular» - dizes tu&lt;br /&gt;Apesar dos «pequenos cínicos»&lt;br /&gt;dos «pequenos dogmáticos»&lt;br /&gt;dos «pequenos arrivistas»&lt;br /&gt;e oportunistas&lt;br /&gt;apesar deles tu acreditas na ternura&lt;br /&gt;a que vier talvez na voz desconhecida&lt;br /&gt;talvez a que poisar levemente sobre o teu sono&lt;br /&gt;talvez a que dissemos apenas no papel&lt;br /&gt;porque o meu país não é o teu país&lt;br /&gt;embora a poesia seja o nosso comum país&lt;br /&gt;e o teu corpo robusto não é o meu corpo doente&lt;br /&gt;a tua memória tenaz que guarda milhares de versos&lt;br /&gt;e os diz às multidões&lt;br /&gt;não é nem será nunca a minha&lt;br /&gt;embora a tua idade seja a minha idade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui vai, Ev, a longa carta que te escrevi&lt;br /&gt;e não poderás ler&lt;br /&gt;porque amanhã haverá outros homens&lt;br /&gt;iguais aos que há hoje&lt;br /&gt;e o futuro&lt;br /&gt;o futuro continua a ter a forma &lt;br /&gt;de um enorme cogumelo envenenado&lt;br /&gt;pintado a néon e ao qual dão acesso&lt;br /&gt;as avenidas capitalistas de um lado&lt;br /&gt;os kolkoses e as comunas do outro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta carta nos meus versos&lt;br /&gt;falei de mim muitas vezes&lt;br /&gt;mas tu vens dizer que não é vergonha&lt;br /&gt;um poeta ser elegíaco e falar da morte&lt;br /&gt;uma vez ao menos em cada duas vezes&lt;br /&gt;onde afirma a vontade ou alegria de viver&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu podes dar-nos talvez uma linha de rumo&lt;br /&gt;uma ordem ao nosso caos&lt;br /&gt;um remédio à nossa vida sem sentido nem saída&lt;br /&gt;abrir as portas para a fraternidade possível&lt;br /&gt;nós que só temos a miséria das palavras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles hão-de estranhar&lt;br /&gt;que um poeta se autobiografe&lt;br /&gt;pois não calculas como são progressistas&lt;br /&gt;os críticos do meu país&lt;br /&gt;a tal ponto que monopolizaram em proveito único&lt;br /&gt;e próprio o próprio progresso&lt;br /&gt;Os críticos daí e os críticos daqui&lt;br /&gt;os pequeninos «ventres que escrevem»&lt;br /&gt;à espera do poeta e da sua impaciência &lt;br /&gt;(ou da sua doença?)&lt;br /&gt;confundem muito, coitados, &lt;br /&gt;diria mesmo que confundem tudo&lt;br /&gt;e quase todos têm os seus diplomas&lt;br /&gt;a sua bolsa de estudo&lt;br /&gt;a sua medalha de bom comportamento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sei o que fariam de ti se confessasses aqui&lt;br /&gt;entre-dentes e só metade&lt;br /&gt;das fraquezas ou dúvidas ou revoltas&lt;br /&gt;que na tua biografia confessas&lt;br /&gt;Não estou a cantar com isto a identidade de fados&lt;br /&gt;longe de mim a loucura &lt;br /&gt;de supor idênticas simetricamente idênticas&lt;br /&gt;as nossas circunstâncias&lt;br /&gt;pois de comum apenas temos a idade: 31 anos&lt;br /&gt;Tu és mundialmente famoso&lt;br /&gt;e eu faço por existir&lt;br /&gt;por esgaravatar até encontrar saída&lt;br /&gt;Mas a Terra - e só isso há de comum entre nós &lt;br /&gt;de redonda não tem porta de quintal&lt;br /&gt;nem talvez ponta por onde se pegue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizes que o Pasternak&lt;br /&gt;à despedida&lt;br /&gt;segundo um costume russo muito antigo&lt;br /&gt;te beijou na boca&lt;br /&gt;Dizes cada uma, meu caro&lt;br /&gt;dizes as coisas com tanta harmonia e despretensão&lt;br /&gt;que eu vou ver se acredito ou ouvi certo&lt;br /&gt;Enfim, costumes velhos - dizes tu &lt;br /&gt;e nem sequer me apetece contar-te&lt;br /&gt;como se beija na boca à portuguesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a virtude suprema da clareza&lt;br /&gt;contas a tua vida e em tudo o que tocas&lt;br /&gt;pões encanto&lt;br /&gt;por isso falaste por todos os que não podem&lt;br /&gt;pôr na voz a virtude suprema e encantadora da clareza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta - ao que parece - na pátria comum da poesia &lt;br /&gt;continua igual mas continua&lt;br /&gt;para nós a ser a luta da verdade&lt;br /&gt;« O poeta tem o dever de se apresentar&lt;br /&gt;aos leitores com os seus sentimentos&lt;br /&gt;actos e pensamentos (...)de se entregar&lt;br /&gt;impiedosamente, à sua verdade.»&lt;br /&gt;Se o dizes, não é assim tão grande o abismo&lt;br /&gt;nem tão impossível o diálogo&lt;br /&gt;a poesia ainda é para ti&lt;br /&gt;esta mística ponte da verdade&lt;br /&gt;para lá das fronteiras que dividem os homens&lt;br /&gt;e se viste erguer&lt;br /&gt;num bairro escondido de Moscovo&lt;br /&gt;«a gigantesca estátua à liberdade»&lt;br /&gt;que um louco teu amigo concebeu&lt;br /&gt;saberás que as  palavras são as mesmas:&lt;br /&gt;e se tu as disseste a tantos corações&lt;br /&gt;que da tua boca as ouviram&lt;br /&gt;não adianta repeti-las&lt;br /&gt;Mas quanto eu gostaria que me lesses, Ev&lt;br /&gt;ou que dissesses na tua voz ao teu povo os versos que escrevi&lt;br /&gt;doente&lt;br /&gt;e com os olhos talvez pisados&lt;br /&gt;de sono, de medo ou de lágrimas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;6/Agosto/1965&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AFONSO CAUTELA&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115476577519546886?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115476577519546886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115476577519546886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/carta-ievtuchenko.html' title='CARTA A IEVTUCHENKO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115459242451520182</id><published>2006-08-03T01:04:00.000-07:00</published><updated>2006-08-03T01:09:02.106-07:00</updated><title type='text'>CEPTROS NA ÁGUA</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-3 - sânscrito-va&gt; terça-feira, 7 de Janeiro de 2003-scan &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[In «Espaço Mortal», páginas 127-130]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;[3-8-1958]&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;SÂNSCRITO&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;« Todo o conhecimento intelectual é falso. Só a vida conhece a vida.»&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;ORÍGENES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os ceptros na água e um ditador imposto&lt;br /&gt;ou que no erradio de uma vida incerta&lt;br /&gt;morreu nos areais sem fim de um campo santo&lt;br /&gt;com vida imortal de artéria aberta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou a noite que é feto e madrugada&lt;br /&gt;a larga aba de palha de um chapéu solar&lt;br /&gt;Em vindo a morte acolho-me entre a vida&lt;br /&gt;e a vida de outra vida que criar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ventos e suor e névoa da montanha&lt;br /&gt;entre as incertas veredas do mistério&lt;br /&gt;Companheiros de água com asas de cegonha&lt;br /&gt;são cada vez mais sombra em cemitério&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vila adormeceu ninguém lhe vai tocar &lt;br /&gt;com o infusório dedo apodrecido &lt;br /&gt;Varrem-se as nucas de um festim antigo &lt;br /&gt;levam-se monstros marinhos a nadar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém as cartas do seu destino deita&lt;br /&gt;de si ninguém mais sabe do que o limbo &lt;br /&gt;ou que a santidade insatisfeita &lt;br /&gt;ou o carácter consumido de um cachimbo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem pão na terra nem sal térreo ao mar &lt;br /&gt;onde as formas se banham incompletas &lt;br /&gt;Só o bico dos astros a mamar &lt;br /&gt;nas fecundas de deus maternas tetas&lt;br /&gt;Ó nua avena rural do meu solar &lt;br /&gt;ó meu dúctil espanto de caverna antiga &lt;br /&gt;ó banho túmido de bordel e luar &lt;br /&gt;ó montanha cheia e sem cloaca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivo entre os altares da decadência&lt;br /&gt;revivo ao lume vivo da floresta&lt;br /&gt;levo comigo um ramo de consciência &lt;br /&gt;e ao Olho alfandegário a mala aberta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como na voz de galos irreais &lt;br /&gt;afundam-se os meus dedos na manhã &lt;br /&gt;escorre-me o cheiro da resina irmã &lt;br /&gt;pelo corpo dos meus dedos principais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou faminto e como escuridão &lt;br /&gt;moitas que o sol a jorros dessedente &lt;br /&gt;Esta fome de areia fulva e pão &lt;br /&gt;de que reis a herdei e de que mel descende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o funeral dos dias e o passo destas botas &lt;br /&gt;conheci o naufrágio em ritual de forca &lt;br /&gt;e componho na pauta nota a nota &lt;br /&gt;a sinfonia que é só de nome heróica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço acompanhado de três almas de santos &lt;br /&gt;subo entre as esferas &lt;br /&gt;componho um ramo de corpos imperfeitos &lt;br /&gt;metade flores metade feras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou a vista ardente de um marinheiro louro &lt;br /&gt;o pulso firme do leme que ele guia &lt;br /&gt;e a espuma branca que amanhece em oiro &lt;br /&gt;e o nascer na sua boca a luz do dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Solitária cinza entre corcéis de fogo &lt;br /&gt;navigabilidade hábil entre espinhos &lt;br /&gt;fogos fátuos na noite de um mar morto &lt;br /&gt;que é o labirinto interior destes caminhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suga-se a dor nas veias da mãe terra&lt;br /&gt;informa-se a vigia de que a angústia é finda &lt;br /&gt;Mas não há boca de amor que aceite a guerra &lt;br /&gt;e rasos de água os olhos meus ainda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;F., &lt;strong&gt;3/8/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115459242451520182?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115459242451520182/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115459242451520182' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115459242451520182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115459242451520182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/ceptros-na-gua.html' title='CEPTROS NA ÁGUA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115441896618917325</id><published>2006-08-01T00:54:00.000-07:00</published><updated>2006-08-01T00:56:06.200-07:00</updated><title type='text'>A 3 PASSOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-08-01-em&gt; - versos publicados em «espaço mortal», pgs 28 e 29 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOITE RECONSTITUÍDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, &lt;strong&gt;1/8/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a mosca procura quarto mau sinal&lt;br /&gt;e a noite nem sim nem não  a noite &lt;br /&gt;quando a bala se atira mau sinal da janela &lt;br /&gt;a ver quem vai quem fica  noctívago  perfurante&lt;br /&gt;nada remedeia  come-se &lt;br /&gt;aqui onde se come por mau hábito todos os dias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuro pensar na idade que tenho&lt;br /&gt;já vou tendo idade de pensar nisso e a morte &lt;br /&gt;a 3 passos o que é pena e vergonhoso &lt;br /&gt;num rapaz já homem  numa noite de verão &lt;br /&gt;dos bicos dos pés à cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém respondeu  recapitulo  a testa lírica &lt;br /&gt;vulgarizada  os regularmente anelídeos da fêmea &lt;br /&gt;que se desconhecem no macho  toda ela amizade &lt;br /&gt;e sangue frio  sangue  suga  sangue &lt;br /&gt;ou o desgaste das pedras hoje há subsídios &lt;br /&gt;e autorização para os suicídios &lt;br /&gt;justiça de raiz é justiça  falo  respiro &lt;br /&gt;nossa lei  nosso estatuto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nosso constitucional modo de não ser &lt;br /&gt;e de andar pedindo emprestado aos amigos &lt;br /&gt;em vindo a noite  perturbadas as pálpebras &lt;br /&gt;perfumados os clavicórdios  os moucos entalados &lt;br /&gt;num nariz sem nariz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camarada solar  nosso único vistoso cimo sem nuvens &lt;br /&gt;pisou-nos e pertencia por herança ao farol &lt;br /&gt;o primeiro  e a verdade que se tomou de muitas pernas &lt;br /&gt;como um raio de lua.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115441896618917325?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115441896618917325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115441896618917325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/08/3-passos.html' title='A 3 PASSOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115373003913333327</id><published>2006-07-24T01:27:00.000-07:00</published><updated>2006-07-24T01:37:01.630-07:00</updated><title type='text'>O RESTO É CÉU</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-07-24-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg.47 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALTER EGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;24/7/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa nave ao vento, amigo, &lt;br /&gt;a nossa sorte ao leme, &lt;br /&gt;quem não deve não teme &lt;br /&gt;e eu estou contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta janela, desta branca janela &lt;br /&gt;onde a noite se senta de mansinho, &lt;br /&gt;falo-te noite, falo-te amizade, &lt;br /&gt;para não estar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da nossa esperança unida &lt;br /&gt;aberta aos temporais, &lt;br /&gt;do vértice da vida &lt;br /&gt;reconhecemo-nos iguais.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;julho24-1671 caracteres - 1655 caracteres&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24/Julho/1988&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Una voz inteligente en el desierto de la lluvia e de las lágrimas&lt;br /&gt;Un hombre sensible entre los escombros de la esperanza e de la vida&lt;br /&gt;Una seduccíon en el camiño de la indiferencia &lt;br /&gt;de retorno a la infancia perdida&lt;br /&gt;el amor del espirito&lt;br /&gt;Una cancion de ternura en el centro de la guerra e del odio&lt;br /&gt;Un animal solitario pero solidario con la vida&lt;br /&gt;mas alla de la muerte&lt;br /&gt;nuestra madre&lt;br /&gt;nuestra hija querida&lt;br /&gt;En nombre de la muerte&lt;br /&gt;En nombre de la vida&lt;br /&gt;un narciso que se ama a si mesmo&lt;br /&gt;e contempla en las aguas mansas del olvido&lt;br /&gt;En nombre del hijo&lt;br /&gt;habla de todos los hijos&lt;br /&gt;tan solitários&lt;br /&gt;tan tristes&lt;br /&gt;tan bellos&lt;br /&gt;en el desierto de la lluvia e de las lágrimas&lt;br /&gt;en la encruzijada de la vida e de la muerte&lt;br /&gt;Un compañero &lt;br /&gt;sin compañero&lt;br /&gt;hablando en silencio &lt;br /&gt;dançando en silencio&lt;br /&gt;lançando al mar el SOS de la esperanza&lt;br /&gt;anunciando en que dia de la eternidad llegará&lt;br /&gt;la voz&lt;br /&gt;el alma&lt;br /&gt;el corazon que te escuche&lt;br /&gt;sin palabras&lt;br /&gt;el silencio te habla. &lt;br /&gt;+                                                                                    &lt;em&gt;61-07-24-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INIDENTIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro, &lt;strong&gt;24/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;onde vão beber os camarões de bronze&lt;br /&gt;não é o centro&lt;br /&gt;- a solidão -&lt;br /&gt;não são rosas a abrir&lt;br /&gt;enigmas  madrugada&lt;br /&gt;não é&lt;br /&gt;um círculo de palavras&lt;br /&gt;não é uma nora&lt;br /&gt;não é uma casa&lt;br /&gt;não é um arco&lt;br /&gt;um octógono de víboras&lt;br /&gt;não é um sulco de searas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;longas searas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em espiral&lt;br /&gt;ondas&lt;br /&gt;o mar&lt;br /&gt;O&lt;br /&gt;cavalo&lt;br /&gt;não é branco&lt;br /&gt;nem o vento é um arado&lt;br /&gt;e muito menos o sexo é uma flor&lt;br /&gt;de caule erecto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida não é &lt;br /&gt;uma razão de viver&lt;br /&gt;é um hábito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia não é&lt;br /&gt;a noite &lt;br /&gt;o tédio não é o sol&lt;br /&gt;os pinheiros não são os corações&lt;br /&gt;mais baratos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o tempo&lt;br /&gt;agarra-se deslumbrado &lt;br /&gt;ao cimo de um monte &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os monges procuram um piolho&lt;br /&gt;uma voz&lt;br /&gt;e movimentos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto é céu. &lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115373003913333327?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115373003913333327/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115373003913333327' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115373003913333327'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115373003913333327'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/o-resto-cu.html' title='O RESTO É CÉU'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115322222053268476</id><published>2006-07-18T04:25:00.000-07:00</published><updated>2006-07-18T04:30:20.543-07:00</updated><title type='text'>OPERÁRIO DOS DEUSES</title><content type='html'>&lt;em&gt;63-07-19-va&gt; versos inéditos de afonso cautela – teve também o título testamento&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAGOADOS DE TANTA ANGÚSTIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;19/7/1963&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magoados de tanta angústia&lt;br /&gt;cercados de tanta solidão &lt;br /&gt;mortos por tanta armas e emboscadas&lt;br /&gt;traídos por tanta decepção&lt;br /&gt;nós cantávamos&lt;br /&gt;porque o único recurso era cantar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vínhamos de muito longe&lt;br /&gt;de lá&lt;br /&gt;da liberdade que nos deu à luz&lt;br /&gt;de lá&lt;br /&gt; da luz que a dor dos homens faz&lt;br /&gt;quando ilumina o mundo&lt;br /&gt;e no entanto&lt;br /&gt;se chegámos vivos&lt;br /&gt;foi de certeza a morte que nos trouxe&lt;br /&gt;ou uma estrela longínqua &lt;br /&gt;a estrela mais próxima do pólo norte&lt;br /&gt;ou a nossa mãe&lt;br /&gt;talvez a nossa mãe&lt;br /&gt;a única que se lembrou de nós &lt;br /&gt;a única que nada prometera &lt;br /&gt;e tudo cumpriu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto cantámos&lt;br /&gt;esquecemo-nos da cidade vazia &lt;br /&gt;e cantámos&lt;br /&gt;esquecemo-nos dos crimes quotidianos &lt;br /&gt;e cantámos&lt;br /&gt;rasgámos os jornais que incendiavam o mundo &lt;br /&gt;e os ódios que incendiavam a esperança &lt;br /&gt;e a fome que incendiava a revolta &lt;br /&gt;e a justa cólera &lt;br /&gt;e cantámos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viemos de tão longe  &lt;br /&gt;mas logo bem cedo &lt;br /&gt;ainda jovens&lt;br /&gt;ainda quentes da primeira alvorada&lt;br /&gt;do primeiro beijo do primeiro amor&lt;br /&gt;como se não soubéssemos de mais nada&lt;br /&gt;cantámos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a vida foi um pesadelo&lt;br /&gt;e a noite nos encaminhou&lt;br /&gt;levando-nos consigo para a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se as coisas e as crianças&lt;br /&gt;estavam vivas e no entanto mortas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se nunca existiu esse país&lt;br /&gt;esse impossível país de paz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e em vez dos deuses prometidos &lt;br /&gt;foi o deus da morte que nos deram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto nós que esperávamos &lt;br /&gt;e tínhamos na voz um timbre nobre &lt;br /&gt;um timbre belo&lt;br /&gt;um timbre puro&lt;br /&gt;em vez de falar&lt;br /&gt;cantámos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai longe esse dia&lt;br /&gt;o nosso primeiro  e último dia de amor&lt;br /&gt;agora que apenas vozes roucas&lt;br /&gt;e discursos solenes&lt;br /&gt;se ouvem&lt;br /&gt;em vez da nossa voz&lt;br /&gt;em vez do nosso cântico&lt;br /&gt;em vez do nosso amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acoçados tantos de nós pela fome&lt;br /&gt;acoçados todos pela dor&lt;br /&gt;remetidos ao buraco lúcido da nossa solidão&lt;br /&gt;metralhados de mentira e morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cercados de ódio e tédio &lt;br /&gt;cercados de raiva e nojo&lt;br /&gt;sem uma última droga que nos salve &lt;br /&gt;que nos mate e nos leve &lt;br /&gt;antes que nos matem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem álcool sem morfina&lt;br /&gt;que nos permita bêbados esquecer&lt;br /&gt;e não endoidecer&lt;br /&gt;rezamos uma oração diária&lt;br /&gt;em silêncio&lt;br /&gt;uma oração de espanto e de agonia lenta&lt;br /&gt;em silêncio&lt;br /&gt;uma oração de sono e só de cinzas feita &lt;br /&gt;e de silêncio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nem nos lembram os nossos pacíficos avós&lt;br /&gt;que pelas estradas do mundo diziam bom dia&lt;br /&gt;e convidavam os vizinhos para colher em Abril &lt;br /&gt;no pomar a primeira frita madura&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-07-19-va&gt; - versos inéditos de afonso cautela - 3072 bytes julº19-i&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;OPERÁRIO DOS DEUSES &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;19/7/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somos hoje espírito incandescente&lt;br /&gt;somos lenços acenados na viagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está contra nós o tempo &lt;br /&gt;esse companheiro de tantas noites &lt;br /&gt;que nos protege da esperança&lt;br /&gt;como de uma terrível ameaça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um canto da cozinha&lt;br /&gt;o espanto espera também a sua vez&lt;br /&gt;e vai molhando algodão em rama&lt;br /&gt;aqui mesmo na profundidade &lt;br /&gt;de cada raiva e de cada raiz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo este de maldição e vício&lt;br /&gt;de alcoólicos no ódio &lt;br /&gt;poderosos&lt;br /&gt;na vingança da contra-ofensiva&lt;br /&gt;da liberdade única &lt;br /&gt;perdida&lt;br /&gt;mas o vento, esse,&lt;br /&gt;companheiro de intérminas viagens&lt;br /&gt;esse está perto&lt;br /&gt;protege da oxidação a nossa esperança&lt;br /&gt;agora que tem rosto&lt;br /&gt;e corpo&lt;br /&gt;quase sonda no espaço do infinito&lt;br /&gt;uma casa habitável&lt;br /&gt;o nosso finito modo de ser humanos&lt;br /&gt;e sós&lt;br /&gt;sem temer a morte&lt;br /&gt;sem desejar o amor&lt;br /&gt;sem recear a solidão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o barco é mais doido agora&lt;br /&gt;por este vale de sombras açoitado&lt;br /&gt;de suspeitos inimigos invadido&lt;br /&gt;de feras fraternais espreitando&lt;br /&gt;até aos dentes armadas &lt;br /&gt;de uma profunda tristeza&lt;br /&gt;de uma missão mortal &lt;br /&gt;de uma lembrança cativa de passados remotos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na galé de silêncio &lt;br /&gt;podem calar-nos&lt;br /&gt;O mar da História é também silêncio&lt;br /&gt;amor e solidão e liberdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperamos a um canto&lt;br /&gt;onde o espanto também espera&lt;br /&gt;que o amor e a liberdade tenham um rosto&lt;br /&gt;diferente &lt;br /&gt;como o do sol&lt;br /&gt;operário dos deuses &lt;br /&gt;a cargo das mais remotas tarefas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gigantesco oráculo dividindo no ar&lt;br /&gt;a solidão de todos os seres&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115322222053268476?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115322222053268476'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115322222053268476'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/operrio-dos-deuses.html' title='OPERÁRIO DOS DEUSES'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115287176317671970</id><published>2006-07-14T03:07:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T03:09:23.176-07:00</updated><title type='text'>BRINCANDO</title><content type='html'>&lt;em&gt;bae-1&gt; = brincando às energias &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;14-7-1995&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 14: Yoga suástica &lt;br /&gt;Às 15 : Sessão de acupunctura &lt;br /&gt;Às 16: Massagem shiatsu&lt;br /&gt;Às 17: Ritual de Chi Cung com a Drª Deolinda &lt;br /&gt;Às 18: Ritual xamânico &lt;br /&gt;Às 19: Reunião das megatendências&lt;br /&gt;às 20: Palestra na Sociedade Teosófica de Portugal&lt;br /&gt;às 21: intervalo para jantar&lt;br /&gt;às 22: Reflexoterapia do pé&lt;br /&gt;às 23: Reiki c/ imposição de mãos &lt;br /&gt;às 23 : Tai chi Chuan&lt;br /&gt;às 24: Ritual xamânico &lt;br /&gt;à 1 da manhã: Sessão de espiritismo&lt;br /&gt;às 2 da madrugada: reunião no Ordem Rosa Cruz&lt;br /&gt;às 3 da madrugada: leitura do Tarô com o Dr. Vítor Quelhas &lt;br /&gt;às 4 da madrugada: consulta no Silva Mind Control &lt;br /&gt;às 5 da madrugada: Maha Yoga&lt;br /&gt;às 6 da manhã: Ginástica no Geiarca&lt;br /&gt;às 7 da manhã: Reunião no templo Saibaba&lt;br /&gt;às 8 da manhã:&lt;br /&gt;às 9 da manhã:&lt;br /&gt;às 10 da manhã: &lt;br /&gt;às 11 da manhã:&lt;br /&gt;às 12 horas:&lt;br /&gt;às 13 horas:&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115287176317671970?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115287176317671970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115287176317671970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/brincando.html' title='BRINCANDO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115287164086520061</id><published>2006-07-14T03:03:00.000-07:00</published><updated>2006-07-14T03:07:20.873-07:00</updated><title type='text'>UMA SERPENTE</title><content type='html'>&lt;em&gt;58-07-14-vi&gt; versos inéditos de afonso cautela – 1958&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA SERPENTE ALONGA-SE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, &lt;strong&gt;14/Julho/58&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma serpente alonga-se na rua&lt;br /&gt;e retroceder é impossível&lt;br /&gt;os intestinos do réptil são corredores&lt;br /&gt;e a água, dia a dia, sobe o nível&lt;br /&gt;Demasiado tarde vencedores&lt;br /&gt;a serpente voa e vagarosa avança.&lt;br /&gt;O trigo está por nós&lt;br /&gt;e o ar respira-nos.&lt;br /&gt;Vou-me embora até Malaca&lt;br /&gt;no lombo de um elefante&lt;br /&gt;o elefante teve um furo&lt;br /&gt;e os pobres têm barraca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou para a Nova Zelândia&lt;br /&gt;antípoda da de cá&lt;br /&gt;nasci que raio de azar&lt;br /&gt;na merdolândia&lt;br /&gt;nasci na terra do Caracacá.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115287164086520061?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115287164086520061'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115287164086520061'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/uma-serpente.html' title='UMA SERPENTE'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115260441765400186</id><published>2006-07-11T00:48:00.001-07:00</published><updated>2006-07-11T00:55:20.486-07:00</updated><title type='text'>O TEMPO ACORDA</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-3- 4352 bytes -julº11&lt;/em&gt;&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro-Tavira, &lt;strong&gt;11/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Então a dúvida dorme&lt;br /&gt;e o tempo acorda&lt;br /&gt;na última manhã&lt;br /&gt;em que estivemos sós&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um barco de quatro remos&lt;br /&gt;as nossa bocas&lt;br /&gt;molhando-se&lt;br /&gt;mas é em vão que se procuram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças brincam ao sol&lt;br /&gt;ou brincam com o sol?&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Nessa taça sangrenta&lt;br /&gt;mergulhei cinco dedos de violência&lt;br /&gt;estávamos perdidos&lt;br /&gt;e queimados&lt;br /&gt;tínhamos mais dor viva&lt;br /&gt;do que os deuses sacrifícios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que terrível paz&lt;br /&gt;a de uma cadeira dormindo&lt;br /&gt;não batia nos berços&lt;br /&gt;não cedia um grama na descida&lt;br /&gt;ao báratro dos anos&lt;br /&gt;não financiava a greve&lt;br /&gt;dos meus vinte sentidos sublevados&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;O amianto de passar na rua luzindo&lt;br /&gt;e todos os olhos em nós&lt;br /&gt;os olhos da hostilidade&lt;br /&gt;é porque não somos nada&lt;br /&gt;sempre com um pranto de rosas a comover o povo&lt;br /&gt;sempre à margem dos que sofrem&lt;br /&gt;sempre iguais a nós próprios&lt;br /&gt;fiéis à nossa infidelidade&lt;br /&gt;sempre um corpo na foz a desfazer-se&lt;br /&gt;sempre a agonia&lt;br /&gt;e os nossos ombros tristes&lt;br /&gt;esse cair da tarde dos nossos ombros tristes&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Que me perguntem se choro&lt;br /&gt;que me perguntem se me perdi&lt;br /&gt;que me perguntem se o pântano secou&lt;br /&gt;A resposta está em ti&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria era não saber&lt;br /&gt;não ter remorsos&lt;br /&gt;era andar às escuras&lt;br /&gt;e em todas as estações não ter amigos&lt;br /&gt;era não beber lágrimas&lt;br /&gt;ou não saber dar-lhes um conteúdo decifrável&lt;br /&gt;era o miolo de sol&lt;br /&gt;desfarelando-se nas mãos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio desta esfera&lt;br /&gt;de noite&lt;br /&gt;de vidro&lt;br /&gt;de lágrimas&lt;br /&gt;o som&lt;br /&gt;deste fruto&lt;br /&gt;de morte&lt;br /&gt;de instinto&lt;br /&gt;de luz&lt;br /&gt;uma voz&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;Para a nossa contabilidade&lt;br /&gt;não vem ao caso a sombra&lt;br /&gt;e a luz desce ao nível médio dos olhos&lt;br /&gt;Nas relações dos que se odeiam é tudo mais fácil&lt;br /&gt;do que flutuar num aquário&lt;br /&gt;É tudo mais simples&lt;br /&gt;entre os que se odeiam&lt;br /&gt;Mudar de ópio é inteligente&lt;br /&gt;este ofício de mar desgasta&lt;br /&gt;leva à cova o pobre diabo que ama&lt;br /&gt;e a solidão afinal foi sempre nossa amiga&lt;br /&gt;foi o último amigo a trair&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estendo-me ao comprido&lt;br /&gt;e começo a compreender que apodreço&lt;br /&gt;Do poente um véu leve de nuvens&lt;br /&gt;prende alguns sonhos que eram ventos&lt;br /&gt;a caminho das praias do sul&lt;br /&gt;Mas o véu rasga-se esgarçam-se as nuvens&lt;br /&gt;e as últimas pontas deixam um sinal azulado&lt;br /&gt;na cara um sabor a cinza&lt;br /&gt;o sabor a tédio de sempre&lt;br /&gt;Vamos dar a uma baía com muita gente&lt;br /&gt;onde a morte habitualmente aparece ao fim da tarde&lt;br /&gt;Talvez por nós é que a vida escureceu&lt;br /&gt;e parecia uma daquelas tempestades de mar&lt;br /&gt;que se levantam sem ninguém dar por isso de repente&lt;br /&gt;Esse lobo do mar saberá histórias mais belas&lt;br /&gt;mas nenhuma é mais simples que a nossa&lt;br /&gt;Não há história mais simples do que o nosso ódio&lt;br /&gt;e tão bem contada todos os dias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se é verdade que há mais dias para os homens&lt;br /&gt;do que ondas no mar da eternidade&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-07-11-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS CRIANÇAS BRINCAM AO SOL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11-7-1961&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(versão abreviada teclada de propósito para coincidir com as anotações de Casimiro de Brito/Gastão Cruz )&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crianças brincam ao sol&lt;br /&gt;Ou brincam com o sol?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;E que terrível paz&lt;br /&gt;A de uma cadeira dormindo.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;O amianto de passar na rua&lt;br /&gt;Sem ser visto.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Não somos nada&lt;br /&gt;Sempre com um pranto de rosas&lt;br /&gt;A comover o povo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre à margem dos que sofrem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre iguais a nós próprios&lt;br /&gt;Fiéis à nossa infidelidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre um corpo na foz a desfazer-se&lt;br /&gt;Sempre a agonia e os nossos ombros&lt;br /&gt;O cair triste da tarde&lt;br /&gt;Dos nossos ombros&lt;br /&gt;Tristes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me perguntem se traí&lt;br /&gt;A resposta era andar às escuras&lt;br /&gt;E em todas as estações não ter amigos&lt;br /&gt;A resposta é beber as lágrimas&lt;br /&gt;Saber dar ao tédio um conteúdo&lt;br /&gt;A resposta será um miolo de sol&lt;br /&gt;Esfarelando-se-me nas mãos.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;É tudo mais fácil&lt;br /&gt;Nas relações dos que se ignoram&lt;br /&gt;é tudo mais simples&lt;br /&gt;entre os que se desconhecem&lt;br /&gt;e eu estou simplesmente cansado de amar&lt;br /&gt;a solidão afinal&lt;br /&gt;foi o último amigo a trair.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta esfera&lt;br /&gt;de noite&lt;br /&gt;de vidro&lt;br /&gt;de lágrimas&lt;br /&gt;o som&lt;br /&gt;deste fruto&lt;br /&gt;de morte&lt;br /&gt;de instinto&lt;br /&gt;de luz.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Acordo e começo a compreender&lt;br /&gt;que apodreço.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Do poente vem um véu&lt;br /&gt;Leve de nuvens&lt;br /&gt;E prende alguns sonhos&lt;br /&gt;Que podiam ser ventos&lt;br /&gt;A caminho das praias do sul&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente o véu rasga-se&lt;br /&gt;Esgarçam-se as nuvens&lt;br /&gt;Cai um sinal azul&lt;br /&gt;Na baía sem ninguém&lt;br /&gt;E de repente a vida escureceu&lt;br /&gt;E parecia uma daquelas tempestades do mar&lt;br /&gt;Que se levantam de repente.&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115260441765400186?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115260441765400186/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115260441765400186' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115260441765400186'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115260441765400186'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/o-tempo-acorda_11.html' title='O TEMPO ACORDA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115251667465763218</id><published>2006-07-10T00:28:00.000-07:00</published><updated>2006-07-10T00:31:14.666-07:00</updated><title type='text'>PRAÇA CAMÕES</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-2 - repórter de rua - segunda-feira, 6 de Janeiro de 2003 - 66-07-10-va&gt; -1966-II&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRAÇA LUÍS DE CAMÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;10/7/1966&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda  que não deva&lt;br /&gt;pelo respeito que te devo&lt;br /&gt;como português - oh épico - &lt;br /&gt;estou aqui a escrever-te&lt;br /&gt;ou melhor&lt;br /&gt;a falar-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem se canse por menos &lt;br /&gt;e - desculpa meu caro Luís - &lt;br /&gt;nem o meu desejo é acusar-te.&lt;br /&gt;Só que ao ver os pombos nos teus ombros&lt;br /&gt;os necessitados pombos&lt;br /&gt;que nunca a ti em vão recorrem&lt;br /&gt;me sinto de ciúmes possuído&lt;br /&gt;e chego (vê tu) a invejar-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acaso conheceste tu a solidão&lt;br /&gt;agora que conheces &lt;br /&gt;a meio da canícula&lt;br /&gt;a relva fresca &lt;br /&gt;em meio da qual relva foram pôr-te?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceste tu acaso o misantropo travo&lt;br /&gt;de estar em Portugal&lt;br /&gt;exilado em mil e 9 centos?&lt;br /&gt;O susto de dobrar a esquina&lt;br /&gt;sem dobrar a espinha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh épico meu&lt;br /&gt;e cuidadoso adorno &lt;br /&gt;das manhãs na praça&lt;br /&gt;a dedilhar miolos (de pão) &lt;br /&gt;bagos de milho e trigo &lt;br /&gt;para alimentar os teus cordeiros&lt;br /&gt;os pombos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh épico de soturna compostura&lt;br /&gt;posto aí assim por municipal postura&lt;br /&gt;é certo&lt;br /&gt;mas em sítio visível e amável e austero&lt;br /&gt;deixa que eu vede o acesso&lt;br /&gt;aos pombos e carteiros da estação em frente&lt;br /&gt;caixeiros e ardinas&lt;br /&gt;funcionários de regresso das cantinas&lt;br /&gt;operários que descem às latrinas (do Camões)&lt;br /&gt;e guardas das sentinas de ali perto&lt;br /&gt;deixa que eu vede o recinto de erva fresca e verde &lt;br /&gt;e sonhe contigo só as glórias &lt;br /&gt;que só agora  - séculos depois de morto - conheceste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é o segredo&lt;br /&gt;oh épico &lt;br /&gt;de (sobre)viver para lá de uma vida&lt;br /&gt;tão estúpida como amarga&lt;br /&gt;que levaste a ser grande&lt;br /&gt;uma vida de entornar o leite e partir o copo &lt;br /&gt;(de partir o copo e entornar o leite)&lt;br /&gt;sem haver logo quem nos parta a cara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou (sabes?) empregado da leitaria &lt;br /&gt;com o teu nome - Camões - &lt;br /&gt;na praça onde vives&lt;br /&gt;no solo onde estás séculos depois de morto&lt;br /&gt;e sonho o dia em que o patrão me despeça&lt;br /&gt;para só me deitar na relva aos teus pés&lt;br /&gt;não por ti oh épico (desculpa lá mais esta) &lt;br /&gt;mas pela relva que em Agosto é fresca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Post-Scriptum: Desejo às vezes&lt;br /&gt;assassinar alguém&lt;br /&gt;matar, mentir, partir e destruir seja o que for&lt;br /&gt;porquê oh épico&lt;br /&gt;porquê se a tua relva é fresca &lt;br /&gt;e faz calor?&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115251667465763218?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115251667465763218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115251667465763218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/praa-cames.html' title='PRAÇA CAMÕES'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115235754079161045</id><published>2006-07-08T04:09:00.000-07:00</published><updated>2006-07-08T04:21:09.366-07:00</updated><title type='text'>LARGAS AVENIDAS</title><content type='html'>&lt;em&gt;61-07-08-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÃO LONGAS E LARGAS AS NOSSAS AVENIDAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 8-8-1961 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São longas e largas as nossas avenidas&lt;br /&gt;A cal por vezes vem iluminar de branco&lt;br /&gt;As casas&lt;br /&gt;Aquelas casas sem lâmpada &lt;br /&gt;Que os olhos azuis do René (*) alumiavam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a nossa memória aguada de burgueses &lt;br /&gt;Não nos permite lembrar com frequência&lt;br /&gt;A fastidiosa dialéctica das classes&lt;br /&gt;E dormimos&lt;br /&gt;Só os do rés-do-chão se queixam &lt;br /&gt;Dos que arrastam cadeiras no andar de cima&lt;br /&gt;De resto não há razão para se considerarem infelizes&lt;br /&gt;E acontece que ninguém á capaz&lt;br /&gt;De pensar muito tempo num problema&lt;br /&gt;Nem de ser muito tempo infeliz &lt;br /&gt;----   &lt;br /&gt;(*) René Guy Cadou &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* &lt;br /&gt;Não estou mesmo nada revoltado &lt;br /&gt;Com os acontecimentos&lt;br /&gt;E até vou colaborar (com quem?)&lt;br /&gt;Quero esgotar em paz o meu &lt;br /&gt;«último quarto de hora» (e vocês?) &lt;br /&gt;a revolta que sinto é puramente &lt;br /&gt;uma revolta intestina&lt;br /&gt;porque isto do futuro mesmo rente ao nariz&lt;br /&gt;não deixa tempo nenhum para a gente se mexer&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Planos meus amigos? &lt;br /&gt;«Na outra margem, entre as árvores»&lt;br /&gt;há um caçador que ainda é fábula&lt;br /&gt;um tiro&lt;br /&gt;Planos meus amigos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos dormir&lt;br /&gt;até amanhã &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Onde está o íman &lt;br /&gt;O pé que ninguém pisasse&lt;br /&gt;A palavra que ninguém contaminou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espaço em branco&lt;br /&gt;O país prometido?&lt;br /&gt;Talvez na barriga da baleia &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Nessa cadeira onde o meu corpo se alongou &lt;br /&gt;Como um sobretudo abandonado &lt;br /&gt;Perguntei-te em voz baixa&lt;br /&gt;«Tens a certeza?» &lt;br /&gt;«Tenho. Tenho a certeza»&lt;br /&gt;respondeste&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A nossa solução &lt;br /&gt;é uma violenta dor de dentes &lt;br /&gt;A extrair com dor&lt;br /&gt;E sem droga. &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Uma lua &lt;br /&gt;Minguante &lt;br /&gt;A crescer&lt;br /&gt;Uma floresta nua &lt;br /&gt;Ainda virgem &lt;br /&gt;* &lt;br /&gt;Eles têm razão &lt;br /&gt;Quando perguntam: &lt;br /&gt;«Que faz ele? &lt;br /&gt;Porque não dorme?&lt;br /&gt;Porque tem a luz toda a noite acesa? &lt;br /&gt;Porque está devorando&lt;br /&gt;O papel de palavras aflitas?&lt;br /&gt;Porque não é feliz?» &lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Contra a guerra o silêncio&lt;br /&gt;a greve do silêncio&lt;br /&gt;apenas o silêncio&lt;br /&gt;e para a fome de pão&lt;br /&gt;e para a sede de água&lt;br /&gt;um resto de silêncio&lt;br /&gt;silêncio é a revolta&lt;br /&gt;na volta do correio&lt;br /&gt;silêncio as cartas&lt;br /&gt;que te escrevo&lt;br /&gt;silêncio a pronta&lt;br /&gt;a infinita confiança&lt;br /&gt;silêncio o sono&lt;br /&gt;silêncio os beijos&lt;br /&gt;silêncio &lt;br /&gt;diálogo sem fim &lt;br /&gt;Tudo vinha em silêncio &lt;br /&gt;No tapete voador &lt;br /&gt;Pintado ao fundo da casa:&lt;br /&gt;Um castelo e as fábricas&lt;br /&gt;E do que andámos até ser noite&lt;br /&gt;Dos sonhos que fizeram arranhões num joelho&lt;br /&gt;Dos ninhos quentes escondidos &lt;br /&gt;No bolso&lt;br /&gt;Tudo vinha em silêncio&lt;br /&gt;No tapete voador &lt;br /&gt;Pintado ao fundo da casa. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-07-08-VS&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É EM SILÊNCIO A NOSSA LÍNGUA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(versão  mais  abreviada de «são longas e largas as nossas avenidas»)  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;7/8/7/1961&lt;/strong&gt; (??)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É em silêncio a nossa língua&lt;br /&gt;e quem pede à alegria que se ria&lt;br /&gt;ou à tristeza que chore?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a nossa fome repartimos ainda&lt;br /&gt;um último pão de silêncio&lt;br /&gt;a água fresca do silêncio&lt;br /&gt;ainda mata a sede&lt;br /&gt;a nossa pouca sede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das palavras direi só as que não pesam&lt;br /&gt;as que são papagaios de papel &lt;br /&gt;nas mãos das nossas vilas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Direi que no silêncio &lt;br /&gt;singram barcos verdadeiros &lt;br /&gt;os únicos que significam, por exemplo, &lt;br /&gt;as palavras mais simples:&lt;br /&gt;coragem ou amigo.&lt;br /&gt;O tédio é que tem muitas palavras&lt;br /&gt;e os romancistas nas suas novelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O operário tange na sinagoga&lt;br /&gt;um lápis&lt;br /&gt;e faz as contas dos filhos&lt;br /&gt;e o poeta tange a sua vingança&lt;br /&gt;em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contra trinta mil discursos&lt;br /&gt;o silêncio&lt;br /&gt;contra as perfeitas espadas&lt;br /&gt;contra a guerra e as chagas&lt;br /&gt;o silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora por silêncio&lt;br /&gt;lembrei-me de um castelo&lt;br /&gt;das fábricas&lt;br /&gt;do que andámos até ser noite&lt;br /&gt;dos sonhos que fizeram arranhões num joelho&lt;br /&gt;dos ninhos quentes escondidos no bolso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo veio no silêncio&lt;br /&gt;tudo veio em silêncio&lt;br /&gt;nesse tapete voador &lt;br /&gt;que eles pintaram ao fundo da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio as cartas das mães &lt;br /&gt;que escrevem com a tinta azul clara da saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio é sempre a revolta &lt;br /&gt;na volta do correio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pronta&lt;br /&gt;a infinita confiança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio o sono que transpira&lt;br /&gt;a toupeira de olhos brilhantes &lt;br /&gt;os beijos clandestinos&lt;br /&gt;que vivem a sua história de asas no infinito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio &lt;br /&gt;é um diálogo sem fim.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-07-08-em&gt; versos publicados em «espaço mortal», pg. 48 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ALMA DE NADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo, &lt;strong&gt;8/7/1958&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai, água do mar, &lt;br /&gt;como quem sente prender-se &lt;br /&gt;um espinho de roseira &lt;br /&gt;sem olhar. &lt;br /&gt;Vai, noivo das espigas &lt;br /&gt;e das madrugadas, &lt;br /&gt;vai, espuma de prata e lume, &lt;br /&gt;tens capacidade para alterar a morte&lt;br /&gt;e às lâminas o gume, &lt;br /&gt;vai, toalha e lenço &lt;br /&gt;nos olhos mal abertos, &lt;br /&gt;vai parar de susto o vento, &lt;br /&gt;vai e muda a rota do silêncio, &lt;br /&gt;no espaço onde a geometria perde as leis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É no labor seguro e combatente &lt;br /&gt;de uma teia &lt;br /&gt;que a liberdade cria asas &lt;br /&gt;e resiste.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-07-08-VA&gt;&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira, &lt;strong&gt;8/Julho/1958&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem sente prender-se&lt;br /&gt;um espinho de roseira&lt;br /&gt;sem olhar&lt;br /&gt;Vai&lt;br /&gt;noivo das espigas e das madrugadas&lt;br /&gt;vai espuma de prata e lume&lt;br /&gt;tens capacidade para alterar a morte&lt;br /&gt;e às lâminas o gume&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115235754079161045?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115235754079161045/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115235754079161045' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115235754079161045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115235754079161045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/largas-avenidas.html' title='LARGAS AVENIDAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115226635004142500</id><published>2006-07-07T02:56:00.000-07:00</published><updated>2006-07-07T02:59:10.053-07:00</updated><title type='text'>ORÁCULO DE DEZ CARAS</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;61-07-07-vs-vl&gt; 1-3 5120 bytes julº-7&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA DE UM CONDENADO À MORTE AOS SEUS QUERIDOS CARCEREIROS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 7/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esgoto em paz o meu «último quarto de hora»&lt;br /&gt;mais satisfeito do que um rato&lt;br /&gt;a quem deram o exclusivo de um buraco&lt;br /&gt;num bocado de queijo parmesão&lt;br /&gt;mais feroz que o leão&lt;br /&gt;a quem não pentearam a jaula&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São longas e largas as vossas avenidas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há toureiros felizes nos passeios&lt;br /&gt;cantando olés&lt;br /&gt;a prometedoras meninas de coro&lt;br /&gt;mais tarde casadoiras&lt;br /&gt;ou à frente dos exércitos de salvação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podem parecer perdizes essa sombras&lt;br /&gt;mas não são&lt;br /&gt;servem apenas de alvos para atirar&lt;br /&gt;completam o pomar do jardim zoológico&lt;br /&gt;o único que existe na cidade&lt;br /&gt;onde eu ia muitas vezes passear&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cal, essa, é que ainda ilumina as casas pobres&lt;br /&gt;aquelas casas sem lâmpada que eu distingo&lt;br /&gt;ao crepúsculo&lt;br /&gt;e que os olhos azuis do René iluminavam&lt;br /&gt;A vossa memória aguada de burgueses&lt;br /&gt;não vos permite lembrar muitas das vezes&lt;br /&gt;essa fastidiosa dialéctica de classes&lt;br /&gt;Só os condenados como eu&lt;br /&gt;só os do rés-do-chão que não se queixam&lt;br /&gt;só os que arrastam cadeiras no andar de cima&lt;br /&gt;não vão ter remissão&lt;br /&gt;De resto, meus caros, não há razão para se considerarem mal pagos&lt;br /&gt;infelizes ou situados na margem&lt;br /&gt;Acontece é que ninguém é capaz de pensar muito num problema&lt;br /&gt;e muito menos nesse das classes&lt;br /&gt;Há funcionários, creio eu, especializados&lt;br /&gt;para isso mesmo&lt;br /&gt;para pensarem os problemas que dão muito trabalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A revolta que eu sinto&lt;br /&gt;tem que ver com os nervos&lt;br /&gt;já o disse&lt;br /&gt;mas também com o cinto de castidade&lt;br /&gt;e os intestinos&lt;br /&gt;pelo que se trata naturalmente de uma revolta intestina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou nada impressionado com os acontecimentos&lt;br /&gt;podeis crer&lt;br /&gt;e até se quiserem e me chamarem vou colaborar:&lt;br /&gt;estou aqui para as encomendas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no fim do meu «último quarto de hora»&lt;br /&gt;e é como se o relógio tivesse parado&lt;br /&gt;à frente de um grão de areia&lt;br /&gt;engasgado&lt;br /&gt;Depois o futuro mesmo rente ao nariz&lt;br /&gt;obriga-me a fungar de vez&lt;br /&gt;e não deixa espaço nenhum para eu me mexer&lt;br /&gt;eu que sempre gostei de espaços amplos e de campinas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roubaram-me ainda agora o casaco do vestíbulo&lt;br /&gt;os malandros&lt;br /&gt;e aqui estou sem saber o que fazer da liberdade&lt;br /&gt;absoluta que vou ter daqui a um quarto de hora&lt;br /&gt;Rebentou - quando eu morrer - o dique que aguentava as águas alterosas&lt;br /&gt;e a Holanda vai ficar inundada&lt;br /&gt;de gente em polvorosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Planos, meus amigos?&lt;br /&gt;Vou para a «outra margem, entre as árvores»&lt;br /&gt;para fazer a vontade a um escritor que deu esse título a um livro&lt;br /&gt;há lá, aliás, um pescador que ainda é fábula&lt;br /&gt;e que nunca na vida esteve aflito&lt;br /&gt;que nunca na vida deu um tiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Planos, meus amigos?&lt;br /&gt;Vamos dormir um pouco, sim,&lt;br /&gt;vamos serenar&lt;br /&gt;entregar a vida a quem merece&lt;br /&gt;e até amanhã&lt;br /&gt;Não me vão faltar - já cá faltava! -&lt;br /&gt;caixeiros-viajantes do Impossível&lt;br /&gt;a vender-me produtos&lt;br /&gt;parando ao largo dos espaços marinhos&lt;br /&gt;a meter gasolina como quem mete óleo na barriga da baleia&lt;br /&gt;porque é mais barato&lt;br /&gt;Não faltam neste estômago&lt;br /&gt;corredores de petróleo&lt;br /&gt;ténias persistentes&lt;br /&gt;saprófitas de beiço em chaga&lt;br /&gt;com o nome de capitalistas reincidentes&lt;br /&gt;Não me vão faltar vómitos de luz&lt;br /&gt;ouvindo-se num disco&lt;br /&gt;e muito menos o íman sem contacto&lt;br /&gt;onde está inscrita a teoria da gravitação universal&lt;br /&gt;onde está o selo a seguir ao sétimo&lt;br /&gt;onde está um dedo do pé que ninguém pisasse&lt;br /&gt;a palavra que ninguém contaminou&lt;br /&gt;o espaço em branco&lt;br /&gt;o país prometido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procurem na barriga da baleia&lt;br /&gt;quem sabe&lt;br /&gt;talvez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115226635004142500?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115226635004142500'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115226635004142500'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/orculo-de-dez-caras.html' title='ORÁCULO DE DEZ CARAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115217258970623056</id><published>2006-07-06T00:52:00.000-07:00</published><updated>2006-07-06T01:15:00.913-07:00</updated><title type='text'>O PAÍS</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;1-3 quarta-feira, 8 de Janeiro de 2003-novo word - 5888 bytes &lt;julº-6-i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA AOS PÁSSAROS DE ISRAEL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;6/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se vocês quiserem&lt;br /&gt;pássaros meus inimigos&lt;br /&gt;vamos para esse país&lt;br /&gt;não se pode chamar a isto viver&lt;br /&gt;mas vai-se com a graça de deus&lt;br /&gt;na desgraça e para maior glória de alguns deuses.&lt;br /&gt;A linha Maginot passou por aqui&lt;br /&gt;demorou-se pouco e disse que voltava&lt;br /&gt;que já vinha&lt;br /&gt;ia só por um refresco&lt;br /&gt;mas vocês&lt;br /&gt;pássaros estrangeiros&lt;br /&gt;sabeis que é mentira.&lt;br /&gt;Eu tenho de acreditar&lt;br /&gt;assim o prescreve a minha constituição&lt;br /&gt;e faço lei dos sobejos:&lt;br /&gt;Tens exactamente um minuto de vida&lt;br /&gt;nem as vinte e quatro horas que são usuais&lt;br /&gt;nestas circunstâncias&lt;br /&gt;nem um padre a dar-me de roer ácidos&lt;br /&gt;pois qualquer me servia&lt;br /&gt;e por companheiros os tigres que os meus dedos&lt;br /&gt;ou os meus olhos podiam domesticar.&lt;br /&gt;Fora do alcance dos juizes&lt;br /&gt;recobrei a rosa dos ventos&lt;br /&gt;essa foi a minha última vontade&lt;br /&gt;E o meu elemento natural&lt;br /&gt;um fosso com pouco mais de meio metro&lt;br /&gt;onde principalmente o meu coração custava a caber&lt;br /&gt;Rodou tanto tempo que do alto&lt;br /&gt;surgiu um templo de osgas&lt;br /&gt;que violavam a consciência do desertor&lt;br /&gt;sem pedir licença&lt;br /&gt;Eram paraquedistas&lt;br /&gt;as largas ventas dos anjos&lt;br /&gt;serviam-lhes de base aérea&lt;br /&gt;e porque as vigias sorviam o ar&lt;br /&gt;estava de facto calor naquele território.&lt;br /&gt;Para vocês, pássaros sem terra,&lt;br /&gt;que lugar estará à vossa espera&lt;br /&gt;e que noite vazia&lt;br /&gt;uma cama de ferro e um travesseiro de palha?&lt;br /&gt;Que importam as vigias&lt;br /&gt;e os portos e as alfândegas&lt;br /&gt;e as fronteiras do céu&lt;br /&gt;e a terra repartida?&lt;br /&gt;Nós&lt;br /&gt;pássaros&lt;br /&gt;pertencemos por lei&lt;br /&gt;aos portos proibidos na fronteira da alma&lt;br /&gt;na fronteira do corpo é terra de ninguém para a nossa morte&lt;br /&gt;somos todos iguais.&lt;br /&gt;Vou dar um tiro de solidão&lt;br /&gt;e encontrar-me convosco no país por nascer&lt;br /&gt;onde cresce o tumor e&lt;br /&gt;de súbito&lt;br /&gt;deixou de crescer&lt;br /&gt;Já logradas as luas&lt;br /&gt;uma lua para cada um&lt;br /&gt;iremos fumando cigarros luminosos&lt;br /&gt;pontas de cigarros arremessadas às ruas&lt;br /&gt;na proa de velhos barcos adormecidos&lt;br /&gt;de onde vemos olhos de sereias&lt;br /&gt;semisoterrados nas águas&lt;br /&gt;Iremos talvez pelos aquartelamentos de casas&lt;br /&gt;onde outrora eram campos&lt;br /&gt;e talvez pelos campos renques de asas&lt;br /&gt;Atrás de nós&lt;br /&gt;por cima de nós&lt;br /&gt;dentro de nós&lt;br /&gt;a morte regorgita&lt;br /&gt;e vê-se&lt;br /&gt;Desfiladeiros de mortos&lt;br /&gt;nos dão passagem&lt;br /&gt;nem sequer a nós&lt;br /&gt;pássaros sem bagagem&lt;br /&gt;A morte regorgita&lt;br /&gt;e leva pela mão&lt;br /&gt;bruxas que vão abrindo a manhã&lt;br /&gt;com intensos golpes de noite&lt;br /&gt;Dai passagem aos carros&lt;br /&gt;forçai as portas e paredes&lt;br /&gt;ide implantar entre adultos a circuncisão&lt;br /&gt;pássaros irmãos&lt;br /&gt;vão cabeças de império a desabar&lt;br /&gt;vão soltos gemidos de atletas sem cabeça&lt;br /&gt;resolver numa única assembleia&lt;br /&gt;os destinos dos povos&lt;br /&gt;Pássaros sem povo&lt;br /&gt;aí nesse país confluem o leito e a forja&lt;br /&gt;há anciãos vestidos de meninos&lt;br /&gt;pombas sem nódoas de tinta&lt;br /&gt;e cobras se cobras há&lt;br /&gt;são títeres de feira para encantar crianças.&lt;br /&gt;Soubésseis vós&lt;br /&gt;miseráveis mensageiros&lt;br /&gt;do tempo em que vivemos&lt;br /&gt;do tempo em que viemos e não vivemos&lt;br /&gt;colaboradores dos eixos regulares&lt;br /&gt;para que triunfassem de cal e areia&lt;br /&gt;para que a cirurgia das almas desse resultado&lt;br /&gt;o que nos faltou viver&lt;br /&gt;Só os espíritos brancos&lt;br /&gt;que sobrepairaram inocentes sonos&lt;br /&gt;souberam porque descuidosamente me atirei&lt;br /&gt;longe das vistas da polícia&lt;br /&gt;da ponte mais alta&lt;br /&gt;e que o diagnóstico eram vómitos&lt;br /&gt;apenas vómitos&lt;br /&gt;violentos vómitos&lt;br /&gt;do meu ódio&lt;br /&gt;primeiro em passo lento&lt;br /&gt;depois a correr e a galope&lt;br /&gt;e depois com recrutas submarinos.&lt;br /&gt;No segundo de vida que me resta&lt;br /&gt;é este para vós&lt;br /&gt;pássaros ou osgas&lt;br /&gt;músculos ou gargantas&lt;br /&gt;tigres ou juizes&lt;br /&gt;portas ou cigarros&lt;br /&gt;autógrafos nos cabelos&lt;br /&gt;antídotos contra a vida&lt;br /&gt;circuncisão da esperança&lt;br /&gt;pássaros ou artérias&lt;br /&gt;é para vós&lt;br /&gt;soldados sucessivos&lt;br /&gt;meu último segundo&lt;br /&gt;do último minuto que me deram.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-07-06-vl&gt; - 6272 bytes -julº-6&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DESCRIÇÃO DO PAÍS COM UM SOLSTÍCIO POR MAPA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;6/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[Este discurso automático de 1961 está repleto de PREMONIÇÕES, palavras e referências que viriam a ter a maior importância no subsequente itinerário de Afonso Cautela . Posso concluir daqui que, afinal, o discurso automático-onírico - ainda que sem valor literário - é antecipador e profético: por isso o não destruí e por isso o estou recuperando, sem qualquer veleidade de fazer dele obra de arte ou livro publicável mas apenas magma onde mergulhar de novo para ...criar]&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele há-de ser se quiserdes de coragem&lt;br /&gt;de bosta arável&lt;br /&gt;de vento a fazer melodias nas quebradas&lt;br /&gt;perfurado por alguns corvos&lt;br /&gt;E por acaso penumbras diluídas&lt;br /&gt;o seu clima natural&lt;br /&gt;e o sal onde uma pessoa nunca pode perder-se&lt;br /&gt;sem que lhe falte comida&lt;br /&gt;A balança que pede a chave&lt;br /&gt;e à jaula o argumento&lt;br /&gt;é um pouco difícil e diferente de equilibrar&lt;br /&gt;Dir-se-ia que é um equilíbrio desequilibrado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Folha a folha hei-de libertar-me&lt;br /&gt;irei ter convosco&lt;br /&gt;canto o meu resto de sombra na tarde fugidia&lt;br /&gt;e se canto&lt;br /&gt;não grito nem insinuo nem me humilho&lt;br /&gt;porque sei que de todas as palavras conhecidas&lt;br /&gt;uma só atende o chamamento&lt;br /&gt;Sendo este acaso&lt;br /&gt;esta morte&lt;br /&gt;ou este ocaso do sol estendido na banheira&lt;br /&gt;a mola flácida dos outros&lt;br /&gt;não pode obturá-la&lt;br /&gt;estou portanto livre&lt;br /&gt;incuravelmente livre&lt;br /&gt;é essa a ilha&lt;br /&gt;um país a sair da ostra&lt;br /&gt;e nós a tapar um rápido marejar dos olhos&lt;br /&gt;semelhantes a membranas de abelhas&lt;br /&gt;ágeis no ar transparente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soou uma blasfémia e só um cão de fila se viu&lt;br /&gt;escondendo-se quem sabe se a caminho&lt;br /&gt;do País do Tibete chamado Quinto Império&lt;br /&gt;que este coitado está morto&lt;br /&gt;ou está com sono o Átila trôpego e cego&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A foz aparece nos antípodas&lt;br /&gt;e ao país talharam-se rios que vêm dessa foz&lt;br /&gt;frutos filhos&lt;br /&gt;películas de lilazes&lt;br /&gt;casais de linhas brancas&lt;br /&gt;escavações recentes&lt;br /&gt;andaimes estradas perto das nascentes&lt;br /&gt;um farol de gerações&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje narro a prehistória do tédio&lt;br /&gt;e de tanto desejar o branco&lt;br /&gt;ficou-me um desenho igual à paz&lt;br /&gt;Hoje vou por aí fóra&lt;br /&gt;compondo uma saga uma balada&lt;br /&gt;e por vezes a paz&lt;br /&gt;contente&lt;br /&gt;aéreo&lt;br /&gt;irresistível&lt;br /&gt;Meu corpo de mordaças&lt;br /&gt;assistiu às vacas núbeis por abrir&lt;br /&gt;mas já maduras&lt;br /&gt;e a círculos infernais concêntricos&lt;br /&gt;devorando um céu igualmente azul&lt;br /&gt;Já não é o sabor amorfo&lt;br /&gt;mas o fúnebre formigueiro de rezes&lt;br /&gt;nem os comensais e mensageiros&lt;br /&gt;nem os eunucos túrgidos de sedas&lt;br /&gt;nem os marsupiais sangrentos&lt;br /&gt;nem as flores abandonando-se dos caules&lt;br /&gt;nem a noite cheia de pó cansada de viajar&lt;br /&gt;e disposta a pernoitar em nossa casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última palavra entregou-se à música&lt;br /&gt;e foi música&lt;br /&gt;quem saberá agora a cifra móvel&lt;br /&gt;o signo?&lt;br /&gt;É dentro deste fole que vos espero&lt;br /&gt;Será terra&lt;br /&gt;será coragem&lt;br /&gt;será doença esse estranho país?&lt;br /&gt;Ou foram lágrimas?&lt;br /&gt;Ou foram armas?&lt;br /&gt;ou ossos que nos apareciam perto dos dedos&lt;br /&gt;e fogo&lt;br /&gt;e mãos?&lt;br /&gt;Foi neve ou às escuras&lt;br /&gt;ou um cubo de frestas circulares&lt;br /&gt;ou líquidos filtros suspeitos?&lt;br /&gt;De que país é feito esse país?&lt;br /&gt;Esse impossível país?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes o meu corpo&lt;br /&gt;vale mais do que a minha verdade&lt;br /&gt;tendes os meus braços&lt;br /&gt;mais fortes para o trabalho do que o destino&lt;br /&gt;mais lúcidos do que astros&lt;br /&gt;Meu corpo de terra&lt;br /&gt;com clareiras para abrigar a lua&lt;br /&gt;Sem outono ou estiagem&lt;br /&gt;clima ou arquipélago dúctil&lt;br /&gt;para qualquer dúctil acção&lt;br /&gt;para qualquer finalidade criadora&lt;br /&gt;Aí tendes nos meus actos o meu rosto&lt;br /&gt;sem raça e sem nação&lt;br /&gt;aí tendes um mapa do zodíaco&lt;br /&gt;onde me jogo&lt;br /&gt;seremos nele um retorno&lt;br /&gt;em forma de pulmão&lt;br /&gt;seremos felizes ao pé das águias&lt;br /&gt;que ensinámos a ler e a voar&lt;br /&gt;compartilhando a fome e o Verão&lt;br /&gt;compartilhando a água e os ritmos&lt;br /&gt;todos os ritmos naturais de que o homem faz barragens&lt;br /&gt;e explora para seu benéfico uso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No crepúsculo&lt;br /&gt;entregar-nos-emos à difícil decifração das palavras&lt;br /&gt;à música difícil cuja pauta se perdeu no dilúvio&lt;br /&gt;e a bola de cores&lt;br /&gt;a chuva no solstício escorrendo das vidraças&lt;br /&gt;dirá que estamos na estação propícia ao estudo e à meditação&lt;br /&gt;Um estrato de mármore descoberto a quinze quilómetros&lt;br /&gt;será um fogo procriador em vossas mãos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu corpo tereis por varanda&lt;br /&gt;minha verdade é um eco nos desfiladeiros&lt;br /&gt;um astro cego&lt;br /&gt;e vós sois os olhos&lt;br /&gt;os verdadeiros olhos do futuro&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-07-06-vs-vs&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O PAÍS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;6-7-1961 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta carpa no escuro&lt;br /&gt;Vogando&lt;br /&gt;Esta fímbria de luz&lt;br /&gt;Esta algema de vento&lt;br /&gt;E terra arável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este sol perfurado pelos corvos&lt;br /&gt;E a ternura dos homens &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta penumbra diluída &lt;br /&gt;Um rápido marejar dos olhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esta terra&lt;br /&gt;A ilha o país&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao país vão talhar-se rios&lt;br /&gt;Frutos&lt;br /&gt;Filhos&lt;br /&gt;Lilazes e casais de linhas brancas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No país vão nascer andaimes&lt;br /&gt;Escavações recentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estradas perto das nascentes&lt;br /&gt;Um farol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas será terra&lt;br /&gt;Será coragem&lt;br /&gt;Será doença&lt;br /&gt;Esse estranho país&lt;br /&gt;Ou serão lágrimas&lt;br /&gt;Ou foram armas&lt;br /&gt;Ossos &lt;br /&gt;Fogo mãos&lt;br /&gt;Foi neve às escuras&lt;br /&gt;Ou terá sido um cubo circular&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De que país é feito esse país&lt;br /&gt;Esse impossível país?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Bola de fogo no espaço&lt;br /&gt;Arrefecendo&lt;br /&gt;Laboratório de acções e reacções&lt;br /&gt;Músculo onde se injectam &lt;br /&gt;As mais estranhas drogas&lt;br /&gt;Escorrendo ainda plasma&lt;br /&gt;Sangue&lt;br /&gt;Porcaria&lt;br /&gt;Ainda quente&lt;br /&gt;Ainda agarrado ao ventre de uma origem&lt;br /&gt;Será terra&lt;br /&gt;Será coragem&lt;br /&gt;Será doença esse estranho país?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há-de cheirar a sémen &lt;br /&gt;E a sol e a terra&lt;br /&gt;Há-de ter um nome natural &lt;br /&gt;Há-de olhar-nos de frente &lt;br /&gt;E não precisará de óculos&lt;br /&gt;Para esconder as lágrimas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E há-de estar doente&lt;br /&gt;Daquelas doenças passageiras &lt;br /&gt;Que o corpo tem quando não é doente&lt;br /&gt;Há-de ter uma idade própria &lt;br /&gt;Para cada gosto e gesto &lt;br /&gt;Crescer e ter para cada ideal &lt;br /&gt;A necessária coragem da desilusão &lt;br /&gt;Há-de viajar e dormir &lt;br /&gt;Há-de cantar a vida&lt;br /&gt;Há-de temer a morte &lt;br /&gt;E há-de ser &lt;br /&gt;Se o deixarem &lt;br /&gt;Liberdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi neve às escuras &lt;br /&gt;Ou terá sido um cubo circular?&lt;br /&gt;De que país é feito esse país &lt;br /&gt;esse impossível país? &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;58-07-06-EM &gt; = versos publicados em «espaço mortal», pgs 20 e 21 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CRUSTÁCEO COM ELECTRICIDADE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferreira do Alentejo,&lt;strong&gt; 6/7/1958 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho uma carapaça &lt;br /&gt;e quem me olha de fora &lt;br /&gt;da carapaça não passa &lt;br /&gt;não vê nada e vai-se embora,&lt;br /&gt;não passa da carapaça &lt;br /&gt;com língua dentro e de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho cara de caraça  - &lt;br /&gt;nasci com este defeito, &lt;br /&gt;por mais trejeitos que faça &lt;br /&gt;não me curvo, não me ajeito &lt;br /&gt;a ter na cara a caraça &lt;br /&gt;e a carapaça no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou à caça, abriu a caça, &lt;br /&gt;Pum, pum: irra! Tanta gente&lt;br /&gt;Com olhos de carapaça.&lt;br /&gt;Rapazes, abriu a caça, &lt;br /&gt;soldados, ide pra frente, &lt;br /&gt;com olhos de carapaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai na rua uma mordaça... &lt;br /&gt;Ah ! tanto trapo e trapaça,&lt;br /&gt;politico-rno-chalaça, &lt;br /&gt;minha vida, minha graça, &lt;br /&gt;meu amor, minha desgraça &lt;br /&gt;movida a electricidade.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 - 61-07-06-VP&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TENDES O MEU CORPO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[Publicado em «Cadernos Alfa – Poesia 1», Coimbra, Fevereiro de 1964]&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Última versão abreviada) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira,&lt;strong&gt; 6-Julho-1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes o meu corpo&lt;br /&gt;Meu corpo de terra com clareira&lt;br /&gt;Para abrigar a lua&lt;br /&gt;Tendes os meus braços&lt;br /&gt;Mais fortes para o trabalho&lt;br /&gt;Que o destino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes os meus nervos&lt;br /&gt;Mais lúcidos que astros&lt;br /&gt;Ou máquinas&lt;br /&gt;Aí me tendes&lt;br /&gt;Outono ou arquipélago&lt;br /&gt;Para qualquer criação&lt;br /&gt;Nos meus actos tendes o meu rosto&lt;br /&gt;E a alma feliz&lt;br /&gt;Perto das águias&lt;br /&gt;Compartilhando o Verão e a fome&lt;br /&gt;E a água&lt;br /&gt;Com o crepúsculo&lt;br /&gt;Entregue à subtil decifração dos ritmos naturais&lt;br /&gt;À música dos dilúvios &lt;br /&gt;Às horas escorrendo nas vidraças&lt;br /&gt;Tendes o meu corpo &lt;br /&gt;Um eco nos desfiladeiros&lt;br /&gt;Um astro cego&lt;br /&gt;Que é a minha verdade. &lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-07-06-VS&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESTA CARPA NO ESCURO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Última versão abreviada) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;6/7/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta carpa no escuro &lt;br /&gt;vogando&lt;br /&gt;esta fímbria de luz &lt;br /&gt;esta algema de vento&lt;br /&gt;e terra arável&lt;br /&gt;este sol perfurado pelos corvos &lt;br /&gt;esta penumbra diluída&lt;br /&gt;um rápido marejar dos olhos&lt;br /&gt;é a terra&lt;br /&gt;a ilha&lt;br /&gt;o país&lt;br /&gt;e ao país&lt;br /&gt;vão talhar-se frutos&lt;br /&gt;no país vão nascer andaimes&lt;br /&gt;escavações recentes &lt;br /&gt;estradas perto das nascentes&lt;br /&gt;um farol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será coragem&lt;br /&gt;será doença&lt;br /&gt;esse estranho país&lt;br /&gt;ou serão lágrimas&lt;br /&gt;ou foram armas&lt;br /&gt;ossos&lt;br /&gt;fogo&lt;br /&gt;mãos?&lt;br /&gt;Foi neve às escuras &lt;br /&gt;ou terá sido um cubo circular?&lt;br /&gt;De que país é feito este país? &lt;br /&gt;***&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115217258970623056?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115217258970623056/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115217258970623056' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115217258970623056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115217258970623056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/o-pas.html' title='O PAÍS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115209531877068486</id><published>2006-07-05T03:26:00.000-07:00</published><updated>2006-07-05T03:28:38.776-07:00</updated><title type='text'>VÓS QUE SOIS OS OLHOS</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;61-07-05-vs-vl &gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;5-7-1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós que sois os olhos&lt;br /&gt;Os verdadeiros olhos do futuro&lt;br /&gt;Sabeis que tenho exactamente&lt;br /&gt;Um minuto de vida&lt;br /&gt;E por companheiros alguns tigres&lt;br /&gt;Que os meus dedos&lt;br /&gt;Ou a minha voz podiam domesticar&lt;br /&gt;Mas recobrar a rosa dos ventos&lt;br /&gt;É a minha última vontade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Vós sabeis a verdade e sabeis&lt;br /&gt;Que haverá pouco lugar&lt;br /&gt;Num fosso com pouco mais de meio metro&lt;br /&gt;Sabeis que a terra me espera&lt;br /&gt;E uma noite vazia&lt;br /&gt;Uma cama de ferro&lt;br /&gt;Um travesseiro de palha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importam as vigias&lt;br /&gt;No corpo e na alma&lt;br /&gt;No céu e na terra&lt;br /&gt;Que importam as fronteiras&lt;br /&gt;Há um sinal marcado para o nosso encontro&lt;br /&gt;um tiro de solidão na solidão&lt;br /&gt;e uma lua para cada um&lt;br /&gt;iremos fumando cigarros vulgares&lt;br /&gt;e não haverá padre no último instante&lt;br /&gt;apenas pontas de cigarros&lt;br /&gt;atiradas à rua&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Ver-me-ão partir&lt;br /&gt;Na proa de velhos barcos adormecidos&lt;br /&gt;Os olhos de algumas sereias&lt;br /&gt;Semi-soterrados nas águas&lt;br /&gt;Irão espreitar-me à despedida&lt;br /&gt;Irei talvez pelos aquartelamentos de casas&lt;br /&gt;Onde outrora eram campos&lt;br /&gt;E renques de árvores&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Dentro e fora de mim&lt;br /&gt;regorgitará uma imensa saudade da morte&lt;br /&gt;uma profunda saudade da vida&lt;br /&gt;e quando quiser passar&lt;br /&gt;os desfiladeiros de mortos ensinar-me-ão&lt;br /&gt;os vales ainda desconhecidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;levarei pela mão bruxas que irão abrindo&lt;br /&gt;a manhã com intensos machados de noite&lt;br /&gt;e gemidos soltos de atletas sem cabeça&lt;br /&gt;vão resolver nas encruzilhadas&lt;br /&gt;o caminho certo&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Apenas vós soubestes&lt;br /&gt;Porque me atirei&lt;br /&gt;Tão cuidadosa e descuidosamente&lt;br /&gt;Da ponte mais alta&lt;br /&gt;E que o diagnóstico eram vómitos&lt;br /&gt;Apenas vómitos&lt;br /&gt;Violentos vómitos&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;apenas vós&lt;br /&gt;soldados sucessivos&lt;br /&gt;ouvistes e vistes&lt;br /&gt;o último segundo do último minuto&lt;br /&gt;que me deram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes o meu corpo&lt;br /&gt;Meu corpo de terra com clareiras&lt;br /&gt;Para abrigar a lua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes os meus braços&lt;br /&gt;Mais fortes para o trabalho&lt;br /&gt;Que o destino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes os meus nervos&lt;br /&gt;Mais lúcidos que astros&lt;br /&gt;Ou máquinas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí me tendes&lt;br /&gt;Outono ou arquipélago&lt;br /&gt;Para qualquer criação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meus actos tendes o meu rosto&lt;br /&gt;E a alma feliz&lt;br /&gt;Perto das águias&lt;br /&gt;Compartilhando o Verão e a fome&lt;br /&gt;E a água&lt;br /&gt;Com o crepúsculo&lt;br /&gt;Entregue à subtil decifração&lt;br /&gt;dos ritmos naturais&lt;br /&gt;à música dos dilúvios&lt;br /&gt;às horas escorrendo nas vidraças&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendes o meu corpo&lt;br /&gt;Um eco nos desfiladeiros&lt;br /&gt;Um astro cego&lt;br /&gt;A verdade&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115209531877068486?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115209531877068486'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115209531877068486'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/vs-que-sois-os-olhos.html' title='VÓS QUE SOIS OS OLHOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115199682088858837</id><published>2006-07-03T23:55:00.000-07:00</published><updated>2006-07-04T00:15:06.176-07:00</updated><title type='text'>UM HOMEM FELIZ</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;4/Julho/1956&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Há uma gota de água limpa&lt;br /&gt;flores por abrir no vosso coração&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;+&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;61-07-04-vs&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NÃO DIREI QUE SOU UM HOMEM FELIZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, 4/7/1961&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não direi que sou um homem feliz&lt;br /&gt;deixando que os dias venham molhar-me os pés&lt;br /&gt;enxugar-me os olhos&lt;br /&gt;pousar-me nos dedos&lt;br /&gt;e falar&lt;br /&gt;inutilmente falar das inutilidades diárias&lt;br /&gt;mas direi que podem&lt;br /&gt;tirar-me do corpo as últimas veias&lt;br /&gt;e a última esperança&lt;br /&gt;e as amarras do pequeno barco&lt;br /&gt;de um dia tão longe ter acreditado&lt;br /&gt;direi que ainda não perdi o hábito de esperar&lt;br /&gt;igual ao de comer&lt;br /&gt;e que é cada vez mais hiante a passagem de Moisés&lt;br /&gt;entre a liberdade dos homens que ainda não somos&lt;br /&gt;e a ordem de cães a que nunca nos habituámos&lt;br /&gt;direi que nos meus ombros&lt;br /&gt;transporto cartas de amor&lt;br /&gt;para aldeias onde os homens&lt;br /&gt;se dedicam às indústrias rudimentares&lt;br /&gt;do pão&lt;br /&gt;das lágrimas&lt;br /&gt;da morte.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Quem pode renunciar à cinza que nos cobre?&lt;br /&gt;Opor-se às tropas de trigo contra o ódio?&lt;br /&gt;E quem dará a estas podres sílabas&lt;br /&gt;um dente novo?&lt;br /&gt;Quem se entrega e perdoa e concilia?&lt;br /&gt;Quem arma de flores os nossos braços?&lt;br /&gt;A frágil esperança dos que esperam&lt;br /&gt;ainda que sobre o empedrado municipal?&lt;br /&gt;a estrangulem&lt;br /&gt;a destilem&lt;br /&gt;a cilindrem&lt;br /&gt;a metralhem&lt;br /&gt;a persigam&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Algemei de trabalho a tribo dos meus sonhos&lt;br /&gt;na companhia das nuvens vou dormir&lt;br /&gt;e é impossível dormir&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;+&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;61-07-04-vs&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUEM PODE RENUNCIAR À CINZA QUE NOS COBRE?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Fragmento de «A Draga na Ria» - última versão abreviadíssima)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem pode renunciar à cinza que nos cobre?&lt;br /&gt;Opor-se às tropas de trigo contra o ódio?&lt;br /&gt;E quem dará a estas podres sílabas&lt;br /&gt;Um dente novo?&lt;br /&gt;Quem se entrega e perdoa e concilia?&lt;br /&gt;Quem arma de flores os nossos braços?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A frágil esperança dos que esperam&lt;br /&gt;Ainda que sobre o empedrado municipal&lt;br /&gt;A estrangulem&lt;br /&gt;A destilem&lt;br /&gt;A cilindrem&lt;br /&gt;A metralhem&lt;br /&gt;A persigam&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Algemei de trabalho a tribo dos meus sonhos&lt;br /&gt;Na companhia das nuvens vou dormir&lt;br /&gt;e é impossível dormir&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;+&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;61-07-04-vs&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;RAIOS PARTAM&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4-7-1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raios partam&lt;br /&gt;Este Julho impossível&lt;br /&gt;Este Julho de sol impossível&lt;br /&gt;E luz&lt;br /&gt;E luz&lt;br /&gt;E luz&lt;br /&gt;Nós&lt;br /&gt;Onde estamos nós&lt;br /&gt;Nós com todos os órgãos&lt;br /&gt;Nós com todos os olhos&lt;br /&gt;A ver&lt;br /&gt;Com a pele e os ossos&lt;br /&gt;A ver&lt;br /&gt;A ver este sol&lt;br /&gt;A ver esta luz&lt;br /&gt;A ver esta impossível luz de Julho?&lt;br /&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115199682088858837?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115199682088858837/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115199682088858837' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115199682088858837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115199682088858837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/um-homem-feliz.html' title='UM HOMEM FELIZ'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115192510732614298</id><published>2006-07-03T04:01:00.000-07:00</published><updated>2006-07-03T04:11:47.350-07:00</updated><title type='text'>A DRAGA NA RIA</title><content type='html'>&lt;em&gt;61-07-03-VL&gt; 13952 bytes 9709 caracteres -draga&gt;versos&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Faro, 3/Julho/1961&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai cair-me aos pés&lt;br /&gt;dos pés que tem&lt;br /&gt;ela vai dar-me do avesso&lt;br /&gt;o meu outro lado do mar alto&lt;br /&gt;ela vai partir e cair&lt;br /&gt;não vai estar muito tempo&lt;br /&gt;dentro dos outros&lt;br /&gt;a contar-me&lt;br /&gt;com gatos à janela&lt;br /&gt;com janelas atentas para a cidade&lt;br /&gt;à brisa fluvial&lt;br /&gt;aos portos&lt;br /&gt;ao repuxo de um lago&lt;br /&gt;tão pródigo de ninhos&lt;br /&gt;mãe&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Bem aventurados os que compreendem&lt;br /&gt;os de água que deslizam sobre um muro de tranquilidade&lt;br /&gt;bem aventurados os que crêem&lt;br /&gt;na reprodução ovípara dos homens&lt;br /&gt;e bem aventurados quantos rondam a porta&lt;br /&gt;do Enigma&lt;br /&gt;Ela vai despir-se&lt;br /&gt;descer&lt;br /&gt;vai do princípio para o príncipe&lt;br /&gt;e dizer que estamos vazios&lt;br /&gt;que não valemos nada&lt;br /&gt;que pacificamemte nos entredevoramos&lt;br /&gt;que de homens não nos resta sequer a sombra&lt;br /&gt;que o nosso destino é ficar&lt;br /&gt;trespassados e a nossa acção&lt;br /&gt;uma acção de despejo&lt;br /&gt;Para ela não é novidade que viemos&lt;br /&gt;de um tenebroso parto&lt;br /&gt;e que sobrevivemos ao hieroglífico cutelo&lt;br /&gt;a meio do pescoço&lt;br /&gt;e que tudo ruirá ao mínimo poisar dos nossos dedos&lt;br /&gt;Ela deixará um sulco na testa do primogénito&lt;br /&gt;um vagido na alma do segundo&lt;br /&gt;um tentáculo nas órbitas do morto vai absolver-nos&lt;br /&gt;pedir-nos conta do tempo&lt;br /&gt;- e afinal por onde andaram? -&lt;br /&gt;Ela precipitar-nos-á no Maelstrom&lt;br /&gt;abstrairá um cíclope de cada um dos sete ventos&lt;br /&gt;deixará côncavos os uivos dos sem lar&lt;br /&gt;Por toda a parte ela argumentará com sangue&lt;br /&gt;de todos os lábios extrairá a vítima&lt;br /&gt;a última canção&lt;br /&gt;um cisne doido&lt;br /&gt;para que tu e eu&lt;br /&gt;para que nós e eles&lt;br /&gt;sejam servidos à mesa do Senhor&lt;br /&gt;Quem pode renunciar à tampa que nos completa&lt;br /&gt;às tropas de trigo contra o ódio&lt;br /&gt;aos almanaques de trinta gerações&lt;br /&gt;e quem dará a estas podres sílabas&lt;br /&gt;um dente novo&lt;br /&gt;o cósmico perdão de um evangelho em branco&lt;br /&gt;quem estende as mãos e perdoa&lt;br /&gt;e concilia&lt;br /&gt;e arma de flores os braços de quem trabalha?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Enquanto ela arde&lt;br /&gt;sofro a minha hereditariedade de cadáver&lt;br /&gt;de corpo híbrido nem sombra nem voz&lt;br /&gt;por mais que ela alvoreça&lt;br /&gt;e rompa das amêndoas&lt;br /&gt;do íntimo dos frutos&lt;br /&gt;são iguais as manhãs&lt;br /&gt;e nada nos desperta&lt;br /&gt;e nada nos restitui&lt;br /&gt;ao único elemento&lt;br /&gt;pomba da vitória que um terremoto destruiu&lt;br /&gt;Ela estuda o livro dos teus dedos&lt;br /&gt;ela aprende línguas em versos estranhos&lt;br /&gt;rútilos monossílabos&lt;br /&gt;que falam por nós&lt;br /&gt;que pecam por nós&lt;br /&gt;e ela recusa&lt;br /&gt;Ela é a hora&lt;br /&gt;e vai dizer-nos que perdi&lt;br /&gt;que a casca me estoirou&lt;br /&gt;e que fui um piolho mal agradecido&lt;br /&gt;confiar-me o que todos disseram e não pensaram&lt;br /&gt;vai curar-me de um mal incurável&lt;br /&gt;e protelar o soro&lt;br /&gt;regulamentar o Ego&lt;br /&gt;ferozes animais sem pão&lt;br /&gt;à desgarrada na planície fora&lt;br /&gt;e cães medievais latindo ao vento&lt;br /&gt;Sem alcova&lt;br /&gt;sem um búzio de ondas congeladas&lt;br /&gt;vai decidir do meu andar na rua&lt;br /&gt;do meu ritual comunitário&lt;br /&gt;e de modo a não se distinguir a boa da má pessoa&lt;br /&gt;Vai punir&lt;br /&gt;e cortar a direito&lt;br /&gt;distribuir a cada um a órbita de um eterno retorno&lt;br /&gt;a que chama destino&lt;br /&gt;vai ceifar-me os cabelos previsíveis&lt;br /&gt;impossíveis&lt;br /&gt;de dentro e de fóra&lt;br /&gt;louros ou matizados em cone&lt;br /&gt;os cabelos brancos dos sonhos&lt;br /&gt;brancos das insónias que são noites em branco&lt;br /&gt;Sinto-a ler o jornal&lt;br /&gt;por cima do meu ombro&lt;br /&gt;anda aqui dentro&lt;br /&gt;no meu segundo andar direito&lt;br /&gt;respiro-a a custo porque lhe tenho as janelas fechadas&lt;br /&gt;e ela teima em ler-me&lt;br /&gt;a sua voz dentro de mim&lt;br /&gt;fustiga-me em dois tempos alternados&lt;br /&gt;ora para o Norte&lt;br /&gt;ora para o Sul&lt;br /&gt;ora para a roleta&lt;br /&gt;e dirá&lt;br /&gt;que os homens só merecem a solidão&lt;br /&gt;um supremo tribunal de solidão&lt;br /&gt;a igual&lt;br /&gt;e forte&lt;br /&gt;e justa&lt;br /&gt;e fecunda&lt;br /&gt;e arrasadora solidão&lt;br /&gt;a solidão de mil pernas&lt;br /&gt;a solidão de cem olhos&lt;br /&gt;a multi-solidão de trinta ouvidos&lt;br /&gt;ela que vai cair sobre nós&lt;br /&gt;ela que nos respira o ar&lt;br /&gt;e nos não deixa respirar&lt;br /&gt;ela que se omite entre o cotão de um bolso&lt;br /&gt;ela que procura gastar sem pagar&lt;br /&gt;ela que nos manda combater&lt;br /&gt;ela que rasga a pele do impossível&lt;br /&gt;de modo a infectar&lt;br /&gt;ela que é justiça e recorre às armas&lt;br /&gt;ela que é o único discurso directo&lt;br /&gt;ela que é assim&lt;br /&gt;ou assado&lt;br /&gt;ela o tédio&lt;br /&gt;ela um barco a navegar no tédio&lt;br /&gt;ela um buraco no barco a navegar no tédio&lt;br /&gt;ela o tédio a entrar no buraco do barco a navegar no tédio&lt;br /&gt;Ela a formiga-paxá&lt;br /&gt;a quem as formigas-escravas obedecem&lt;br /&gt;ela a ponte&lt;br /&gt;ela a dinamite e a ponte ao ar&lt;br /&gt;ela a raiva com fios condutores para todos os corações&lt;br /&gt;ela a raiva TSF comunicando entre os corações&lt;br /&gt;ela a rótula deste poema ajoelhado&lt;br /&gt;e de pulso no chão&lt;br /&gt;e de patas no ar&lt;br /&gt;- escaravelho de merda&lt;br /&gt;escrevendo um hino de amor&lt;br /&gt;Ela a disciplina de Esparta&lt;br /&gt;o chão de vinha vindimada&lt;br /&gt;ela o pânico correndo pelos telhados das nossa cabeças&lt;br /&gt;e nós as cabeças de alguns telhados&lt;br /&gt;e nós algemas de tanto estandarte&lt;br /&gt;bolsas de alguns cangurús&lt;br /&gt;borlas de alguns capelos&lt;br /&gt;escravos de um senhor&lt;br /&gt;Nós cabeças partidas&lt;br /&gt;e eles Ouvidos do Rei&lt;br /&gt;em cada esquina um Ouvido&lt;br /&gt;Ela a impotência em forma de potências&lt;br /&gt;e tanta gente no fundo&lt;br /&gt;sem saber que está no fundo&lt;br /&gt;ela que ri&lt;br /&gt;ela que se está nas tintas&lt;br /&gt;ela que já só tem um sapato do único par que tinha&lt;br /&gt;ela com a conhecida afasia dos comboios&lt;br /&gt;ela a sorte mas que sofre&lt;br /&gt;ela aldraba&lt;br /&gt;um cavalo bem educado&lt;br /&gt;ela a faina palustre do Manuel de Oliveira&lt;br /&gt;ela a sopa dos pobres&lt;br /&gt;eucaristia dos ricos&lt;br /&gt;ela a sombra com doces vigias nas paredes&lt;br /&gt;e morangos pendendo maduros&lt;br /&gt;ela com pernas&lt;br /&gt;e nós com braços&lt;br /&gt;sem ela nos poder dar as pernas&lt;br /&gt;e nós só embaraços&lt;br /&gt;Ela um buda satisfeito&lt;br /&gt;a aurora com uma lágrima na face&lt;br /&gt;um coito entre fadas machos e fadas fêmeas&lt;br /&gt;entre o facto e o fatum&lt;br /&gt;o lúdico e o trágico&lt;br /&gt;Ela pronome pessoal&lt;br /&gt;de tantas pessoas&lt;br /&gt;o singular de alguns plurais&lt;br /&gt;com gestos a confundir-se em gatos&lt;br /&gt;uma pirataria de pombos pelos quintais&lt;br /&gt;um exército de pijamas estendidos ao sol&lt;br /&gt;estendidos aos raios do sol&lt;br /&gt;Raios partam este Julho impossível&lt;br /&gt;este Julho de sol impossível&lt;br /&gt;e luz e luz e luz&lt;br /&gt;e nós&lt;br /&gt;onde estamos nós e nossas vistas armadas&lt;br /&gt;que se abram além dos dois terços habituais&lt;br /&gt;nós com todos os órgãos&lt;br /&gt;com todos os membros&lt;br /&gt;com a pele e os ossos&lt;br /&gt;a ver&lt;br /&gt;a ver esta luz&lt;br /&gt;ela a luz&lt;br /&gt;ela a impossível luz de Julho?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Não direi que sou um homem feliz&lt;br /&gt;deixando que os dias venham molhar-me os pés&lt;br /&gt;enxugar-me os olhos&lt;br /&gt;pousar-me nos dedos&lt;br /&gt;e falar&lt;br /&gt;falar inutilmente das inutilidades diárias&lt;br /&gt;Mas direi que ela poderá esbofetear-me&lt;br /&gt;tirar-me aos sentimentos a última veia&lt;br /&gt;e as amarras do pequeno barco&lt;br /&gt;de uma vez tão longe ter acredtitado&lt;br /&gt;Direi que definitivamente ainda não perdi o hábito de esperar&lt;br /&gt;e que é cada vez mais hiante a passagem de Moisés&lt;br /&gt;entre a liberdade dos homens que não merecemos ser&lt;br /&gt;e a ordem disciplinar de cães a que ainda não conseguimos nos habituar&lt;br /&gt;Direi que nos meus ombros&lt;br /&gt;transporto cartas de amor entre namorados&lt;br /&gt;e aldeias de pescadores que vivem coitados na fase agro-pastoril&lt;br /&gt;dedicando-se ás indústrias rudimentares&lt;br /&gt;do pão&lt;br /&gt;das lágrimas&lt;br /&gt;da morte&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Direi que os ventos se enfureceram contra os maus conselheiros de Agá&lt;br /&gt;e que dos ossos nos virá uma pauta de belas melodias&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Trepa por nós acima a revolução universal&lt;br /&gt;e apenas por amor&lt;br /&gt;eis-nos rendidos&lt;br /&gt;Direi que renuncio à Natureza&lt;br /&gt;eu pássaro azul&lt;br /&gt;e ela eternidade&lt;br /&gt;a sumir-se nas cinzas de uma Pompeia de ódio&lt;br /&gt;desta cidade&lt;br /&gt;e outras cidades&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A hora a que te escrevo&lt;br /&gt;é qualquer fruta fresca&lt;br /&gt;apanhada bem cedo&lt;br /&gt;ainda com o torpor da madrugada&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Ela que pode ser mulher&lt;br /&gt;a forma do absoluto&lt;br /&gt;os braços que vão de Norte a Sul do Saará&lt;br /&gt;a alma de ninguém&lt;br /&gt;o oráculo de pentes com raízes&lt;br /&gt;ela bebia do leite que manava&lt;br /&gt;virgem&lt;br /&gt;entre os seixos&lt;br /&gt;e os remos velhos do mais experimentado pescador&lt;br /&gt;Ela a fome que nunca se rendeu&lt;br /&gt;o prato de lentilhas adoptivo&lt;br /&gt;ela a moeda&lt;br /&gt;o estrangeiro que encontrou pátria&lt;br /&gt;e diz que nasceu&lt;br /&gt;Ela a morte&lt;br /&gt;lenta e sem ruído&lt;br /&gt;com o forro de fóra&lt;br /&gt;e nós a escrever versos&lt;br /&gt;quem diz versos diz ovos&lt;br /&gt;e quem diz ovos diz números&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Do ponto de vista turístico que tem ela a ver connosco&lt;br /&gt;e nós do ponto de vista poético a ver com ela?&lt;br /&gt;Ela é frágil certeza no coração dos que acreditam&lt;br /&gt;ainda que sobre o empedrado municipal&lt;br /&gt;o estrangulem&lt;br /&gt;o destilem&lt;br /&gt;o metralhem&lt;br /&gt;o persigam&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A verdade recusou-se a combater&lt;br /&gt;mas a verdade não conta&lt;br /&gt;simplesmene ama&lt;br /&gt;porque é mulher&lt;br /&gt;deveis conhecê-la de uma canoa rústica&lt;br /&gt;roçando a nossa porta às primeiras horas do dia&lt;br /&gt;Vós que tendes nos bolsos&lt;br /&gt;pulgas&lt;br /&gt;e Rousseau&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Fonte ardente&lt;br /&gt;de tantas curas&lt;br /&gt;líquido cordial&lt;br /&gt;das veias anónimas de um deus atónito&lt;br /&gt;que deu criaturas à luz&lt;br /&gt;na semi-sombra sonolenta de sua sesta de rede&lt;br /&gt;ela que me disse que era o singular das coisas&lt;br /&gt;a brasa afunilando-se de sons&lt;br /&gt;e ao fim dos faróis&lt;br /&gt;a atrofia de beijos em segunda mão&lt;br /&gt;E eu lhe respondi que andasse&lt;br /&gt;Ergue-te e deambula&lt;br /&gt;no cérebro dos sábios&lt;br /&gt;tu sinal de alarme&lt;br /&gt;cortando em diagonal o pentágono da madrugada&lt;br /&gt;tu superstição dos frívolos&lt;br /&gt;religião do mar&lt;br /&gt;tu gárgula de garrafa&lt;br /&gt;deitada ó mar&lt;br /&gt;e decepei um lábio&lt;br /&gt;ó mal casada rainha de áticas tragédias&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Linha medindo-me de polo a polo&lt;br /&gt;de alma ao corpo&lt;br /&gt;e noites de fronteira a dividir-me&lt;br /&gt;enternece-me olhar&lt;br /&gt;só de olhar um «sentimendo do mundo»&lt;br /&gt;irmana-me a Drummond&lt;br /&gt;só com os olhos quotidianos&lt;br /&gt;mas a súbita aurora que irrompeu dos nervos&lt;br /&gt;que modelou de mosto o corpo do teu corpo&lt;br /&gt;e os músculos da alma&lt;br /&gt;tão sempre na omnipotente contabilidade diária&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Deixo ao espelho o último papel&lt;br /&gt;ela o segundo espelho paralelo&lt;br /&gt;eu Outono triste&lt;br /&gt;No meio de um sábado&lt;br /&gt;mesmo ao centro da praça de sol&lt;br /&gt;morreu&lt;br /&gt;Porque morreu num sábado sem sol?&lt;br /&gt;Onde vai dar certa a soma errada?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Meu fogo de camarinhas frescas sem resposta&lt;br /&gt;qualquer movimento nas moitas próximas&lt;br /&gt;a hilariedade dos sinos&lt;br /&gt;duas asas capazes de regressar&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Há flores na terra de ninguém&lt;br /&gt;são a vingança dos que morreram jovens&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A história é a caricatura inacabada&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Algemei de trabalho a tribo dos meus sonhos&lt;br /&gt;na companhia das nuvens vou dormir&lt;br /&gt;e é impossível dormir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115192510732614298?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115192510732614298'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115192510732614298'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/07/draga-na-ria.html' title='A DRAGA NA RIA'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115123156510509200</id><published>2006-06-25T03:29:00.000-07:00</published><updated>2006-06-25T03:32:45.113-07:00</updated><title type='text'>ODE AO JORNAL</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;1-1 a intolerável veia moralista irrompia da merda - 55-06-25-va&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;25-6-1955&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ODE AO JORNAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;São estes versos votados a todos os colaboradores que, durante ano e meio ajudaram, de longe ou de perto, a fazer «A Escola Nova»&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa folha de papel agradecida&lt;br /&gt;Viaja o pensamento&lt;br /&gt;E pousa em toda a parte onde haja vida.&lt;br /&gt;Ouvidos se fecham à passagem&lt;br /&gt;Da voz que não se cala&lt;br /&gt;E em confissões, súplicas, protestos,&lt;br /&gt;Mesmo no silêncio apregoa e fala&lt;br /&gt;A verdade das coisas e dos gestos.&lt;br /&gt;Criar musgo é das pedras, não do homem,&lt;br /&gt;As pedras fazem sombra e nós presença,&lt;br /&gt;Mesmo amarelecida pelo tempo,&lt;br /&gt;Rasgada pela insídia e indiferença,&lt;br /&gt;Pela inveja e pelo esquecimento,&lt;br /&gt;uma folha de papel agradecida&lt;br /&gt;leva ao mundo a eterna voz da vida&lt;br /&gt;e o abraço nu do pensamento.&lt;br /&gt;Papel de jornal, arma de batalhas&lt;br /&gt;De justiça e amor,&lt;br /&gt;Arma de luta em corpo descoberto,&lt;br /&gt;Amigo grande verdadeiro e certo,&lt;br /&gt;Nos erros e nas gralhas confessor&lt;br /&gt;Dos pecados de que me confesso&lt;br /&gt;Humílimo escritor.&lt;br /&gt;Quando se fecharem todos os ouvidos&lt;br /&gt;Aos rumores, choros e gemidos,&lt;br /&gt;Galgará uma voz os continentes&lt;br /&gt;Até às masmorras e degredos&lt;br /&gt;Para dizer: «Sou tinta de jornal&lt;br /&gt;Escrevem-me com sangue e sujo os dedos,&lt;br /&gt;Sou as veias do mundo e cheiro mal.»&lt;br /&gt;Mareantes sem rota nem itinerários,&lt;br /&gt;Cá vamos nesta faina de corsários&lt;br /&gt;À busca do que há mais.&lt;br /&gt;Irmãos marinheiros, vós, tipógrafos,&lt;br /&gt;Audaciosos vultos de geógrafos&lt;br /&gt;Que mares desbravais?&lt;br /&gt;Demo-nos as mãos e no meio do espaço,&lt;br /&gt;Criemos um globo traço a traço,&lt;br /&gt;Meridianamente até ao fim.&lt;br /&gt;Cruzemos fracassos e vitórias&lt;br /&gt;Num mesmo equador dum mesmo abraço,&lt;br /&gt;Assim.&lt;br /&gt;As nossas mãos que escrevem,&lt;br /&gt;As nossas mãos que são de carne e sonho&lt;br /&gt;Vão povoar de vida o planeta&lt;br /&gt;Que vamos desenhar&lt;br /&gt;Num mapa de papel e tinta preta.&lt;br /&gt;Faro, 25-6-1955&lt;br /&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115123156510509200?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115123156510509200'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115123156510509200'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/ode-ao-jornal.html' title='ODE AO JORNAL'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115062371518235838</id><published>2006-06-18T02:34:00.000-07:00</published><updated>2006-06-18T02:41:55.190-07:00</updated><title type='text'>SÓ QUANDO</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;1-1 - 1969-V&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DE VEZ EM QUANDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;18/6/1969 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sonhando&lt;br /&gt;outras vezes comendo&lt;br /&gt;é que se malha o ferro&lt;br /&gt;dos mitos já mortos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sonhando&lt;br /&gt;outras vezes rindo&lt;br /&gt;pode surgir a mãe&lt;br /&gt;e o filho que esperou ter perto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sonhando&lt;br /&gt;outras vezes dormindo&lt;br /&gt;pode o sofrimento&lt;br /&gt;ser a linha recta para a inteligência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes sonhando&lt;br /&gt;mas realmente agindo&lt;br /&gt;é que se toma o peso&lt;br /&gt;exacto da consciência.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 - 1536 bytes -1969-III&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÓ QUANDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa,&lt;strong&gt; 18/6/1969 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando passa no esófago&lt;br /&gt;(vazio ou cheio)&lt;br /&gt;a vida se sente bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando em lençol de astros&lt;br /&gt;se deita&lt;br /&gt;a varredora municipal&lt;br /&gt;nos sentimos ligados&lt;br /&gt;por uma religião qualquer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando a técnica prepara&lt;br /&gt;as rosas do franco atirador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando se procura o sol&lt;br /&gt;e seu dialéctico contrário&lt;br /&gt;o sul&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só quando se sabe&lt;br /&gt;que a monotonia cresta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só quando ligado a nada&lt;br /&gt;só quando ligado a tudo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem ofender&lt;br /&gt;a vida presta.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;69-06-18-vi&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porto, &lt;strong&gt;18/Junho/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só quando se procura o sol&lt;br /&gt;e seu dialéctico contrário&lt;br /&gt;só quando se sabe quanto a monotonia cresta&lt;br /&gt;só quando ligada a nada&lt;br /&gt;só quando ligada a tudo&lt;br /&gt;a vida presta&lt;br /&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115062371518235838?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115062371518235838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115062371518235838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/s-quando.html' title='SÓ QUANDO'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115054348015112117</id><published>2006-06-17T04:19:00.000-07:00</published><updated>2006-06-17T04:31:00.463-07:00</updated><title type='text'>SE É DE VIDA QUE FALAMOS</title><content type='html'>&lt;em&gt;1-1 quarta-feira, 8 de Janeiro de 2003 - 2176 bytes -1969-ii&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;SINAIS NO ASFALTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;17/6/1969&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No solo&lt;br /&gt;mais propriamente na rua&lt;br /&gt;não são pegadas&lt;br /&gt;mas o sinal&lt;br /&gt;o lugar ainda quente&lt;br /&gt;das mãos&lt;br /&gt;o que assinala a vida.&lt;br /&gt;Se é de vida que falamos&lt;br /&gt;e não de carburadores&lt;br /&gt;de um lado ao outro lado da rua&lt;br /&gt;e não de motores velocipédicos&lt;br /&gt;de um e outro lado do mundo&lt;br /&gt;e não de antros milimétricos&lt;br /&gt;com seus pequenos monstros analfabetos&lt;br /&gt;com seus impulsos de segundo (a prazo)&lt;br /&gt;com suas amígdalas e amizades&lt;br /&gt;suprimidas&lt;br /&gt;com suas grandes rotas que não deixam sulco.&lt;br /&gt;Se é de vida que falamos&lt;br /&gt;deixo de habitar a fome em que normalmente habito&lt;br /&gt;deixo fugir da liberdade que geralmente não tenho&lt;br /&gt;o pássaro branco&lt;br /&gt;e sob o fino manto em que estudo o mundo&lt;br /&gt;de breves alucinações e de características vozes&lt;br /&gt;traço o rumo.&lt;br /&gt;Se é de vida que falamos&lt;br /&gt;é o homem na sua solidão essencial&lt;br /&gt;o que vejo no solo&lt;br /&gt;mais propriamente na rua&lt;br /&gt;de que falo&lt;br /&gt;quer a água suba ao seu nível próprio&lt;br /&gt;quer não&lt;br /&gt;e as pegadas das mãos&lt;br /&gt;ainda quentes&lt;br /&gt;fiquem no asfalto.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-2 quarta-feira, 8 de Janeiro de 2003-novo word - 2304 bytes -1969-IV&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NADA MELHOR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lisboa, &lt;strong&gt;17/6/1969 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada melhor do que as estatísticas&lt;br /&gt;ó humanos de ferozes dentes&lt;br /&gt;para curar complexos&lt;br /&gt;e na página da D. Aurora&lt;br /&gt;nada melhor&lt;br /&gt;para combinar casamentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nomes santos nas ruas&lt;br /&gt;as modalidades em voga&lt;br /&gt;de inversão&lt;br /&gt;desde as ardilosas manicuras&lt;br /&gt;aos graxas de grande agilidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nada melhor do que as estatísticas&lt;br /&gt;para quem está no parque&lt;br /&gt;a ver de cima a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para adornar aos portos de mar&lt;br /&gt;para fazer as pazes com o Mal&lt;br /&gt;e para socorrer do celibato os incautos rapazes&lt;br /&gt;que nada temem porque já nada esperam&lt;br /&gt;além das fezes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nada melhor do que as estatísticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por doces razões de perpetuar o navio&lt;br /&gt;que construímos dentro da cidade&lt;br /&gt;com o Adamov no prato&lt;br /&gt;e um canto longínquo de toupeiras&lt;br /&gt;ainda vivazes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nada melhor do que as estatísticas&lt;br /&gt;para nos safar do abismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o frio não resulta&lt;br /&gt;e uma solidão de altos fornos ainda menos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o berço por sinal&lt;br /&gt;só por acaso é branco&lt;br /&gt;e tem já algumas nódoas suspeitas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se só quando se é cínico de verdade&lt;br /&gt;nos aceitam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então nada melhor e mais barato&lt;br /&gt;do que as estatísticas&lt;br /&gt;a trezentos por cento.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-06-17-va&gt; versos inéditos de ac - 3712 bytes -junº-17&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER, PRECISA-SE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;17/6/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;[Reabilitação do real quotidiano segundo o método automático da colagem]&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para conseguir cabeleiras que ainda é o mais barato&lt;br /&gt;para não dizer fácil para dizer fácil&lt;br /&gt;surdos batem os cascos de cavalo&lt;br /&gt;não há dúvida que batem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem a propósito o que se conta desse homem&lt;br /&gt;foi ontem exactamente à hora marcada para a inauguração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E batem levemente como quem chama a lírica&lt;br /&gt;a mestra invenção&lt;br /&gt;do Fogo na pré-história que já lá se encontrava antes da inauguração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cascos batem na tua cabeça na calçada como se fossem astros perdidos&lt;br /&gt;Batem na rua deserta&lt;br /&gt;antes da inauguração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a véspera de amanhã&lt;br /&gt;prevista para a inauguração&lt;br /&gt;exactamente à hora marcada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A face matutina do costume escondia várias cabeças&lt;br /&gt;de corte incerto&lt;br /&gt;e atrás da nuca podia ler-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER PRECISA-SE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer serve&lt;br /&gt;desde que tenha as medidas regulamentares&lt;br /&gt;e mãos capazes em bom estado de conservação&lt;br /&gt;Dos sentimentos esperam-se os mais eficazes&lt;br /&gt;Contrato estado novo bom uso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem nos dera a nós um casco novo&lt;br /&gt;um casco verdadeiro e ainda por cima veloz&lt;br /&gt;o sacana foi irresponsável e não disse nada&lt;br /&gt;disse cavalo&lt;br /&gt;que é como quem diz&lt;br /&gt;foi-se a milhares de quilómetros&lt;br /&gt;pirou-se&lt;br /&gt;e no fundo do jornal da tarde lia-se:&lt;br /&gt;MULHER PRECISA-SE&lt;br /&gt;Se possível com casa de banho e alguns bens&lt;br /&gt;guarda-se sigilo&lt;br /&gt;assunto sério&lt;br /&gt;resposta ao número 15.020&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi-se&lt;br /&gt;Nem mais uma palavra&lt;br /&gt;Foice&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora estou muito melhor&lt;br /&gt;digam lá o que disserem mas estou muito melhor&lt;br /&gt;A paz é um coito de Vermes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De quem é a Voz ou qualquer serve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER PRECISA-SE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Urgente pago bem mesmo destelhada&lt;br /&gt;para habitação temporária um pouco de passagem&lt;br /&gt;um pouco de tudo o que estiver à mão&lt;br /&gt;Dois palmos de joelho&lt;br /&gt;onde o nível das águas começa a subir&lt;br /&gt;e mais nada: contrato assinado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gaiato não fosse a perseguição de que foi vítima&lt;br /&gt;e já estaria longe&lt;br /&gt;onde ninguém lhe deite as unhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telefonaram era de prever&lt;br /&gt;por engano ou logo a seguir&lt;br /&gt;tinha acabado de sair neste momento&lt;br /&gt;Um momento por favor não desligue&lt;br /&gt;telefonaram por engano&lt;br /&gt;Desculpe com licença&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MULHER PRECISA-SE&lt;br /&gt;***&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115054348015112117?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115054348015112117/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115054348015112117' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115054348015112117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115054348015112117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/se-de-vida-que-falamos.html' title='SE É DE VIDA QUE FALAMOS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115011155771290259</id><published>2006-06-12T04:10:00.000-07:00</published><updated>2006-06-12T04:28:34.476-07:00</updated><title type='text'>QUE FIZERAM DE TI?</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;63-06-15-va&gt; - versos inéditos de afonso cautela – revisão em 2001-12-05 - 2048 bytes - junhº-15&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IMPESSOAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;15/6/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;automática morte&lt;br /&gt;quase verde&lt;br /&gt;inerme temporal&lt;br /&gt;folha de vento&lt;br /&gt;azul pensamento&lt;br /&gt;lentamente mais tarde?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;reflexo de sol&lt;br /&gt;ervas de vidro transparente&lt;br /&gt;núbil operário crucificado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;de tão sanguíneo lago&lt;br /&gt;de tanta e tão calma&lt;br /&gt;ocultação dos bichos&lt;br /&gt;morte natural?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;que disseram de ti&lt;br /&gt;quem te cantou&lt;br /&gt;a raiva de viver&lt;br /&gt;sem amor&lt;br /&gt;a raiva de aqui estar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;inerme cadáver sem raiz&lt;br /&gt;folha quase verde&lt;br /&gt;noite que ainda agora adormeceu&lt;br /&gt;ao acordar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;sinal do tédio&lt;br /&gt;brusca cicatriz&lt;br /&gt;marca do mal&lt;br /&gt;gemido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;algema&lt;br /&gt;manhã&lt;br /&gt;berço&lt;br /&gt;animal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fizeram de ti&lt;br /&gt;Que fizeram de nós?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;63-06-15- va&gt; - versos de afonso cautela – 1963 – revisão em 2001-12-05 - junº&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA A UM SUICIDA FRACASSADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro, &lt;strong&gt;15/6/1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá porque te dói o corpo todo&lt;br /&gt;não vais com certeza protestar&lt;br /&gt;e mais o que o corpo os olhos&lt;br /&gt;de não chorar&lt;br /&gt;lá porque te doem os olhos&lt;br /&gt;e é cada vez uma chatice maior&lt;br /&gt;isto de aqui estar&lt;br /&gt;e não há dúvida&lt;br /&gt;não há saída&lt;br /&gt;não há ninguém&lt;br /&gt;não vais com certeza protestar&lt;br /&gt;abandonar-te a essa mania&lt;br /&gt;tão semelhante à morte&lt;br /&gt;de te suicidar&lt;br /&gt;ele há melhores formas de acabar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matar não é legal nem solução&lt;br /&gt;só o enjoo de puxar o gatilho&lt;br /&gt;ou o nó de acaso queres a corda&lt;br /&gt;outra chatice que nem vale o dinheiro&lt;br /&gt;e quando lá chegavas estava tudo cheio&lt;br /&gt;com o barco a apitar&lt;br /&gt;a lotação esgotada&lt;br /&gt;e já não era a primeira vez&lt;br /&gt;além de que chovia&lt;br /&gt;merda&lt;br /&gt;mas enfim é lá contigo&lt;br /&gt;experimenta e diz-me qualquer coisa do efeito&lt;br /&gt;pode ser à entrada de um café&lt;br /&gt;muita gente à saída&lt;br /&gt;já se sabe&lt;br /&gt;na rua já se sabe também muita gente&lt;br /&gt;a mesma igual e agitada porcaria&lt;br /&gt;talvez o tom de azeitona madura&lt;br /&gt;resulta&lt;br /&gt;ou a cor de Cobalto&lt;br /&gt;te fique melhor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos&lt;br /&gt;ah é verdade os amigos&lt;br /&gt;que ideia pois é os amigos às vezes&lt;br /&gt;os amigos nem sempre&lt;br /&gt;o certo é que tu não ias chatiar&lt;br /&gt;mas os amigos naturalmente&lt;br /&gt;já estavam chatiados&lt;br /&gt;e não há nada a fazer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui para nós&lt;br /&gt;que ninguém nos ouve&lt;br /&gt;ouve-me bem e acata meus conselhos&lt;br /&gt;tu até podes ser muito feliz e casar&lt;br /&gt;já não é o primeiro que ganhou bastante&lt;br /&gt;e foi por igreja&lt;br /&gt;falou-se muito do copo de água nos dias seguintes&lt;br /&gt;mas tão rapidamente quanto as pernas to permitam&lt;br /&gt;e a úlcera&lt;br /&gt;faz o que podes&lt;br /&gt;todos fazem o que podem&lt;br /&gt;ir à praia ao domingo por exemplo&lt;br /&gt;na condição de regressares à tarde no comboio da noite&lt;br /&gt;e podes mesmo sonhar se acaso ainda não perdeste&lt;br /&gt;aquele aparelho de sonhar que te deram&lt;br /&gt;se perdeste manda fazer outro&lt;br /&gt;criador de sonhos&lt;br /&gt;parecido com uma máquina de moer café fora de uso&lt;br /&gt;se acaso já perdeste - ia eu dizendo -&lt;br /&gt;a capacidade de fazer sonhos à mão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tens razão tudo isto&lt;br /&gt;é um verde vómito pelo esófago acima&lt;br /&gt;uma grandessíssima merda ia eu a dizer desculpa&lt;br /&gt;mais forte do que nós&lt;br /&gt;mas por isso mesmo é que dá vontade&lt;br /&gt;de andar aos pontapés com alguém&lt;br /&gt;amar alguém&lt;br /&gt;o que custa é não estar aqui&lt;br /&gt;é estar com uma perna para cada lado&lt;br /&gt;e no lugar da cabeça&lt;br /&gt;um tornado&lt;br /&gt;olha&lt;br /&gt;aconselho-te a dormir&lt;br /&gt;dias meses seguidos&lt;br /&gt;depois é igual mas ficas melhor&lt;br /&gt;e mais leve&lt;br /&gt;enquanto dura a semi-claridade do sono&lt;br /&gt;depois é outra vez&lt;br /&gt;noite&lt;br /&gt;e nunca se sabe&lt;br /&gt;porque à noite todos os gatos costumam ser pardos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto é niilismo pois claro&lt;br /&gt;esta luz que fere como um vidro&lt;br /&gt;ou uma lâmina&lt;br /&gt;e os dedos como se fossem pétalas&lt;br /&gt;a desprender-se um por um&lt;br /&gt;ou as mãos a cair uma por uma&lt;br /&gt;ou as células&lt;br /&gt;a desfazer-se&lt;br /&gt;esta amargura esta lenta e fina amargura&lt;br /&gt;tão semelhante às gredas dos Açores e afinal&lt;br /&gt;quem se admira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem paciência já agora aguenta já te disse&lt;br /&gt;meia bola e fé em deus&lt;br /&gt;avança pró rectângulo e não ligues aos apupos da Canalha&lt;br /&gt;isto de dormir não dá sempre resultado&lt;br /&gt;e pode haver recaídas&lt;br /&gt;acorda uma pessoa se é que acorda com uma grande dor do lado&lt;br /&gt;do coração que é o lado das grandes dores o cabrão&lt;br /&gt;ou então pachorrento procura no cemitério logo de manhã&lt;br /&gt;procura como os cães procuram remexendo nos caixotes&lt;br /&gt;procura por toda a parte no interstício das lousas&lt;br /&gt;não partes as unhas&lt;br /&gt;a grande verdade&lt;br /&gt;é só fazer qualquer coisa por desespero&lt;br /&gt;e não esqueças que o melhor é não ser valente&lt;br /&gt;muitos se armaram e já lá estão pra sempre&lt;br /&gt;experimenta uma vez por ano&lt;br /&gt;uma vez em cada século podes ser o Escolhido&lt;br /&gt;podes ser o que Encontra e só a ti acontece&lt;br /&gt;experimenta anda até tarde&lt;br /&gt;talvez as pedras falem talvez as bocas se abram&lt;br /&gt;quem sabe se para te beijar&lt;br /&gt;se conseguires não desconfiar&lt;br /&gt;e quem sabe&lt;br /&gt;quem sabe&lt;br /&gt;quem sabe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estás crescendo e és jovem&lt;br /&gt;em ti não houve esperança mas és jovem&lt;br /&gt;há tantos anos jovem&lt;br /&gt;que vais ficando velho&lt;br /&gt;mas insiste procura mastiga ensaliva bem e pode ser&lt;br /&gt;que apareça no meio de uma grande estepe Azul&lt;br /&gt;inundada de Sol&lt;br /&gt;o Cavaleiro da Rosa em seu corcel&lt;br /&gt;ou uma estrada um sinal uma lembrança&lt;br /&gt;que leve ao castelo medieval&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se te pergunteram para que serves&lt;br /&gt;responde que és um bocado de Sol que se extraviou do Pai&lt;br /&gt;um resto de Ternura que te ficou de pequeno&lt;br /&gt;Mas vai&lt;br /&gt;Hoje é para te dizer apenas&lt;br /&gt;que encontrei a fórmula serena&lt;br /&gt;que abri a porta aberta ao Deserto&lt;br /&gt;e que não te quero convencer de Nada&lt;br /&gt;mais do que estou perto&lt;br /&gt;Descobri que a morte é uma forma disfarçada&lt;br /&gt;de existir&lt;br /&gt;e não estou disposto à farsa&lt;br /&gt;e a vida&lt;br /&gt;essa é a mais alta forma de colaboração com o Inimigo&lt;br /&gt;a mais velha Corte da Europa em Ruínas&lt;br /&gt;a cair de velha e a pedir guilhotina há muitos anos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queriam pegar-me de lado - imagina - mas raspei-me&lt;br /&gt;pelo sítio mais fundo - o das Ostras - da enseada breve&lt;br /&gt;por isso vim aqui e te chamei&lt;br /&gt;porque estou hoje humaníssimo&lt;br /&gt;e até se vê de fora&lt;br /&gt;porque tive um radioso encontro com a mágica mandala dos universos sucessivos&lt;br /&gt;e no fundo da gaveta fui encontrar&lt;br /&gt;um deserto de penas multicores - é só ligar&lt;br /&gt;e um corpo sensível devorado de gritos&lt;br /&gt;ou de répteis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como deves calcular fiquei satisfeitíssimo&lt;br /&gt;com estas metáforas&lt;br /&gt;que não me custam nada e (deves concordar) são felizes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso&lt;br /&gt;descobri o Crime perfeito&lt;br /&gt;que dispensa carros de aluguer e motos de corrida&lt;br /&gt;que mata sem lágrimas&lt;br /&gt;sem vestígios&lt;br /&gt;sem dor&lt;br /&gt;sem sangue&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma espécie de Cianeto mas muito moderno&lt;br /&gt;talvez o Veneno mais potente da terra&lt;br /&gt;mas que só tem o Defeito de não ser completamente mortal&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-3 - 63-06-15-va&gt; scan domingo, 17 de Novembro de 2002&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beja, &lt;strong&gt;15 de Junho 1963&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e não vais protestar rapazinho&lt;br /&gt;lá porque te dói&lt;br /&gt;o corpo todo de uma ponta a outra&lt;br /&gt;e mais do que o corpo&lt;br /&gt;os olhos sabes lá porque te doem os olhos mas sabes&lt;br /&gt;isto é cada vez uma chatice maior e não há dúvida&lt;br /&gt;não há saída ou saída há mas ninguém sabe e todos ficam a olhar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é por isso rapazinho não vale a pena abandonar a pele&lt;br /&gt;essa tua obcecada mania tão semelhante a um aerólito&lt;br /&gt;tão semelhante&lt;br /&gt;matar-te não é legal mas que bom e além disso também não é solução&lt;br /&gt;só o enjoo de pensar nisso e ter que dar ao gatilho&lt;br /&gt;ou o nó a corda se acaso escolheste a corda&lt;br /&gt;merda aliás é outra&lt;br /&gt;chatice que nem vale o dinheiro e quanto lá chegavas&lt;br /&gt;era muito capaz de estar aquilo tudo cheio a lotação esgotada&lt;br /&gt;conforme a hora quando se chega e já não era a primeira vez&lt;br /&gt;mas talvez experimenta entre gritos é lá contigo pode ser&lt;br /&gt;à entrada de um café já se sabe muita gente à saída&lt;br /&gt;já se sabe na rua já se sabe a mesma igual irresoluta&lt;br /&gt;porcaria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Água espessa entre o cinzento e a cor de azeitona verde&lt;br /&gt;cobalto quase os amigos pois é os amigos às vezes&lt;br /&gt;fazem jeito às vezes é claro que não venho chatiar&lt;br /&gt;mas é claro às vezes já estavam chatiados e não há nada a fazer&lt;br /&gt;pois é os amigos mas só às vezes sempre também aborrece&lt;br /&gt;é mesmo uma chatice às vezes até maior tu que o digas maior&lt;br /&gt;chatice do que aqui estar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ia dizendo uma água espessa de cor indefinida&lt;br /&gt;os amigos já de si muito ocupados ainda capazes de desejarem felicidades&lt;br /&gt;também não se pode ser muito exigente amigo&lt;br /&gt;aqui para nós até podes ser muito feliz e casar já não é o primeiro&lt;br /&gt;que ganhou bastante e foi por igreja do copo de água falou-se muito&lt;br /&gt;não tão rapidamente quanto as pernas to permitem cada um faz o que&lt;br /&gt;pode&lt;br /&gt;isso é lá contigo e continuas em cima podes mesmo ir à praia ao&lt;br /&gt;domingo na condição de regressares à tarde no comboio da noite&lt;br /&gt;e podes sonhar se ainda não perdeste o aparelho&lt;br /&gt;se perdeste mandas&lt;br /&gt;fazer outro criado de sonhos&lt;br /&gt;assim parecido com uma máquina de fazer café&lt;br /&gt;se acaso não perdeste ia eu dizendo a capacidade de fazer sonhos&lt;br /&gt;tens razão é um grandessíssimo vómito a subir do baixo ventre&lt;br /&gt;pelo esófago acima até à boca&lt;br /&gt;uma grandesíssima merda ia eu a dizer mais forte do que nós&lt;br /&gt;mas por isso mesmo é que dá vontade de amar uma vontade raivosa&lt;br /&gt;de amar&lt;br /&gt;dá vontade de andar aos pontapés eu sei&lt;br /&gt;custa o que custa não é estar aqui é estar com uma perna para&lt;br /&gt;cada lado e no lugar da cabeça&lt;br /&gt;um tornado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é poder deixar de estar&lt;br /&gt;para conselho estou por aqui e aconselho-te o melhor&lt;br /&gt;palavra de honra é dormir e dorme&lt;br /&gt;depois é igual mas ficas mais leve é só enquanto dura aquela&lt;br /&gt;semi-claridade do sono&lt;br /&gt;isso é que é bom de apreciar principalmente num jovem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o resto é niilismo não concordas? da cabeça ainda menos&lt;br /&gt;a quererem saltar os miolos com muita força quase a rebentar&lt;br /&gt;doer-te-ão menos parece que o caso foi comprovado por médicos&lt;br /&gt;esta luz que os fere é claro falava dos olhos que os fere&lt;br /&gt;como vidros mas prefiro a imagem da lâmina a fazer golpezinhos&lt;br /&gt;nas pálpebras e depois arrancar com os dedos uma por uma&lt;br /&gt;um por um os bocadinhos ora se sangrar é o menos sangrar a direito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esta amargura esta lenta fina tortura muito semelhante&lt;br /&gt;à lâmina amigo tem paciência&lt;br /&gt;já agora já te disse isto de dormir de lado não dá sempre&lt;br /&gt;resultado acorda uma pessoa com uma grande dor do lado do&lt;br /&gt;coração agonia lenta não percebo vou chamar agora é que&lt;br /&gt;te vou chamar&lt;br /&gt;procura no cemitério logo de manhã pode ser que encontres&lt;br /&gt;talvez encontres por toda a parte a grande mentira a mentira&lt;br /&gt;mais pequena&lt;br /&gt;só fazer qualquer coisa por desespero não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é contigo falta-te o melhor coragem para ser valente o&lt;br /&gt;melhor é não ser valente experimenta um vez&lt;br /&gt;por ano&lt;br /&gt;em cada século podes ser o escolhido lentamente a justiça&lt;br /&gt;entre tantos que procuram a mesma coisa só a ti aconteceu&lt;br /&gt;procura anda até tarde talvez as pedras falem as bocas&lt;br /&gt;para te falar e quem sabe para te beijar e quem sabe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quem sabe procura procura sempre até tarde&lt;br /&gt;as paredes que só costumam ter ouvidos tenham nesse dia bocas&lt;br /&gt;para te falar e quem sabe para te beijar alguém procura&lt;br /&gt;à tua espera alguém para te beijar é verdade&lt;br /&gt;que estás crescendo que está crescendo em ti não houve&lt;br /&gt;esperança foi coisa que por já ires ficando procura é verdade&lt;br /&gt;estás crescendo dou-te razão existindo há tantos anos é caso&lt;br /&gt;para ires ficando um pouco farto pode ser que apareça&lt;br /&gt;no meio de uma grande estepe igual à de onde estás inundada de sol&lt;br /&gt;falta uma estrada um sentido um caminho&lt;br /&gt;procura falta procura falta procura falta um sentido uma estrada procura&lt;br /&gt;estar aqui já tu sabes que é estar aqui se te perguntarem&lt;br /&gt;para que serves diz que já tens servido se te interrogarem&lt;br /&gt;para onde vais diz que fazes que já tens feito e que és de facto&lt;br /&gt;um resto&lt;br /&gt;de sol um resto da planície rapazinho um resto&lt;br /&gt;obediente inundado de sol vai procura vê&lt;br /&gt;vê se aguentas vê se aguentas &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115011155771290259?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115011155771290259/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115011155771290259' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115011155771290259'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115011155771290259'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/que-fizeram-de-ti.html' title='QUE FIZERAM DE TI?'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115010976834138955</id><published>2006-06-12T03:52:00.000-07:00</published><updated>2006-06-12T04:30:11.596-07:00</updated><title type='text'>A FAZER HORAS</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;em&gt;63-06-13-vs&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POR AQUI A FAZER HORAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Tavira, &lt;strong&gt;13/6/1963&lt;/strong&gt;]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por aqui a fazer horas&lt;br /&gt;a fazer pela vida&lt;br /&gt;vai ali um cão pela trela&lt;br /&gt;chateado e a criança&lt;br /&gt;que de criança não tem nada&lt;br /&gt;ao lado.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Por aqui a tirar mortos dos autênticos&lt;br /&gt;cada um do seu saco&lt;br /&gt;que mais parecem&lt;br /&gt;mares interiores do que ninguém&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do fundo de um poço de um mar de um saco&lt;br /&gt;a tirar a verdade como quem tira um dente&lt;br /&gt;por aqui não anda ninguém&lt;br /&gt;e é tarde.&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;Mais isto amor&lt;br /&gt;um texto antigo&lt;br /&gt;tão antigo&lt;br /&gt;nem te conheço não&lt;br /&gt;não te conheço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sirene veloz&lt;br /&gt;pela cidade dentro&lt;br /&gt;a única suspensa&lt;br /&gt;um livro na distância&lt;br /&gt;com a capa cinzenta&lt;br /&gt;a tua voz&lt;br /&gt;a para ti para ninguém&lt;br /&gt;falta-me o rosto&lt;br /&gt;o teu rosto&lt;br /&gt;falta-me a esperança&lt;br /&gt;a tua esperança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde vieste amor&lt;br /&gt;Porque vieste?&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;A morte é duas vezes menos eficaz&lt;br /&gt;do que esta sombra encostada&lt;br /&gt;do que esta água&lt;br /&gt;a solidão parada&lt;br /&gt;abre certeiramente e corre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por aqui por ali mais adiante&lt;br /&gt;o tirano compra e alguém se vende.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 quinta-feira, 9 de Janeiro de 2003 - 63-06-13-cd&gt; &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAIS UM TEXTO ANTIGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;13-Junho-1963 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais um texto antigo&lt;br /&gt;E tão antigo que te não conheço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma sirene veloz pela cidade fora&lt;br /&gt;Que o medo fica ao pé de nós&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais a certeza de ser eu esse livro&lt;br /&gt;Ou na distância essa capa cinzenta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais aqui mais ali um eficaz detergente&lt;br /&gt;Afinal amor de onde vieste? &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115010976834138955?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115010976834138955/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115010976834138955' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115010976834138955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115010976834138955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/fazer-horas.html' title='A FAZER HORAS'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29588644.post-115010241808442006</id><published>2006-06-12T01:51:00.000-07:00</published><updated>2006-06-12T04:30:53.343-07:00</updated><title type='text'>RELÓGIO DE SAL</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;61-06-12-vs&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SER A META DE SANGUE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;12/6/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser a meta de sangue&lt;br /&gt;a meio da estrada&lt;br /&gt;e falar&lt;br /&gt;no mais oculto canto subterrâneo&lt;br /&gt;falar aos surdos&lt;br /&gt;desta pátria&lt;br /&gt;de solidão.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;1-1 - quarta-feira, 8 de Janeiro de 2003-scan - 61-06-12-vp&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SE EM VEZ DE ESCREVER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[Publicado em «Caderno Alfa – Poesia 1» - Coimbra, Fevereiro de 1964]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tavira, &lt;strong&gt;12-Junho-1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em vez de escrever&lt;br /&gt;Dormisse&lt;br /&gt;Se do tecto descessem&lt;br /&gt;Em vez de aranhas&lt;br /&gt;Cordas&lt;br /&gt;Se no côncavo das horas&lt;br /&gt;Em vez de te encontrar&lt;br /&gt;Te matasse&lt;br /&gt;Era para ti&lt;br /&gt;O que restar de mim&lt;br /&gt;E nunca existiu&lt;br /&gt;Chamas para te inventar&lt;br /&gt;Na ponta de uma lança&lt;br /&gt;Amor&lt;br /&gt;Ponto cardial do tempo&lt;br /&gt;Onde incomensurável&lt;br /&gt;Cresces&lt;br /&gt;E o mar&lt;br /&gt;É só a tua ausência&lt;br /&gt;Que ficou&lt;br /&gt;Só&lt;br /&gt;A roda sem fim&lt;br /&gt;Sem meio&lt;br /&gt;E sem princípio&lt;br /&gt;Do infinito.&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;em&gt;61-06-12-vs&gt; -2304 bytes - junº-12&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RELÓGIO DE SAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faro, &lt;strong&gt;12/6/1961&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;pés de sol&lt;br /&gt;em chão verde&lt;br /&gt;chão&lt;br /&gt;pés de mesa&lt;br /&gt;em vão&lt;br /&gt;de onda&lt;br /&gt;ou escada&lt;br /&gt;pés de múmia&lt;br /&gt;na pele&lt;br /&gt;na água&lt;br /&gt;na sombra&lt;br /&gt;hoje ontem amanhã&lt;br /&gt;canção incompleta&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Um rato seco&lt;br /&gt;pedra sobre pedra&lt;br /&gt;apenas o rastro&lt;br /&gt;o dado no telhado&lt;br /&gt;o cisco&lt;br /&gt;o lápis do cabelo&lt;br /&gt;seco&lt;br /&gt;a nora&lt;br /&gt;finge a magra esfinge&lt;br /&gt;seca do seu osso&lt;br /&gt;que roeu seco&lt;br /&gt;e duro pouco&lt;br /&gt;o flanco&lt;br /&gt;a raiz das palavras&lt;br /&gt;o símbolo da água&lt;br /&gt;um veio atmosférico nos peixes&lt;br /&gt;de respiração sanguínea&lt;br /&gt;seca&lt;br /&gt;declives de amoras&lt;br /&gt;entre parêntesis&lt;br /&gt;um rato&lt;br /&gt;um rapto&lt;br /&gt;pedra sobre pedra&lt;br /&gt;um rato&lt;br /&gt;seco&lt;br /&gt;Ramo seco&lt;br /&gt;em ponto morto&lt;br /&gt;a flauta&lt;br /&gt;de aflitas sedes&lt;br /&gt;de crianças fulvas&lt;br /&gt;de jardins suspensos&lt;br /&gt;de sonoras sedes&lt;br /&gt;água de ignorância&lt;br /&gt;que nunca mais invente&lt;br /&gt;que nunca mais se lembre&lt;br /&gt;que se radique&lt;br /&gt;que mova e dissolva&lt;br /&gt;seco monólogo&lt;br /&gt;diálogo&lt;br /&gt;seco &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29588644-115010241808442006?l=abelartigot-puzzle.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/feeds/115010241808442006/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29588644&amp;postID=115010241808442006' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115010241808442006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29588644/posts/default/115010241808442006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://abelartigot-puzzle.blogspot.com/2006/06/relgio-de-sal.html' title='RELÓGIO DE SAL'/><author><name>abel campos artigot que edita o blog de afonso cautela</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06626323338418825790</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
